Um pouco de respeito

Sábado de manhã. O telefone perturba o aconchego da leitura do jornal. Levanto-me do sofá. Do outro lado dizem-me:“liga a televisão”. Obedeço. Imagens terríveis, daquelas que dispensam todas as palavras. Num arrebatamento da natureza a montanha desce até ao mar. Fernão de Ornelas, Visconde de Anadia, Avenida Arriaga. As ruas da cidade a que aprendi a chamar minha são cursos de água ferozes, arrastando carros, arrastando destroços, destroçando existências.A lama invadiu a baixa do Funchal, túneis transformaram-se em Amazonas, parques de estacionamento são lagos profundos. Casas incrustadas na encosta desabaram, estradas tornaram-se vias sem rumo. Os que se esquivaram ao fio do acaso olham sonâmbulos, incrédulos. A Madeira encheu-se de refugiados do temporal, de desabrigados, de mortos. Demasiados.

 A culpa depressa é atribuída: a natureza, o aluvião inusitado, as alterações climáticas.  Não dá muito jeito admitir que esta tragédia poderia ter sido prevenida, minorada. A incúria cobrou o seu pesado tributo.

Impermeabilização de solos, construção em leito de cheias, desordenamento territorial, má gestão das florestas são algumas  das causas da tragédia madeirense. Causas humanas. Causas políticas. Uma brandura de enganos.

 E no meio da tentação da normalidade, na Quinta da Vigia a preocupação é“desdramatizar”. Demonstrando um desprezo vergonhoso pelos que morreram – já se sabe, os mortos não votam – Alberto João Jardim exclama que “não vale a pena dramatizar a situação lá para fora”, até porque “não houve nenhum caso grave com o sector do turismo”. AJJ acreditava candidamente que bastava ele abrir a boca para que os media internacionais se calassem – como fazem alguns media madeirenses – para não afectar a “Madeira que fica bem nas fotografias”, a “Madeira” acarinhada pelo Governo Regional.

A tentativa de amordaçamento não lhe saiu bem, a Madeira saltou para as páginas da imprensa de todo o mundo. E também os erros. A pobreza mais grossa e mais crua da Madeira, a outra, a invisível,  a que não se senta no Golden Gate a bebericar refrescos e conspirar baixinho, está aí, exposta pela violência das águas, à mercê da caridade.

 A propósito de outra tragédia Clara Ferreira Alves escreveu o seguinte “ aquela morte enterrada em tristeza e terra molhada, aquela morte que é morte de pobre. Só os pobres morrem assim, devolvidos à terra antes de baixarem ao túmulo”. Podia ter sido escrito para a Madeira

 Não se aprendeu nada com a catástrofe de 1993 ? E agora? Que lições se vão tirar desta catástrofe? Qual é o plano de desenvolvimento para as zonas afectadas?

 Os madeirenses que morreram e os que foram afectados merecem um pouco de respeito. Merecem qualquer coisa chamada dignidade.


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