Camarada Bob

Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

Num dia o senhor das oportunidades perdidas passeia-se por Hong Kong e faz compras de milionário. Alguns dias depois põe os galões empoeirados de libertador e herói da independência e é recebido com deferência pelos líderes da SADC, numa reunião inútil destinada a “analisar” a situação do Zimbabué e a “evolução” da vida política. Como se houvesse vida política no Zimbabué para além do “camarada Bob”.

Ainda sob efeito do jetlag passei a noite de ontem a ler Our Votes, our guns: Robert Mugabe and the Tragedy of Zimbabwe. Uma acutilante narrativa da carreira política do déspota africano. É um desfilar de atrocidades, corrupção, nepotismo, terror, massacres e opulência da elite ligada ao ZANU-PF. Este livro não será certamente a última palavra sobre o tirano, mas é uma boa introdução. Introdução que põe também a nu o drama da comunidade internacional.

O caos no antigo celeiro de África mostra como os países ocidentais não sabem lidar com as crises humanitárias ou com conflitos nas suas antigas colónias.

Só quando um conflito étnico atinge proporções bíblicas ou um déspota pós-independência se diverte a assassinar parte da população nos seus gabinetes assépticos a comunidade internacional reage em três fases: “condena” os acontecimentos, “exerce pressão” e “coordena os esforços no sentido de se encontrar uma solução para crise”. Quando nada funciona impõem-se “sanções económicas”. Depois continuam a assobiar para o lado de consciência tranquila, dispostos a nada mais fazer. Apetece dizer: meus senhores se não querem agir – pôr ordem em situações caóticas, lutar pelos direitos liberdades e garantias do mundo dito “civilizado” – então deixem-se de levantar o dedo, de superioridades morais e de hipocrisias acerca do comportamento dos governantes doutros países. Não há paciência para o politicamente correcto!

 África (não todo o continente é certo) precisa desesperadamente de grandes homens e grandes chefes, lá e cá, mas a amostra que temos é desoladora.


One thought on “Camarada Bob

  1. Pois é…
    Também na União Europeia e noutras organizações regionais, não há o costume de se “descascar”os membros mal comportados do grupo em público… E nalguns momentos acredito que este comportamento se encaixa na tipica “sabedoria” africana que aos olhos do mundo tem outras interpretações…

    roupa suja se lava em casa…

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