E tudo como dantes

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Quando tinha nove anos os pais arranjaram-lhe um noivo. Dois meses após o casamento Nujood Mohammed Ali fez algo virtualmente impossível no Iémen, fugiu, apanhou um autocarro e depois um táxi, e dirigiu-se a um tribunal de Sanaa reclamando justiça. A audácia desta menina-mulher chegou aos ouvidos de Shada Nasser, advogada e defensora dos direitos humanos. ” Eu não acreditei  e perguntei-lhe porque queria o divórcio. Ela respondeu  porque ” odeio a noite”“. Uma semana após o seu pedido, um juiz concedeu-lhe o divórcio. Aos dez anos esta menina  era a divorciada mais jovem do Iémen. E uma das suas mais lúcidas e valentes mulheres. 

 Nujood Mohammed Ali, agora com 12 anos, reaprendeu a sorrir, voltou à escola, e sonha tornar-se advogada, “para proteger outras meninas como eu”.  A revista americana Glamour destacou-a  como uma das dez Mulheres do Ano de 2008, ao lado de Hillary Clinton, Condoleezza Rice ou Nicole Kidman. 

 A coragem de Nujood Mohammed Ali para afrontar a política dos casamentos infantis forçados fez lei. Em Fevereiro de 2009  passou a ser proibido o casamento de raparigas menores de 17 anos. A medida todavia foi considerada como hostil ao Islão  por vários líderes religiosos conservadores, entre eles o xeque  Abdul Madschid al Sindani, e a Comissão Parlamentar para a Sharia anulou-a, com o argumento de que o Profeta Maomé casou com uma menina de 9 anos. 

 No  domingo passado sairam à rua milhares de mulheres iémenitas. Umas para exigir que a lei seja cumprida , outras, de Corão a punho, a reclamar que cabe aos pais decidir quando uma filha tem idade para casar. Em Abril deve ser tomada uma decisão definitiva. A promessa de uma vida normal é menos que escassa. Há poucos países onde as mulheres estejam mais sós. 

Mulheres que defendem o casamento infantil

No Iémen rural as meninas casam habitualmente aos 12 , 13 anos. Em 1992 uma lei estabeleceu a que  idade mínima para o casamento seria 15 anos.Mas em 1998 o Paralmento reviu a lei permitindo que a decisão seja tomada pelos pais e desde que as meninas não tenham sexo com os maridos antes de serem mestruadas. O que não é cumprido. O casamento infantil pode ser uma tradição cultural, como o foram os autos-de-fé,  mas é sobretudo, um crime contra a autodeterminação individual e a dignidade a que todos os seres humanos têm direito. Outros costumes, dirão alguns, encolhendo os ombros. É a “sharia”, elas estão habituadas. A mim que por um acaso geográfico nasci do lado certo da vida repugna-me, indigna-me  que homens  o defendam o inaceitável casamento infantil. Que as mulheres, elas também vítimas, tuteladas pelo medo, saiam por ele para a rua, enfurece-me e leva-me às lágrimas. A ignorância é um véu.


One thought on “E tudo como dantes

  1. O grau de desumanidade e autismo de certas sociedades é chocante.
    Continue a escrever. Gosto muito da forma como vê o mundo.

    Gostar

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