Herzlichen Glückwunsch Helmut Kohl !

 

Konrad Adenauer e Helmut Kohl

Estou aqui sentada a pensar no que hei-de escrever sobre Helmut Kohl, que no próximo dia 3 de Abril completa oitenta anos. Não é nada fácil. Escrevo sobre o herói? Ou sobre o vilão?

Vamos por partes.

A minha paixão pela Alemanha começou com Kant, foi alimentada por Heinrich Böll, Günter Grass , Hannah Arendt,  pela mão magistral de John Le Carré e por Helmut Kohl.

Tinha 18 anos quando caiu o Muro de Berlim, acabava de entrar para a Faculdade e começava a despertar para a política. Em Portugal vivia-se um período – desinteressante para uma adolescente em transição para a idade adulta – de coabitação relativamente pacífica entre o primeiro-ministro Cavaco Silva e o presidente Mário Soares, fruto da maioria absoluta do “nós somos um rio” – PSD.

As fugas espectaculares ensaiadas pelos alemães da RDA, a marcha da História a Leste, o fim da fractura que partiu em dois um país e um continente, o sopro da liberdade da Glasnost e da Perestroika, incendiavam a minha imaginação.

Nunca tinha ido à Alemanha, sabia que foi no mesmo país em que nasceu Beethoven que se planeou Auschwitz, e que enquanto se exterminavam judeus no Lager, a orquestra de Auschwitz, composta por músicos também eles judeus, tocava todas as manhãs, todos os fins de tarde perto dos portões do campo Schumann, Dvorak, árias de Puccini, Verdi. E tinha de estar disponível para tocar a qualquer hora para os SS com vontade de descontraír ao som de música depois de um dia passado a decidir quem iria ser mandado para as câmaras de gás.

Conhecia a singularidade do Holocausto e os temores que uma Alemanha unida suscitava. Por isso quis perceber o que fazia mover Helmut Kohl, o gigante alemão, a quem os de fora chamavam chanceler da Europa e os dentro durante muitos anos alcunharam “Birne” (pêra).

 Quando decidi emigrar para a Alemanha Kohl cruzou-se no meu caminho. Uma das primeiras reportagens que fiz para o “Público” foi o comício de encerramento da campanha eleitoral da CDU em 1998. Na cidade onde havia começado a sua carreira política, Mainz, Helmut Kohl, que já pressentia que sua hora de abandonar o poder havia chegado, fez um discurso admirável, comovente. No final os milhares de militantes que enchiam a Praça da Catedral puseram a mão no peito e cantaram o hino nacional, algo que na Alemanha de então não era “normal”. Despediam-se do patriota, homenageavam o homem que cumpriu o desígnio da reunificação alemã . Uma Alemanha em paz com os seus vizinhos e ancorada na Europa.

Dois dias mais tarde em Bona, a 27 de Setembro de 1998. Silêncio na Konrad-Adenauer-Haus. Um monumento político desce lentamente as escadas. O “chanceler da reunificação” e da Europa, Helmut Kohl, foi derrubado por um promissor político social-democrata, Gerhard Schroeder. A geração de 68 chega ao poder com a promessa de resolver a “Reformstau”, o engarrafamento de reformas, agilizar a economia, modernizar o país e reduzir drasticamente o desemprego. Da promessa restam o abandono da energia nuclear, a primeira lei de imigração na Alemanha  e a reforma do mercado de trabalho. Schroeder e Fischer são agora consultores  milionários.

Desde que Helmut Kohl deixou a chancelaria federal muita coisa se alterou na Alemanha e também na relação difícil que o país tem com um dos seus políticos maiores.

Se a Alemanha do pós-guerra se definisse num número seria o três: Konrad Adenauer, Willy Brandt e Helmut Kohl.

Helmut (Couve) Kohl

A distância temporal torna os julgamentos menos amargos. Um exemplo?

Décadas a fio o influente semanário alemão “Die Zeit” cultivou uma aversão. Nas mãos da nobreza prussiana, de intelectuais protestantes e da fina-flor da finança hanseática, que lhe conferia uma espécie de tripla aristocracia, o semanário de Hamburgo não suportava o político provinciano, católico e pequeno burguês Helmut Couve ( Kohl). Com o artigo “ Ele, a história e nós”, publicado na sua edição da semana passada, o semanário retrata-se. Reconhece a sua arrogância, a luta de classes. “Mesmo que nos doa muito escrever isto. Helmut Kohl é um grande alemão”. Grande nas virtudes e nas fraquezas.

 O seu inultrapassável instinto político e os ideais de toda a vida – o “Nie Wieder”, nacional-socialismo nunca mais, que o acompanhou no seu percurso político – levaram-no a saber sempre distinguir o acessório do fundamental. E Kohl nunca contemporizou no fundamental. “A essência da questão alemã é a liberdade”, disse-o horas depois da queda do Muro. E, é por isso que os alemães lhe perdoaram tudo: o silêncio mantido até hoje sobre os doadores secretos, o sistema de vassalagem e intrigas instalado no partido.

( mais aqui num texto que escrevi para a Visão).Kohl


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