O português do emigrante é um local de encontro

Uma crónica excelente de Pedro Rosa Mendes na LUSA

Onde fica a “curra da Rosa”, chamariz da vizinhança? E o que é “deitar um cu do olho”? Ou, ainda, o que é “despejar a pubela”? Estas, e centenas, mesmo milhares de outras palavras pertencem a uma língua que não existe mas que, “élá!”, é falada diariamente na segunda maior cidade portuguesa depois de Lisboa: Paris.  caso para perguntar, na mesma língua que não é nem português nem francês: “Ah-bom?!?” Maria João Lehning, escritora portuguesa radicada em França há 22 anos, interessou-se pelas derivações e invenções da linguagem dos emigrantes portugueses, um estudo que ela aplicou nos seus três romances.  ” Uma língua inventada pela emigração portuguesa em França e é preciso saber as duas línguas para a conseguir entender”, explicou a autora à Agência Lusa em Paris. “Nem sempre é fácil perceber, tirando aquelas mais fáceis, como ir emvacanças (‘vacances’, férias) a Portugal ou montar as escalieras (‘monter les escaliers’, subir as escadas), exemplifica Maria João Lehning. 

 O champanhe com tremoços servido pelo português Abílio em “D’Acordo”, no último romance de Maria João Lehning, é o resumo e metáfora desta língua nova.  “Aprendi muito com a Albertina, uma empregada portuguesa que eu tiveaqui em Paris”, diz Maria João Lehning. Formulações como “você foi lá-bá (‘lá-bas’, lá, além)”, tanto como a interjeição “ah-bom?”, que repete uma exclamação recorrente dos franceses, agarram-se desde o início aos portugueses que chegam a França”, esclarece. Muitas vezes, a apropriação de uma palavra resulta num sentido exatamente oposto ao do original francês. “Dizem-lhe, por exemplo, ‘O meu filho está lá em baixo a treinar, a treinar, a treinar (‘traîner’, arrastar-se, não fazer nada). Pensa-se que o filho está ativo, mas é o contrário”, explica Maria João Lehning.  ” Inacreditável e, por vezes, resulta num ridículo impossível”. No entanto, a autora reconhece que esta língua “porto-francesa” “reflete imenso uma crise de identidade”.  “A invenção de uma língua deriva de um choque entre identidade e alteridade.O português gostava de ser o ‘outro’ – de ser francês. A vontade de não ser português vem de terem vergonha, como basicamente se sente ainda na nossa emigração mais antiga. A nova é mais rica culturalmente, porque hoje há quadros que fogem de Portugal”, diz a autora.   “Nesse sentido, falar francês, mesmo inventado, é uma forma de promoçãosocial. Os emigrantes portugueses estão sempre a dizer mal dos franceses mas gostavam de ser como eles”, acrescenta.  A autora de “Travessa de Memória” e “D’Acordo”, e de um inédito ainda por publicar, acusa, entretanto, a “atitude de ‘snobeira’ e desprezo” dos portugueses em Portugal e o “chauvinismo da maioria dos franceses” em relação aos emigrantes portugueses em França.  “Tudo o que cheira a emigração, cheira a pobreza. Cheira a ridículo.como se Portugal quisesse esconder as suas traseiras, as traseiras do prédio. A emigração é o retrato da pobreza do país e do seu analfabetismo”, conclui.   Afinal, o português de emigrante é um local de encontro, quase tão físico como a “curra da Rosa” do romance de Maria João Lehning.  A “curra” é o pátio, “la cour”. O sítio comum onde emigrantes e nacionais podem mutuamente “deitar-se um cu de olho”, perdão, uma olhada (“coup d’oeuil”).

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