Normalidade na Guiné-Bissau?

Um dia depois da tentativa de golpe de Estado na Guiné-Bissau, ainda a poeira do turbilhão não tinha assentado, já os media portugueses falavam numa “normalização” da situação no país. Passa a página. Muda de assunto que “eles” já estão habituados. Indo para além da espuma dos acontecimentos a complexa medição de forças em curso na Guiné-Bissau, permite-nos falar de profunda (s) incerteza (s) e não de “normalidade”. Há muitas questões a carecer de resposta.

 Senão vejamos:

1. Facto é que o golpe que teria um duplo objectivo: afastar o primeiro-ministro e líder do PAIGC, Carlos Gomes Júnior, e o  CEMGFA Zamora Induta, falhou, mas apenas parcialmente.  Se a destituição de “Cadogo” foi evitada, em grande medida graças à mobilização dos cidadãos guineenses, já o futuro de Induta, detido no Quartel de Mansoa, permanece uma incógnita.

 2. Se Induta for destituído e o vice-CEMGFA António Indjai assumir a liderança das Forças Armadas, pode o primeiro-ministro coabitar com um homem que o ameaçou de morte? E qual é (de novo) o papel de Bubo Na Tchuto no meio desta tentativa de golpe? Estamos perante ajustes de contas pessoais? Ou causas vão para além do óbvio?

3. Porquê o timing deste golpe? A Guiné-Bissau vivia um momento de relativa estabilidade política. Dois exemplos: Kumba Ialá, o líder da oposição, foi nomeado pelo Presidente Malam Baicai Sanha para o Conselho de Estado e a pedido da oposição foram nomeadas comissões parlamentares para a revisão constitucional e legislação local. O FMI preparava-se para aprovar o perdão da dívida à Guiné-Bissau. A intentona surgiu na véspera da reunião da administração do Fundo.

4. Será o golpe uma resposta à Reforma do Sector de Defesa e Segurança, que iria alterar o equilíbrio de poderes dentro das Forças Amadas, e acabar com as interferências dos militares na política? Se Induta for libertado o que é que vai acontecer à reforma? E a Indjai? E a Bubo Na Tchuto? E qual será o grau de empenho da comunidade internacional na reforma?

 5. Os militares tomaram definitivamente o Estado guineense como refém? Até hoje, nenhum presidente da Guiné-Bissau completou o seu mandato constitucional de 5 anos. E em 9 anos, 3 chefes de Estado Maior foram assassinados. Os motivos exactos dos assassinatos de Março – Nino e  Tagmé – e de Junho de 2009- Baciro Dabó e Hélder Proença –   e os respectivos culpados  continuam por identificar, o que reflecte a incapacidade do sistema judicial e a impunidade generalizada que grassa na Guiné-Bissau.

6. Quem mais beneficia com a fragmentação e instabilidade da Guiné-Bissau? Divide et impera. A resposta parece-me óbvia.

 7. Porque é que a comunidade internacional e CPLP que está “muito preocupada” com a segurança do primeiro-ministro e do Presidente” não envia uma força militar para o terreno?

 O que se vive na Guiné-Bissau, apesar da aparente reposição da ordem democrática,  é tudo menos normalidade. Amilcar Cabral morre outra morte.


3 thoughts on “Normalidade na Guiné-Bissau?

  1. Se já se disse que os chefes militares não falam uma palavra de português, que são completamente iletrados, se tudo isto aconteceu e tem acontecido repetidamente pela força das armas, quem é que quer que a Guiné continue ingovernável? Interessa a quem? Para quê? Porque?

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  2. A única explicação para a já “cansada” situação da Guiné-Bissau é a incapacidade da comunidade internacional fazer frente ao narcotráfico. O resto é conversa na sequência deste ponto…

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