A minha Berkeley

Sento-me no Starbucks  da Telegraph Avenue e um jovem  na mesa à frente diz a um colega : “O Arizona era tolerante com os ilegais, o que é que aconteceu ?”. Noutra mesa discutia-se o mesmo tema. O Starbucks, em frente à Universidade de Berkeley, é frequentado por estudantes, neo-hippies, eco-yuppies que conduzem Prius e turistas acidentais. Aqui as mesas são  confortáveis, há sofás, jornais e “wireless” de graça, e entre dentadas no melhor bolo orgânico  de canela da cidade e golos de um cappucino personalizado ( do tipo de café, ao leite low-fat ou de soja) discute-se política.

Do outro lado da avenida viveram-se nos anos sessenta momentos conturbados. Berkeley, uma das mais conceituadas universidades norte-americanas, com dez Nobel entre os seus professores, foi o berço  do FSM , o “Free Speech Movement”. Os  protestos  estudantis que varreram universidades da Europa, EUA e América Latina nos anos 60 não tiveram como ponto de partida o Maio de 68 francês na Sorbonne e em Nanterre, mas no FSM na Universidade de Berkeley , em Outubro de 1964. Hoje um café no campus  – graças a uma doação de 3,5 milhões de dólares de um ex-aluno – recorda o movimento  e as suas conquistas. Semanalmente os estudantes organizam acções de apoio ou de protesto contra alguma coisa: contra as tropas norte-americanas no Iraque, a favor de um estado palestiniano, lembrando o genocídio arménio ou  lutando pelo casamento homossexual.Tudo é respeitado num exercício saudável  de democracia. Não há a menor sombra de dúvida que Berkeley tem o corpo estudantil mais politicamente activo dos EUA. Os berkeleyanos têm muito orgulho deste espírito rebelde e liberal, o que aliás se expressa também nas placas de entrada na cidade. Quando se sai de Oakland e se entra em Berkeley  a placa diz “Nuclear Free Zone”. O meu vizinho declarou a sua casa, além de nuclear,  cell free zone (o que acontece em muitos cafés e restaurantes).

“Para julgar alguma coisa, tens de estar lá”. Embora esta como todas as generalizações seja contestável é um bom lema para qualquer jornalista que respeite a profissão. Perceber o Du neben dir é ambição, nem sempre cumprida, do repórter . Parti para Berkeley com a lição estudada: sabia que ia para o coração liberal da Califórnia, para uma cidade boémia e intelectualmente activa.Porém só visitando supermercados como o Wholefoods –  onde tudo é ” orgânico”, sem aditivos, corantes, conservantes , adocicantes ou qualquer tipo de químicos , onde a fruta e os legumes  sabem ao que a fruta  e os legumes deviam saber,  onde o peixe é fresco e pode ser comido sem peso de consciência porque não faz parte de uma espécie “sobrepescada”, onde  a carne não tem hormonas  e o sacos são de papel reciclado – passeando pelas lojas em segunda mão (de roupa, discos e mobiliário)  depois de reciclar o lixo ( tarefa mais científica do que na Alemanha) de ver  passar a frota de Prius nas ruas comecei  e de entrar nas livraria cheias de relíquias bibliófilas comecei  a entender a intrigante Berkeley.

Aqui o Stress parece não existir.Os dias começam com uma inevitável ida ao café, passam por uma refeição vegetariana ou vegana – num dos muitos e bons restaurantes da cidade – ou uma fatia de pizza , comida sentada na relva do separador central da Telegraph,  e acabam com  uma aula de ioga. Oomm, oomm.

Corpo e mente relaxados pode-se discutir política. O que aconteceu no Arizona? Uma espécie de “perfect storm” avança um dos estudantes no Starbucks. ” Uma combinação de alterações demográficas,aumento da criminalidade e queda da economia”. O undergraduate , sentado na mesa do Starbucks fez uma síntese excelente das causas da protestos em torno da lei SB 1017, que pretende afastar imigrantes ilegais do Arizona. Um debate que se está a fazer também aqui na Califórnia, com a candidata republicana ao Senado,  Carly Fiorina, a usar o exemplo do Arizona para questionar o estatuto de “cidades santuário” para imigrantes ilegais (como San Francisco).

O mundo está-se a fundir e a tornar-se multicultural, mas a pátria do “melting pot” parece, nalguns estados, querer inverter caminho. Apesar de procurar  exportar o seu modelo de democracia e de  estar muito preocupada com os direitos humanos continua a tratar muito bem de si mesma e muito mal dos outros. Felizmente que existem locais como Berkeley.

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