“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”

“ A ingratidão é um dos direitos humanos da indigência”. Este é um dos momentos/frases que mais me marcou na leitura de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” de Pedro Rosa Mendes. Afiada e dolorosa como uma lâmina esta frase reflecte muito do que se passa no hemisfério sul e particularmente no país/causa Timor Leste onde “memória não é passado”.

 A minha “relação” com este livro começou com um jantar em Díli, em Novembro de 2008, dias antes do artigo no Público sobre a falência do sonho timorense. Nessa altura já o Pedro Rosa Mendes estava em plena claustrofobia. À distância, numa outra ilha, a Islândia, o jornalista fez pause e o escritor recebeu um aviso de mobilização, criando um monumento de palavras que é crepúsculo e risco de luz. No Natal tive o privilégio de ter um capítulo de presente. Semanas mais tarde as provas finais, devoradas com um prazer de guloseimas. Prometi que só falaria sobre o livro quando o lançamento estivesse próximo. Está. Por isso aqui ficam as minhas impressões de leitura (numa adaptação de um texto escrito para a VISÃO de 06.05.2010 ).

O autor de “Baía dos Tigres”, está de volta com um romance exigente, denso, poético. Que fascina e apavora. E que foge do óbvio. Não é excessivo dizer que a “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” de Pedro Rosa Mendes se trata de uma das obras belas e corajosas a ser publicadas em Portugal este ano.

Se Timor Leste é o cenário, o cabo de onde se lançam as amarras, a “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” não é uma narrativa sobre Timor, senão sobre o arquipélago Malaio, porque não é possível compreender Timor sem se remeter para esse universo permeável à viagem. Em última instância, é um romance sobre Portugal.

Dalboekerk, indonésio, pai do herói do livro ( Alor) conspirador da corte em Jacarta e agente especial da Indonésia para Timor ao longo de 25 anos, comenta esta relação assim. “ Os povos timores têm uma avidez colectiva por alianças cósmicas que os absolvam da sua abjecta posição no fluir da história global. Portugal, no seu catolicismo atávico, feito regime e religião de Estado “Novo”, conseguiu convencê-los de uma conjugalidade primordial e necessária entre Timores e Portugueses, seus amigos e amantes. Pior: Portugal convenceu-se até da perenidade e excepcionalidade desta relação, comportando-se como se estas núpcias, concretizadas perante Deus valessem para eternidade. Mesmo para lá do fim, mesmo depois que a morte – com uma descolonização!- os separe. “Ai Timor””.

Uma das singularidades da “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” consiste em “universalizar” Timor Leste recorrendo a realidades simultâneas, vários tempos históricos, várias geografias e várias vozes. Num equilíbrio entre a distância emocional – Rosa Mendes nunca foi militante da “causa” timorense – e uma proximidade da qual resulta uma leitura profunda, por vezes cáustica da sociedade timorense. Quieta, viva de pedra, como os penedos do monte Matebian “por olharem demasiado tempo para o passado? Ou por não conseguirem pôr-se de acordo sobre o futuro?”.

A peregrinação para a qual o autor convida no título é tripla. É a do personagem principal, Alor, arquitecto em busca da casa tradicional timorense, lulic-país, e que acaba por se desencantar com a jovem nação, preferindo a morte à Pátria. “ No Meu País, todos os súbditos são reis e todos os servos são forros. Todos mandam e, acima dessa plebe de príncipes manda o que mais pode desobedecer, suserano no cume mais alto dos ódios pares. No Meu País, as mulheres assistem à preguiça dos homens. Os meninos aprendem o ócio dos pais. Os velhos esfingem a inutilidade dos avós. (…) No Meu País, apenas trabalha quem não pode cobrar. O pão e o amanhã são suor dos mortos. É assim que o meu país encara o futuro”. É a peregrinação do leitor – levado pela mão numa viagem onde não faltam a resistência e os seus mitos, a família Carrascalão, a violência que irrompe para propor uma ética, a intolerância da vítima, o catolicismo esvaziado de espiritualidade, o Bispo e o Comandante. E é a peregrinação do autor que sentiu a necessidade de olhar para Timor Leste como os olhos da geografia e da história. 

Na “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” temos Timor e Java, mas também temos Alemanha, Noruega, ocupações nazis e resistências, Shoah e Médio Oriente, Bíblia e Jugoslávia e uma pitada do Kosovo. É preciso acrescentar que as questões de fundo colocadas ao leitor pela “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” são morais. É essa a sua principal força e o que faz deste livro grande literatura.


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