O Cairo

Em Sakkara

Em 2008, em pleno Verão, passei dez dias no Cairo. Uma das mais sublimes cidades que visitei, apesar de parecer que o Cairo velho acabará por tombar numa nuvem de poeira. E o Cairo novo enlouquecerá com o trânsito. Nas ruas do Cairo o mais importante num carro é a buzina.

Depois de sobreviver a um táxi da era Akhenaton, como a maioria dos táxis da cidade, que só por  milagre andava, decidi alugar um carro, sem ferrugem, com faróis, ar condicionado e motorista. Chamava-se Madgi o meu motorista, falava um inglês bastante razoável e tornou-se insubstituível. Graças a ele escapei ao assédio nos bazares do Khan-al-Khalili. Levou-me a Gizé e a Sakkara o que me permitiu a escapar à tortura do baksheesh. Ficava a rezar no carro enquanto eu me deslumbrava no Museu do Cairo.

Em casa do Madgi no Cairo. A senhora na foto é a mulher de Madgi.

Antes de  partir convidou-me para conhecer a sua família. E lá fui eu pelo Cairo de Naguib Mahfouz. Ruas degradadas, labirintos,  lixo, muito lixo. Subimos a um prédio de vários andares – a licença era para três – uns sete ou oito. As paredes exteriores do apartamento teriam um palco de espessura. No interior uma sala grande, muito limpa, e mobilada com  sofás e cadeiras de plástico. O único quadro nas paredes era uma representação dos 99 nomes de Allah. Madgi era muito religioso. Havia um quarto onde dormiam os cincos filhos – quatro meninas e um rapaz, todos na escola – um quarto para o casal, uma cozinha minúscula e o único luxo de uma casa de banho. As crianças abraçaram-me agradecendo os brinquedos que trouxera do Cairo rico: uma espécie de Barbie árabe, trajada de abeyya, uns puzzles e a primeira  bola de futebol daquele menino.

O jantar foi servido numa toalha estendida no chão. Iguarias de pobres, simples e saborosas. Comidas à mão. Como recordação ofereceram-me uma Gellabiya ( a que tenho vestida na foto). Não aceitaram os dólares que num acesso de estupidez estendi.  Disseram que já lhes havia trazido muita fortuna.

 Aprendi o valor da hospitalidade árabe.

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3 thoughts on “O Cairo

  1. Querida Helena,

    Obrigada por teres partilhado esse bocado de Cairo de que tenho tantas saudades.

    Gostei muito de ler e anseio pelos próximos.

    Para além do gosto da leitura, o prazer de saber como estás, como olhas o mundo, os livros, as coisas.

    Saudades

    Aida

    Gostar

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