Relativismos

Bijagós

Nas sociedades confortáveis o inferno são sempre os outros e dos outros. Podemos escrever milhares de caracteres sobre vítimas e torcionários, e continuaremos a não perceber de que falamos quando falamos de mutilação genital.

Se houvesse uma estatística do sofrimento, a escala seria determinada pela nossa identificação com esse sofrimento. A gravidade das tragédias formata-se nos ecrãs da televisão, do computador ou dos smartphone. E mostrar uma genitália barbaramente amputada, coberta de sangue, “não vende” como se diz na gíria jornalística. Nós, os não expostos à violência extrema, vivendo num mundo de previsibilidades e colchões, desembaraçamo-nos do problema: isso é coisa deles, os “selvagens”, os “bárbaros”.

 Por aqui se percebe que na Guiné-Bissau, perante a indiferença (quase) geral, metade das mulheres e meninas continuem a ser expostas ao fanado ou que em Moçambique os órgãos sexuais de meninos sejam decepados, por um punhado de euros, para serem usados em práticas de feitiçaria. Eles vivem “lá”, um lugar remoto de desespero e passividade, um lugar irreal para nós “civilizados”.

 Só que não nos damos conta que essa barbárie “deles” ainda acontece aqui, na nossa fortaleza Europa, em nome de um preceito vago de pureza (ou impureza)  e aconteceu, aqui ao lado, em Itália durante quatrocentos anos. Se gosta das árias de Handel, sabe do que estou a falar. É a música tecnicamente mais difícil para a voz humana.Algumas das árias mais tristes de toda a literatura vocal são as  dos castrati. São árias duma mágoa infinda. Interpretadas por vozes de anjos de caídos. Escritas para os  milhares de meninos castrados aos 6,7, 8 anos. Um crime que aconteceu aqui, na nossa Europa, até ao início do século XX,   em nome da “Arte” (sacra)  e para o divertimento de muitos.

Os castrados surgiram no século XVI, quando o Papa Sisto V aprovou, em bula papal de 1589, o recrutamento de castrati  para o coro da Igreja de São Pedro, em Roma. As castrações eram feitas  geralmente em rapazes pobres, órfãos ou abandonados, sem a protecção familiar. Nápoles era a capital dos castrados – era em instituições ligadas à Igreja que se educavam os castrati. À porta das barbearias locais eram comuns os letreiros: “Qui si castrano ragazzi a buon mercato!” (aqui castram-se rapazes a bom preço).  Desses milhares de  jovens que anualmente eram mutilados ficaram as glórias de Farinelli, Cafarelli e Sanesino.

Faz agora um ano que a mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli  apresentou um CD  que é uma homenagem aos  castrati, um álbum virtuoso cujo  nome não podia ser mais adequado  Sacrificium.


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