Anagramas de Varsóvia

Há pouco tempo Richard Zimler, escritor norte-americano residente no Porto, publicou mais um romance, “Os Anagramas de Varsóvia”  um livro  poderoso que  decorre em 1940 no gueto de Varsóvia . Nesta história sobre a coragem e o heroísmo o que mais se cola à memória e o que mais brutaliza as emoções de quem lê , é o levar-nos para dentro de uma atmosfera de insídia e asfixia a que os judeus foram votados.  O que mais magoa é o ambiente que se vivia dentro do gueto de Varsóvia. Descrito de uma forma realista, dolorosa, cruel.Numa entrevista o autor disse que “não podemos apreciar e compreender um crime contra a humanidade como o holocausto, ou o Ruanda, ou a situação de Israel, falando apenas em estatísticas. O que é que isso quer dizer? Nada! É importante mas não nos afecta emocionalmente, portanto a única maneira de conseguir emocionar o leitor é através de um indivíduo”.

Lembrei-me de Zimmler a propósito da morte de Kaczynski. Poucos como o presidente  falecido personificam a Polónia actual.  E poucos a fizeram vir às lágrimas desta forma. Nascido nas ruínas de Varsóvia em 1949, ele foi embalado ao som de ” A  Polónia não está perdida”, cresceu a ouvir episódios do levantamento de 1944- onde a mãe e o pai combateram – e a traição do Exército Vermelho. Desde muito cedo se envolveu na luta anti-comunista foi um dos principais conselheiros de Lech Walesa, com o qual se viria a desiludir. Ele e muitos polacos. De Lech Kaczynski pode-se dizer muita coisa . Era euro-cético, mas  sem aversões à Europa. Sem amor à Alemanha, mas sem histeria permanente. Patriótico e católico, mas sem tiradas chauvinistas ou anti-semitas. Polémico e abertamente anti-homossexual. Mas, mesmo adversários lhe reconhecem a integridade e a coragem, qualificativos raros num político.  Para perceber Kaczynski há que perceber a Polónia.

Choca-me  por isso a leveza de crónicas como a publicada hoje no “Público” por Rui Tavares. Na sua análise Tavares  reduz o presidente a um homem mesquinho que se terá recusado a ir a Katyn com os russos ( o que não corresponde à verdade, a cerimónia de Katyn foi agendada por Putin e Tusk , excluindo Kaczynski. Só depois de uma longa batalha a casa presidencial  polaca conseguiu convencer o russos a autorizar uma nova cerimônia com  representantes das vítimas, dos militares polacos e com o presidente). Ficou-se pela espuma das coisas, o que não fica bem a um historiador. É no mínimo pouco sério intelectualmente.


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