A diplomata e a chefe dos índios

Desde que ela nasceu que a casa se encheu de riso e suavidade. Ria com gargalhadas claras como a água, tão contagiantes que dela diziam ser um raio de sol.

À sua roda no Kindergarten os meninos e as meninas sentiam-se bem. Era princesa entre piratas. Em casa, trepava as escadas da cama como se fossem degraus de uma fortaleza de brincar e punha-se a cantar. Tinha uma voz luminosa, como se a “água ou o vidro se rissem”. Num instante os legos transformavam-se numa orquestra. Adorava a música e adormecia embalada por canções antigas.Quando brincava às profissões dizia querer ser luthier. Depois piloto ou professora. Coleccionava pedras de todas as cores e feitios que escondia atrás dos cortinados.

Olhava para vida cheia de curiosidade, respirando o seu perfume. “Mami, há tantas coisas que eu não sei. Leva-me a vê-las”. Lembro-me dela aos cinco anos a desenhar, tranquilamente, em conferências de imprensa, quando falhava a baby-sitter. Conhecia pelo nome políticos e presidentes e adorava o jogo das capitais. Queria devorar o mundo.

Ontem, vê-la com os meus sapatos pretos de saltos desmedidos, dei-me que conta que cresceu. Já viaja sozinha, fala com a mãe em inglês no Facebook. O violino, companheiro predilecto da meninez, passa demasiado tempo no estojo. Mas, ainda hoje, no equinócio entre a infância e a adolescência, a Joana é uma diplomata. Às vezes.

 A Matilde chegou à vida muito apressada e nunca mais parou. Sempre com um ar travesso de quem tem que explorar grutas misteriosas, tesouros debaixo da cama, e não pode perder tempo com os trabalhos de casa.De caixas de sapatos constrói galáxias cheias de reflexos de mil cores. Embalagens de ovos são crocodilos. É a minha ourives, faz-me colares e pulseiras. E colagens. E desenhos, muitos desenhos. As suas mãos quase nunca têm cor definida cobertas que estão de restos de tinta ou de terra. Nas pernas um mapa das traquinices: nódoas negras, umas mais azuis, outras já amareladas. A bicicleta ou os patins são uma espécie de extensão natural das pernas.Gosta de livros de detectives e aventuras. De um abraço apertado e nada de muitos beijinhos. Queria ter como animal de estimação uma minhoca e viver numa pirâmide.

É uma sedutora de um metro de altura, olhos grandes muito escuros e fina inteligência. Conseguiu entrar no cofre-forte que são hoje em dia os cockpits, começar uma sessão de cinema, que o homem do lixo a deixasse carregar nos botões todos do camião e e e….É a chefe índia, a Pipi meias-altas da escola. Tem um ar tão feliz.

 Nos dias de calmaria, sala é uma espécie de Nações Unidas, a diplomata e a chefe dos índios sentam-se no sofá agarradinhas e riem por tudo e por nada. Se há apenas uma definição de felicidade então que seja esta.

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3 Comentários

Filed under Felicidade

3 responses to “A diplomata e a chefe dos índios

  1. Lindo o texto sobre as filhas. Tesouro maior na vida não há.
    Parabéns, os louros são seus (e do Paulo também, lógico).

  2. Pingback: Carta a Matilde | Domadora de Camaleões Blog

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