Poetisa sem rosto

 Hissa Hilal foi a primeira mulher a chegar à final do concurso de poesia de Abu Dhabi. Transmitido ao vivo este programa é uma espécie de Ídolos, seguido por  18 milhões de pessoas no mundo árabe.  Neste concurso, destinado a manter a tradição da Nabati ( poesia beduína habitualmente  transmitida por via oral), o júri é formado apenas por poetas e não por  celebridades pop e avalia, não a voz ou a aparência dos candidatos, mas a qualidade dos seus poemas. O vencedor recebe um prémio monetário de valor superior ao atribuído ao Nobel da Literatura.

Hilal tem 43 anos,  olhos castanhos escuros e – supostamente- cabelo castanho escuro. Uma descrição mais detalhada é impossível, porque ela está oculta por um niqab negro. É uma poetisa sem rosto que vem de Riad , na Arábia Saudita, país onde as mulheres não existem. Hilal, que é mãe de quatro filhos  teve de pedir autorização ao marido para participar no concurso.

A sua voz, quando declama, divorciada da boca e das expressões faciais, parece vir do nada. Apenas as mãos lhe dão expressão. Hilal não é herética. Ela diz que é uma mulher simples que ama a música e a linguagem. “Venho de uma tribo beduína. Respeito a tradição senão perderia tudo”. Escreve poemas desde os doze anos. Um dia o pai descobriu-os e queimou-os. Mais tarde, já casada,  publicaria sob um pseudónimo.

 Para o júri a  poesia de Hilal é poderosa , exprime uma opinião mesmo em questões controversas. Fê-lo com um poema contra a uma  fatwa  de um líder religioso, o xeque Abdul-Rahman al-Barrak,  que condenava à morte qualquer pessoa que se opusesse à segregação entre homens e mulheres.

 Ela queria dar voz às mulheres, silenciadas por aqueles que raptaram a cultura e a religião. Em troca recebeu ameaças de morte.

Na final do concurso  ficou-se pelo terceiro lugar, ganhou o voto do júri, mas perdeu o voto do público, talvez porque as mulheres no mundo árabe tenham menos acesso aos telefone móveis do que os homens, ou talvez porque tenham menos coragem do que Hilal. Cabe agora ao seu  marido decidir o vai ser feito com os mais de 800 mil dólares que recebeu de prémio.

” Meus poemas

Derrotem o medo e conquistem  todas a cavernas assustadoras.

Não vivam a vida sempre a olhar para trás

Porque toda a coragem tem um preço”

Hissa Hilal

About these ads

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo, direitos humanos, Poesia

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s