O planeta das peúgas rotas

A fotografia do presidente do Banco Mundial , Paul Wolfowitz, com as meias rotas, à entrada de uma mesquita,  correu mundo. Mia Couto inspirou-se nela para escrever  “O planeta das peúgas rotas”, uma intervenção sobre a “pessoa”. As peúgas esburacadas do banqueiro, mostram que apesar do sapato poder ser diferente , o dedo que espreita pelo buraco é igual ao seu e ao meu.

Algo que se esquece com facilidade no silêncio-mais-que – imperfeito com que reagiamos à leitura dos jornais. No evitar o olhos nos olhos com o destino dos miseráveis. Os slums, as favelas, os campos dos deserdados da vida onde meninos chapinham em  poças fétidas, viúvas estendem a mão, estropiados mendigam, mulheres pedem dinheiro com bébes ao colo . Onde se vestem trapos e calçam buracos.  Raras vezes os queremos ouvir e ver. Gostámos de Slumdog Millionaire porque tem happy end. A  voz dos pobres perturba a nossa existência de  ocidentais  mimados. Uma ideia de escuro em que nenhuma luz embarcou.

Chorei tanto quando vi, no cinema Avenida em Maputo, o documentário “Enjoy Poverty” de Renzo Martens , um violentíssimo documento sobre a pobreza, a deles, os que comem ratos na República Democrática do Congo e se abrigam sobre um plástico azul das Nações Unidas, e a nossa a da perversidade da ajuda humanitária, que explora a pobreza e faz dela um negócio lucrativo. Lágrimas quentes por eles e por mim.

O fio do pensamento leva-me a Bissau. Recordo-me do embaixador britânico, sediado em Dakar, que  de visita à capital guineense fazia gala em passear-se pelas estradas esventradas no seu todo terreno conduzido por um belíssimo e discreto senegalês, encaixado numa farda  solene e pesada que lhe prolongava a cor da pele, com o detalhe improvável dos inúmeros botões dourados.

A insanidade do planeta de peúgas rotas transborda quando se lêem notícias como esta publicada hoje no jornal Público. “O mundo tem, cada vez mais, manchas gigantescas de barracas. Quase 830 milhões de pessoas vivem em bairros de lata, quando, há dez anos, não chegavam a 770 milhões. Sem medidas radicais, a tendência de crescimento vai continuar e em 2020 serão 889 milhões a residir em aglomerados precários, sem condições mínimas.

O diagnóstico é traçado no relatório O estado das cidades no mundo 2010-2011: reduzir a fractura urbana, ontem divulgado pela agência ONU-Habitat, a poucos dias do V Fórum Mundial Urbano, que se realiza na próxima semana, no Rio de Janeiro”.

O travo da culpa não me sai da boca.


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