Uma outra ideia de verdade

Pergunte-se a um jovem jornalista como quem  gostava de saber( e poder) escrever. A resposta será inevitavelmente  Ryszard Kapuscinski.

Nascido na cidade de Pinsk , actualmente na Bielorrússia, em 1932,  Kapuscinski licenciou-se em História. No final dos anos 50, ingressou na agência noticiosa polaca PAP  tornando-se no correspondente internacional durante várias décadas. Foi testemunha de  revoluções e golpes de Estado e acompanhou uma dúzia de guerras na África, Ásia e América Latina.

As reportagens do polaco tornaram-se clássicos. Escritas numa era de ouro do jornalismo, em que os repórteres-correspondentes eram verdadeiros especialistas nas questões que retratavam, escritas  antes  do advento das “estrelas”/ “enviados especiais” que caem de paraquedas em cima dos acontecimentos, lendo rapidamente  qualquer coisa sobre eles  no avião que os leva de crise em crise. Ryszard Kapuscinski escreveu numa época em que o jornalismo era uma vocação e não era regido pelas leis do mercado. 

Da  sua passagem pelos vários continentes resultaram, para além dos relatos jornalísticos, livros  como Ébano, Febre Africana, O Imperador , A Guerra do Futebol,  e O Império. Obras que  o tornariam  num dos mais conceituados repórteres de todoo  mundo, distinguido com vários prémios, entre os quais o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em 2003. Mas o mito está agora a ser posto em causa. No livro Kapuscinski Non Fiction, o jornalista Artur Domoslawski revela que muitos desses relatos e encontros com personagens da História foram ficcionados ou manipulados, como por exemplo o encontro com Patrice Lumumba, já que, assegura o autor, a primeira vez que Kapuscinski viajou para África já o líder congolês tinha sido assassinado. O jornalista da Gazeta Wyborcza afirma também que entre as centenas de pessoas que questionou  para traçar o perfil de Kapuscinski está uma jornalista etíope que considera a narrativa O Imperador  mais devedora do imaginário das Mil e Uma Noites do que da real biografia do ditador Hailé Seilassié.

Outro momento ficcionado é  o encontro do jornalista polaco com o mítico Che Guevara, que surge referido nas capas de edições inglesas dos seus livros, mas que nunca terá verdadeiramente acontecido. Quando confrontado por um biógrafo de Che Kapuscinski terá admitido que essa referência se devera a “um lapso” dos seus editores britânicos. Contudo, nunca a corrigiu, deixando assim que ela colorisse a sua biografia e a sua lenda de repórter sem fronteiras, sublinha Domoslawski. Também  de todas as situações em que Kapuscinski dizia ter escapado a pelotões de fuzilamento só conseguiu confirmar uma: em todas as outras, o repórter “era a única testemunha do que supostamente lhe tinha acontecido”.

Numa entrevista ao “El Pais” Artur Domoslawski diz que tentou “resolver uma série de perguntas-chave para entender Kapuscinski. Por exemplo: como é que ele fez a sua carreira de grande repórter dentro de um regime não-democrático”, referindo-se à circunstância de durante grande parte da sua vida Kapuscinski ter estado nas boas graças do regime comunista polaco e de ter acreditado na bondade do sistema soviético.

Diz-se que a companhia dos escritores é como a companhia dos lobos. E Ryszard Kapuscinski era um escritor com “E” maiúsculo. Mesmo com falhas do ponto de vista da ética jornalistica  ( falhas que aliás  não eram desconhecidas dos mais atentos e me fazem lembrar as falhas desse outro mito Bob Woodward) os livros do polaco penduram-nos na parede um espelho do mundo para onde olhamos e deixamos de estar sós. E poucos  escreveram sobre África como ele. Perdoe-se o jornalista, celebre-se o escritor e a sua outra ideia de verdade.


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