A bagageira da selecção

Declaração de interesses: gosto de futebol em geral e de jogos bem disputados em particular. Preocupa-me, no entanto, que a auto-estima nacional continue amarrada à âncora do futebol e que os portugueses mais influentes sejam Cristiano Ronaldo e José Mourinho.

Nas últimas semanas os media portugueses só falam de uma coisa: a selecção. Nenhuma cena paroquial, nenhuma caricatura nos foi poupada. Ler o desígnio de Queiroz, interpretar os seus silêncios tornou-se num passatempo. No léxico nacional entrou essa coisa perversa chamada vuvuzela.

Ontem, porém, a futebolização dos espaços noticiosos televisivos ultrapassou todos os níveis da decência. Sem parcimónia mobilizaram-se recursos humanos e materiais. Nem o helicóptero faltou. Com os jogadores a sair a conta gotas do hotel, para entrar no autocarro que os levaria ao aeroporto, os repórteres televisivos, desesperados, alinhavavam meia dúzia de banalidades e irrelevâncias. A coisa tornar-se-ia grotesca quando um jornalista começou a descrever o porta-bagagem do autocarro e as malas que a selecção levaria consigo para a África do Sul.

 Nós ainda vamos pagar – ou já estamos a pagar – bem caras as consequências desta ditadura futebolística. Em 2004 o sociólogo João Nunes Coelho no livro “Portugal, a Equipa de Todos Nós – Nacionalismo, Futebol e Media” olhava para o fenómeno futebol fora do campo e perguntava-se “como é que um fenómeno social que consegue fazer parar o país várias vezes ao ano e abre telejornais e bate recordes de audiência e tem capacidade para vender mais de 300 mil diários desportivos por dia não consegue ter nos estádios mais de uma média de cinco mil espectadores por jogo?”. Isso diz muito sobre a mediatização da sociedade portuguesa e também muito acerca da participação dos portugueses nas coisas e da sua acomodação.

(Algum)Portugal não tem mundo. E o mundo não o tem a ele.


One thought on “A bagageira da selecção

  1. Excelente texto!
    Parabéns Lena!
    Pior que tudo é mesmo esta “mania tuga” de criticar tudo e todos (treinador e jogadores) quando empatam ou perdem um jogo e eleva-los a Deuses quando ganham o seguinte….
    A velha história do Scolari (de bestial a besta!) repete-se e parece que ninguém aprendeu a lição.
    Será que um dia vamos deixar de ser tão pessimistas?

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