De pesadelo em pesadelo II

  

A barbárie continua a ser a norma no Congo.  Onde o mal absoluto é absolutamente banal. Como denuncia o último relatório da Human Rigths Watch.  “Um rasto de morte: as atrocidades do LRA no Nordeste do Congo” é o título do relatório de 67 páginas  da Human Rigths Watch sobre o massacre perpetrado  pelos rebeldes liderados  por Joseph Kony em 2009 e no início de 2010. O Exército de Resistência do Senhor (LRA), fundado em 1987 no Norte do Uganda, matou em Dezembro passado pelo menos 321 civis e raptou 250. 

 Este relatório baseia-se numa deslocação da HRW ao terreno, missão que conseguiu documentar a tenebrosa operação que, de 14 a 17 de Dezembro, decorreu na remota área de Makombo, no distrito de Haute Huele, que faz fronteira com o Sul do Sudão. 

 Os combatentes de Kony atacaram pelo menos dez aldeias, assassinando e raptando centenas de civis, incluindo mulheres e crianças. No entanto, a grande maioria dos mortos eram adultos, que os militantes do LRA primeiro ataram e depois mataram à catanada ou esmagando-lhe o crânio com machados ou paus. O grupo, dirigido por um homem de 49 anos que se intitula “Mensageiro de Deus”, empenhado em construir uma sociedade à base dos Dez Mandamentos, matou depois os raptados que andavam demasiado devagar ou que tentavam escapar ao seu controlo. 

 Os parentes e as autoridades locais vieram a encontrar depois os corpos ao longo de todo o caminho de 105 quilómetros trilhado por uma das mais tenebrosas milícias que África tem conhecido nas últimas décadas. As testemunhas ouvidas pelos investigadores da HRW contaram que, durante dias e semanas depois dos ataques, toda a vasta área entre Makombo e Tapili estava empestada pelo “cheio a morte”. Este massacre é um exemplo em muitos, das atrocidades que continuam a ser cometidas diariamente no Congo. 

Mulheres mutiladas pelo LRA perto de Bangadi em Dezembro de 2009. Um combatente do LRA cortou-lhes os lábios.

  

 Em 2007  Eve Ensler, a activista e autora de “Monólogos da vagina”,  escreveu um punjente relatório para o Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o Holocausto silencioso das mulheres na RDC. Um aviso: o  texto é muito violento.  

Volto do inferno. Procuro desesperadamente uma maneira para vos contar o que vi e ouvi na República Democrática do Congo. Procuro uma maneira para vos contar as histórias e as atrocidades, e ao mesmo tempo, evitar que fiquem abatidos, chocados ou afectados mentalmente. Procuro uma maneira de vos transmitir o meu testemunho sem gritar, sem me imolar ou sem procurar uma AK 47. Não sou a primeira pessoa que denuncia as violações, as mutilações e as desfigurações das mulheres do Congo. Existem relatórios a respeito deste problema desde 2000. (…) E apesar de saber que é perigoso comparar atrocidades e sofrimentos, nada do que eu tinha ouvido até agora era tão horrível e aterrorizador como a destruição da espécie feminina no Congo. A situação não é mais do que um feminicídio e temos que a reconhecer e analisar tal como é. É um estado de emergência. As mulheres são violadas e assassinadas a toda a hora. Os crimes contra o corpo da mulher já são horríveis por si. No entanto, há que acrescentar o seguinte: por causa de uma superstição que diz que se um homem viola mulheres muito jovens ou muito idosas obtém poderes especiais, meninas de menos de doze anos de idade e mulheres de mais de oitenta anos são vítimas de violação. Também há que acrescentar as violações das mulheres à frente dos seus maridos e filhos. Mas a maior crueldade é a seguinte: soldados seropositivos organizam comandos nas aldeias para violar as mulheres, mutilá-las… Há relatos de centenas de casos de fístulas na vagina e no recto causadas pela introdução de paus, armas ou violações colectivas. Estas mulheres já não conseguem controlar a urina ou as fezes. Depois de serem violadas as mulheres são também abandonadas pela sua família e a sua comunidade. No entanto, o crime mais terrível é a passividade da comunidade internacional, das instituições governamentais, dos meios de comunicação… a indiferença total do mundo perante tal extermínio. Passei duas semanas em Bukavu e Goma a entrevistar as sobreviventes. Algumas eram de Bunia. Efectuei pelo menos oito horas de entrevistas por dia. Almocei e fui a sessões de terapia com estas mulheres. Chorei com elas. O nível de atrocidades supera a imaginação. Não tinha visto em nenhuma parte este tipo de violência, de tortura sexual, de crueldade e de barbárie. No Este do Congo existe um clima de violência. Nesta zona as violações tornaram-se, tal como me disse uma sobrevivente, um “desporto nacional”. As mulheres são menos que cidadãs de segunda classe. Os animais são mais bem tratados. Parece que todas as tropas estão implicadas nas violações: as FDLR, as Interahamwe, o exercito congolês e até as forças de paz da ONU. A falta de prevenção, de protecção e a ausência de sanções são alarmantes. (…) Passei uma semana no Hospital de Panzi, a viver numa aldeia de mulheres violadas e torturadas. Era como uma cena de um filme de terror futurista. Ouvi histórias de mulheres que viram os seus filhos serem brutalmente e cinicamente assassinados. Mulheres que foram forçadas, debaixo da ameaça de armas, a ingerir excrementos, a beber urina ou a comer bebés mortos. Mulheres que foram testemunhas da mutilação genital dos seus maridos ou violadas durante semanas por grupos de homens. Estas mulheres faziam fila para me contar as suas histórias. Os traumas eram enormes e o sofrimento extremamente profundo. Sentei-me com mulheres que tinham sido cruelmente abandonadas pelas suas famílias, excluídas por causa do seu cheiro e pelo que tinha sofrido. Eu quero falar-vos da Noella. Mudei-lhe o nome para a proteger porque ela só tem nove anos de idade. A Noella vive dentro de mim agora, persegue-me, leva-me a tomar acções, a lembrar. Ela é magra, muito inteligente e viva. O dano está no seu corpo ligeiramente torto, envergonhado, preocupado. Ela sente a ansiedade nos seus pequenos dedos. Começa a contar a sua história como se ainda a estivesse a viver. Para ela o tempo parou. “Uma noite as Interahamwe vieram a nossa casa. Eles não deixaram nada. Pilharam a nossa casa. Levaram a minha mãe para um lado, o meu pai para outro e a mim para outro. Levaram-me para o mato. Um deles pôs qualquer coisa dentro de mim. Não sei o que foi. Um disse para o outro, não faças isso, não faças mal a uma criança. O outro bateu-me. Eu estava a sangrar. Ele bateu-me mais e eu caí. Depois abandonou-me. Passei duas semanas com os soldados. Eles violaram-me constantemente. Às vezes usavam paus. Um dia deixaram-me no mato. Tentei caminhar até à casa do meu tio. Consegui, mas estava demasiado fraca. Tinha febre. Estava muito mal. Cheguei a casa. O meu pai tinha sido morto. A minha mãe voltou, mas em muito mau estado. Comecei a perder a urina e as fezes sem controlo. Depois a minha mãe percebeu que eles me tinham violado e destruído. Eles registraram o que me tinha acontecido e trouxeram-me para aqui. Estou contente por estar aqui. (…)  


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