Breve reflexão sobre a correria

Quando estive entre os índios macuxi desaprendi o relógio e ganhei um grande respeito pelo tempo. Ali no meio da Amazónia era o sol queria regia as horas, marcava o tempo da vida. E esta media-se por muitas horas de todo-o-terreno até à aldeia indígena mais próxima.

De regresso à Europa e às semanas em que todos os dias são segundas-feiras, reencontrei as horas por todo o lado, no iPhone onde escrevo, no computador, no mostrador do forno. O relógio perdeu a solenidade e o tempo banalizou-se. Tempo fugit e fugit a uma velocidade incrível.O urgente parece não deixar tempo para o importante.

Ainda me lembro do meu primeiro relógio, de correia de pele castanha , mostrador quadrado, que recebi ao completar a quarta classe. Era um presente tão aguardado que recordo as noites sem dormir a pensar nele. Aos nove anos passei a poder carregar o tempo no pulso e dar-lhe corda para que ele não se me escapasse. Não sei bem como perdi esse relógio da infância. Pior que o ter perdido é ter a sensação que um relojoeiro louco me dá corda ao tempo.

Sinto-me entregue nas mãos de  tiranos, de seu nome planeamento e reuniões , aspiro pelo tempo para ir ao encontro do que é surpreendente, poder abrir mapas  e páginas.Canoas no Rio Uraricoera

Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013

Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013

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(O que me vale é que as férias começam esta semana. Ohmmmmm)

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A espessura das palavras e do silêncio

  
Custa-me muito olhar para as imagens da agressão ao agente da PSP na Moita que alimentam o noticiário nacional. Habituada que estou à violência, ao cheiro da morte em países distantes, a polícias corruptas, não lhe encontro sentido. Apenas barbárie.

Não há dias comuns quando se é polícia. Há que reeditar todos os dias um compromisso com a resistência. Ter controlo permanente para não reagir às intimidações, às ameaças diárias, ao confronto com os abismos da abjecção humana. Viver numa angústia permanente e assistir ao sofrimento que passa para além da conta. Não é pouco. E a farda não os protege desse músculo que trazem no peito, nem do sal das lágrimas. A dor atravessa a roupa. 
Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

As pessoas são todas parecidas. Querem chegar a casa ao final do dia, abraçar os filhos, a pessoa que se ama, esticar as pernas no sofá, ler ou ver televisão, passar os olhos pelo Facebook, tomar uma cerveja ou um vinho. Os pequenos prazeres que fazem esquecer a brutalidade do quotidiano. Alguém que usa uma farda é feito da mesma matéria que nós. Tenho um amigo militar que tatuou no braço o nome do irmão mais novo, morto em Timor e antes de encerrar o caixão lhe colocou dez medalhas no peito, medalhas suas ao serviço de Portugal. Podia contar tantas outras histórias. 

Alguém de quem gosto muito, escreveu-me hoje revoltado. Ele, que é uma pessoa solar e reservada,  estava perturbado. Nunca ninguém pergunta a um polícia se está triste ou como se sente. O meu amigo esteve durante dois anos na Esquadra do Bairro da Boavista, em Lisboa, numa Equipa de Intervenção Rápida, sofreu ameaças diárias, ofensas físicas, viu camaradas ficar feridos. Não há hipérboles para descrever o medo que estes homens e mulheres têm de errar. A condenação pública de um erro da polícia é pronta, a compreensão, para uma profissão plena de riscos e sem qual a nossa tranquilidade ( e acreditem Portugal é apesar de tudo um paraíso) não estaria garantida, é curta. Ser polícia é equilibrar-se num fio muito ténue.
As imagens da Moita sacodem- nos a nós que vivemos do lado confortável da vida, dizem o que não queremos ver. Um dos pilares da humanidade é a compaixão, o outro a coragem.
Há momentos para falar dos abusos, dos erros da polícia, hoje é o dia de atravessar a espessura do silêncio e de agradecer a essas mulheres e homens que diariamente arriscam a vida por nós. 

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Devolucionómetro

Devia existir um “devolucionómetro” que permitisse trocar intactas e por outras as palavras ditas a quente e que magoam. A vida era um lugar mais fácil se viesse com errata.

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Tempo de cerejas *

Uma longa e doce nostalgia apertou-lhe o coração. Não apenas a nostalgia da mulher, mas sobretudo a de a saber pretérito definitivo.
Fora um por acaso que a conhecera. A internet tornou o mundo num lugar sem distância. O algoritmo do Facebook, esse cúpido moderno, sugeriu-lhe que lhe pedisse amizade. O ano aproximava-se do final, era 29 de Dezembro, um daqueles dias onde tudo em volta era o nada. Até a chuva estava sozinha. Obedeceu. Click. Enviou-lhe o pedido. A ela e várias outras, que era um homem cauteloso.
Os caçadores nas savanas preparam a arma quando vêem o leão, já o pescador não consegue ver os peixes dentro do mar, acredita em algo que não vê. S.via-se pescador aguardando sinais dos desígnios do algoritmo, cansado que estava dos dias sempre iguais, trabalho-casa-trabalho, que lhe entranhavam nos ossos um tédio miúdo que o arrefecia como o cachimbo da madrugada.
É um homem bonito, aparência de anjo barroco, olhos de esmeralda expressivos, emoldurados por finas rugas, com um nariz grego e mãos delicadas sempre prontas a corrigir com solenidade desalinhos. Impacienta-o a desarrumação, uma camisa mal engomada enrosca-lhe na pele uma irritação. Tinha os seus Adamastores de divorciado. A Bimby, mãe-mulher-substituta, e a Candy. Para ele era uma impossibilidade lógica sair de casa se máquina não estivesse vazia e no varal, geometricamente estendidas, as peças saídas do programa de poupança. A ordem era a sua cela, muralha que o protegia do acelerar do músculo no traz peito. Tinha o coração  viúvo, fechado a cadeado.
A teimosia dela foi criando fendas naquela muralha. Ela tinha a fúria rebelde das ondas da costa do Índico, queria levá-lo a escolher o longe, agarrou-se teimosamente aquele amor. Queria ser o bolinho de chuva dele, o doce que as mães brasileiras preparam nos dias de temporal para distrair as crianças da natureza lá fora. Mas estamos a adiantar-nos  na história.
É uma verdade que as mensagens no Facebook permitem saltar com facilidade a fronteira do nosso mundo. As banalidades iniciais deram lugar a perguntas, muitas perguntas. Ela perguntava tanto, como que a querer arrancar uma árvore da terra para lhe olhar as raízes. Já não sabia se o pescador era ele ou ela.
Tinha a alma toda num sorriso, uma energia que sobrava do corpo e lhe caia em cachos de caracóis rebeldes. Era desses vinhos que dão tonturas antes de beber e desordenam tudo em seu redor. Ela enviou-lhe telegramas de chocolate e escreveu antiquadas cartas de amor onde deitava o barco da sua vida nas águas dele.
Com o medo dele de sentinela amaram-se, viajaram juntos, percorreram de mãos dadas cidades geladas da Europa. Parecia não haver mapa para tanto amor. S. mostrava-lhe o corpo, não mostrava o coração. Há alguém mais sozinho do que o analfabeto, por escolha própria, da felicidade?
Sem de cansar dos lamentos, ela explicava que os pedaços se apanham, se colam. Deles resultam mosaicos coloridos e que os sonhos não devem ser desperdiçados.
Ele pegava-lhe nas mãos, fazia-as uma, sempre querendo dizer o que não dizia. Incapaz de palavras encantadoras como um colar de missangas ou umas poucas de cerejas.
Misturados num subitamente, ela, que sempre encostara o seu corpo de sabor quente ao dele, dando-se àquele  homem-menino-ferido com a rendição  dos apaixonados, afastou-se e perguntou-lhe: “amor compras-me cerejas?”. Ele ergue-se brusco, responde : “jamais, odeio cerejas”.
Ela sorriu, sentiu pena dele, incapaz de sair da sua cela, de abrir os baús com as toalhas de linho por estrear para celebrar o amor. À despedida desejou-lhe que um dia encontrasse alguém a quem comprasse cerejas.
Em frente ao computador ele pensa naquela mulher tempestade que o levou por caminhos que apenas tinha aflorado em sonhos. E num embalo termo imagina-se a trepar a uma cerejeira colhendo brincos vermelhos, exorcizando advérbios sem propósito nem cabimento: “porém, todavia, contudo”. Ele descobriu no ballet sem coreografia dos sentimentos que a ama.
Ela bloqueou-o no Facebook.
* micro conto experimental

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Desencontro

Nas travessuras da noite jurámos
Ter uma casa de fachada antiga
Para contar cabelos brancos.
De olhos nos olhos desenhámos 
A casota do cão 
Sultão feliz em seu divã deitado.
Águas mansas também se enfurecem 
O azul torna-se pardo 
Quando não lhe bate o sol.
Cedro, mirra, incenso, aragem
E o que era amor seguiram viagem
O juramento perdeu o sentido. 
Desse nosso desencontro 
Sobrou a lareira no corpo acesa, o mapa escrito na pele, as memórias de um tempo de delicadeza. 
Uma história tão bonita sem capítulo final. 
Quando olho a casa de fachada antiga, onde quis emoldurar a vida, 
Penso se ainda serás o mesmo
Se enlouqueces de saudade, se escutas o meu nome na aragem 
Ou se tens outro alguém a quem contar cabelos brancos.
Helena Ferro de Gouveia, 18.06.2015
 

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Nunca aos domingos 

 

Nas noites de insónia gosto de pensar sobre a fragilidade que habita em nós e que tanto nos assusta. 

Esta madrugada vi um filme antigo, daqueles que se vão adiando e que depois que se vêem impõem a pergunta: como passei 43 anos sem o conhecer?
Sabem aquele instante em que descobre algo simples mas muito especial como uma música, um livro, um filme ou uma comida e quer partilhá-lo com toda gente como um recém apaixonado ? É o caso. O filme que falo é “Nunca aos domingos”, de Jules Dassin e que tem no papel principal a poderosa Melina Mercouri, mulher de beleza nada convencional que seria ministra da Cultura grega.
O enredo do filme é subtil e profundo. Com humor e encanto  é uma crítica a todas as formas convencionais ou receitas de felicidade. Ilya, a personagem principal, é uma prostituta no mais conhecido dos portos gregos, o de Pireu, e é absurdamente feliz. Homero é um filósofo americano que tem como odisseia descobrir porque as pessoas são tão infelizes. A felicidade da prostituta, que para o filósofo representa a Grécia em declínio é-lhe inacessível. Decide redimi-la, salvá-la e sem o saber acaba por salvar-se a si.
Não conto mais para não estragar o prazer de ver o filme. Digo apenas que as questões que levanta podem ser aplicadas à vida de cada um de nós. Ilya a prostituta olhava para a vida com uma generosidade imensa, para a sua e a do outro. Era por isso feliz e tornava os outros felizes. Homero é alguém que o outro que não pense da mesma forma como errado e impuro, como ameaçador e que precisa de ser mudado. Quantas vezes, postos perante os nossos temores, não invocamos a moral, a crença ou a ideologia para disfarçarmos a nossa incapacidade de escutar o outro e de aceitar o que é diferente de nós?
Penso que quanto mais nos fixamos em certezas absolutas, mais fechamos a porta à descoberta de outros olhares e a centelhas de felicidade. A felicidade é rebelião e não receita, em particular aquela receita com que somos bombardeados: felicidade= juventude+beleza+pode+sucesso.
Convido-o a parar. Feche os olhos e procure na memória a última vez em que se sentiu profundamente feliz.
Partilho o meu mais recente: comer as primeiras cerejas do meu jardim em Bona, que me transportaram aos verões da infância quando, com os primos, trepava a cerejeira da avó para pintar os lábios de sumo vermelho e pendurava brincos incomparáveis nas orelhas.
É a nossa fragilidade que nos faz humanos, só alcançamos o outro ao reconhecermos que somos fugazes, que a vida é um fósforo. A nossa fragilidade é a nossa força, a capacidade de a aceitar e de olhar o outro para além dos nossos medos, é a nossa força e a única receita para a felicidade.

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Nosso amor 

Nosso amor é perfeito
Suave como a seda das Índias
Som do vento nas velas dos navios,
Dedos de areia e lábios de sal.
Nosso amor é perfeito
E que doçura entregar-me
Não ao sonho, és existência
Poema, morada e abrigo.
Nosso amor é perfeito
Não há muito que dizer
Pois para isso fomos feitos
Para nos determos no olhar, vivendo
para além do tempo. 
HFG, Junho 2015

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