O Brasil é o país da “democracia racial” ?

A probabilidade de um jovem negro ser assassinado no Brasil é 130 por cento maior do que um jovem branco segundo o estudo “Mapa da Violência 2010: Anatomia de Homicídios no Brasil”. De acordo com  o estudo, divulgado pelo jornal O Estado de São Paulo, o Brasil registou 47,7 mil assassínios em 2007, o equivalente a uma média diária de 117 mortes. 

Verissimo denunciou o racismo numa  crónica em 1975 . Mais de trinta anos depois, pouco mudou. 

Racismo (14/5/75) 

Luis Fernando Verissimo 

– Escuta aqui, ó criolo… 

– O que foi? 

– Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo. 

– E não existe? 

– Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada… 

– Mas aqui existe racismo. – Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita. Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam! 

– Eu insisto, aqui tem racismo. 

– Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra branco? 

– Não, mas… 

– Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregadoza de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?

 – Eu sei, mas… 

– Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.

 – É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram. 

– Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho. 

– Mas isso é racismo. 

– Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo. 

– Sim, mas… 

– Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.  

– Pois é, mas… 

– Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite. 

– Pois então. O … 

– Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso. 

– Mas…- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele. 

– É, mas… 

– E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo. 

– Sim, mas…  

 – E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.   


3 thoughts on “O Brasil é o país da “democracia racial” ?

  1. O Brasil é um país de maioria mestiça. Tendemos a definir o preconceito racial sempre partindo do branco em direção às outras raças. Mas ele é uma via de mão múltipla. No Brasil, a diferença é que a questão do preconceito de qualquer tipo é meio que difusa, por baixo dos panos. Chamamos o negro de “meu nego”, “alemão”(engraçado, né?) e “negão”; o oriental de “japa”, “china”; e o branco cera de “polaco” e “alemão” . Isso é encarado como normal, lógico que dependendo da situação. O difícil no Brasil é definir quem é 100% de uma raça ou de outra, pois a miscigenação é tão grande que ninguém pode dizer com certeza qual a sua ascendência. Por causa disso, há mais de 15 anos, levantei uma questão ao participar de um concurso do Jornal Folha de São Paulo, no qual peguei 2o lugar. Deveria escrever um texto sobre preconceito racial no Brasil. Não posso lembrar o texto inteiro, mas lembro que foi a respeito da moda da época de mulatos e negros andarem com uma camiseta com os dizeres: “100% NEGRO”. O meu ponto foi dizer que se uma pessoa branca andasse com uma camiseta escrita “100% BRANCA” esta seria vista como nazista e racista. Por que o mesmo não acontece com quem tem orgulho de ser negro e anda com a camiseta escrita 100% Negro? Penso que é porque tendemos a ser complacentes com aqueles que são considerados menos privilegiados – pobres, negros, doentes, incapacitados deficientes – como forma de mostrar que não temos preconceito, mas só até o momento em que não afetem o nosso status quo, a nossa posição de privilegiados. Aí a coisa pega.

    Gostar

    1. “Penso que é porque tendemos a ser complacentes com aqueles que são considerados menos privilegiados – pobres, negros, doentes, incapacitados deficientes – como forma de mostrar que não temos preconceito, mas só até o momento em que não afetem o nosso status quo, a nossa posição de privilegiados.”

      Concordo contigo em absoluto.
      Obrigada pelo comentário. E também adoro o Veríssimo.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s