Museu dos Corações Partidos

 

Na geografia dos afectos há objectos que se transformam numa espécie de porto no qual não se volta a lançar amarras. 

Quando um amor acaba o que fazer com as memórias físicas dele?
Os objectos, as cartas, os presentes existem para reconhecer o outro, para estruturar os nossos sentimentos, por vezes para dizer sem palavras o que é suficientemente importante para ser dito. 
 
Como nem todos os afectos, nem mesmo os grandes amores, têm um final feliz sobram os seus despojos. Alguns, os preferem guardá-los numa caixa no sótão, embrulhados em papel amarelecidos, onde não desinquietem a paz das coisas. Quem sabe para os desembrulhar mais tarde, numa espécie de Natal imóvel e portátil, encontrando neles um consolo infantil e a nostalgia dos momentos partilhados.
 
Os mais pragmáticos, feridos ou os conseguem esquartejar sentimentos e pensamento, separam DVDs, livros, fotografias e despejam as memórias no contentor mais próximo. Recalcando todos os assomos da saudade ou da mágoa. 
Para os amantes separados há em Zagreb um local extraordinário, o Museu dos Corações Partidos, no centro histórico da cidade. Cada objecto exposto é acompanhado pela sua história. Lá se encontram as cartas e fotografias que um homem arménio, Yerevan, escreveu e enviou à namorada, antes de morrer num acidente de automóvel, no dia seguinte à ter pedido em casamento. É um museu que faz chorar e rir. Lá se encontra um telemóvel oferecido para que a namorada não volte a ligar, um ferro de engomar usado para passar um vestido de casamento de que é o único sobrevivente; o telemóvel de um amante, as chaves de casa dele oferecidas ao museu para ela não sofrer a tentação de lhe voltar a entrar em casa. 
 
Não é um lugar triste este Museu, embora contenha o sal das lágrimas, porque como disse o Vinicius “a vida só se dá/Pra quem se deu/Pra quem amou, pra quem chorou/Pra quem sofreu”. O amor é como um mapa, pode estar esborcinado depois de muitas viagens,dá rumo à existência. Nunca é uma dependência, mas uma abundância. 

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Das coisas que importam

Esta fotografia que partilho foi-me enviada hoje de Balsas, uma cidadezinha, no Maranhão profundo, por uma pessoa de quem gosto muito.

Saber que alguém do outro lado do mundo pensa em nós com carinho é daquelas dádivas que não se quantificam, mas nos envolvem com o abraço diáfano da ternura.

Li em tempos que cada viagem que fazemos deixa-nos mais longe da origem. Porque sempre que regressamos somos outra gente e outros lugares dentro de nós. Na verdade acredito que cada viagem, que cada amigo novo que se conquista nos aproxima mais da origem, e essa origem é a gentileza, a generosidade, a partilha e a entrega, porque a vida é um fósforo. Sem Amor, em todas as todas as suas acepções a vida nada vale. 

 

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Um herói anónimo da Germanwings

O que se faz na urgência de cada dia é por definição efémero. Mas há efémeros com espinha dorsal capazes de resistir ao tempo. Efémeros que demonstram a grandeza  singular de cada Homem.

Da tragédia da Germanwings  já se falou, até à exaustão.  Imagens que geraram comoção, que colocaram as coisas na sua devida proporção.

O que conta agora é o que é realmente único. Quero partilhar uma história que  aconteceu esta quarta-feira, num voo entre Bona e Hamburgo, um dia depois do avião da Germanwings se ter despenhado nos Alpes.

Na entrada do avião da Germanwings que fazia a ligação entre as duas cidades alemãs estava apenas não a tripulação, mas o piloto. Cumprimentou todos os passageiros que entraram na aeronave, olhou-os nos olhos e aos que pressentiu mais inseguros dirigiu algumas palavras de conforto. Depois de completo o embarque as portas fechadas, o piloto pegou no microfone na cabine e não no cockpit como habitual e contou como o desastre o havia comovido a si e aos colegas. Disse que tanto ele como a restante tripulação tinham família que iria fazer tudo para que todos a bordo pudessem abraçar os seus familares, amigos, namorados essa noite. Os passageiros ouviram em silêncio, os telemóveis foram postos de lado e quando o piloto acabou de falar, muitos tinham lágrimas nos olhos, rompeu um aplauso imenso.

A humanidade extraordinária deste gesto está na sua capacidade para se meter por dentro do corpo e dos olhos de cada um  que se encontrava ali a bordo, só , perante os seus medos. O encantamento dele é a sensibilidade e uma espécie de fé no futuro que resiste a todas as dores.

PS- Muitos passageiros contaram este episódio no Facebook e a contagem de likes e comentários  atingiu números estratosféricos.

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Cábulas versão indiana



Na Índia decorrem neste momento exames escolares. Um desafio não apenas para os alunos mas também paras suas famílias, que não olham a meios para passar cábulas para o interior das salas onde decorrem os testes.

Talvez o Mário Quintana tenha razão quando escreve que “a preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”. Talvez.


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Postais de Berlim 





We will always have Berlin. 

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Desamparo

Na brevíssima passagem por Lisboa, este fim-de-semana, encontrei-me com um amigo de que gosto muito. Encontrar não será talvez o verbo adequado, retomamos uma velha conversa inacabada, conspiramos o necessário sobre política e falamos de viagens e escritores. Dizia o meu amigo que “estava a mudar de pele”. Às vezes por excesso outras por carência, ou porque as lágrimas não cumprem o seu destino natural, que é correr em caudal como ribeira fora de margem, é preciso mudar de pele, como quem muda de casa.

Mudança de pele. As adiadas e as ávidas de vida são a linha condutora do extraordinário romance de Inês Pedrosa, “Desamparo”,que li de um fôlego só.

“Desamparo” é um retrato do Portugal actual. A encenação de um tempo através de personagens com as quais boa parte dos portugueses se identifica com facilidade. O enredo passa-se numa aldeia fictícia, Arrifes, que podia ser qualquer pequena localidade portuguesa, uma metáfora da vida rural, um lugar de partilha, de solidariedade, mas também de crueldade magnificada pela pequenez da aldeia.

O romance de Inês Pedrosa é a história de Jacinta, roubada do colo da mãe, aos três anos, e levada pelo pai para o Rio de Janeiro e do seu regresso a Arrifes, cinquenta anos mais tarde para cuidar da mãe. Emigração, imigração. “As tragédias individuais não são assinaladas por placas, homenagens, celebrações. Falta-nos o tempo para as acolher e são demasiado próximas da nossa vida”.

O enredo começa com uma queda, a de Jacinta, no pátio da sua casa, uma metáfora de todos personagens que são de alguma forma anjos caídos, pessoas no limite da existência. O socorro tarda a chegar e Jacinta estendida no chão, sob um sol de incêndio, pensa no amor da sua vida, “como eu adorava aquele homem, Nossa Senhora. E tanto ele andou atrás de mim para me conquistar. Essa foi a época dourada da minha vida: desquitada, independente. Desejada. Um pedaço de mulher”. Recorda o partos muito difíceis dos três filhos Rafael, Rita e Raul, “os portugueses” no Brasil, “brasileiros” em Portugal. Jacinta morreria sozinha na cama de hospital, “morremos sempre sozinhos. Mesmo de mão dada com a pessoa que mais amamos”. E Raul, o arquitecto que trocou o Brasil por Portugal e acabaria atirado pela crise para um call center, acordaria muitas vezes nos anos seguintes torturado pela culpa de não ter estado ao lado da mãe naquele hospital.

“Desamparo” é um monumental tratado sobre a desesperança da crise financeira, sobre ausência de auxílio e protecção, sobre a solidão e a insegurança face ao amor tardio. E no meio disto tudo a esperança que brota como erva teimosa nas frechas de um muro de pedra. “Este país que se diz triste é afinal um lugar de consolação”.

E onde se encontra a redenção? No amor. Podia lá ser doutra forma. No amor tardio entre a jornalista Clarisse e Raul. Um amor tempestuoso no início  – ” trabalhar para esquecer:o tema da minha existência. Quando conheci o Raul, acreditei que esse tema caducara; viveria para amar e o trabalho deslizaria para o segundo plano que lhe caberia” – como todos amores que sucedem a desilusões passadas – “a verdade é que eu amo Clarisse, não quero perdê-la. Entreguei-me a esta mulher. Domino-a, com o consentimento dela ; nunca uma mulher se me entregara assim( …) diz que sofro de excesso de mimo materno, por isso não aguento uma repreensão. Admito”. Um amor que sobrevive a brigas, a um ano de separação, ao medo. Um amor que faz girar o torno do mundo.

“Desamparo” é um livro fortíssimo. Um ensaio contra a solidão e um convite a mudar de pele. Obrigada Inês, precisava deste livro.

PS – É impossível não dar nota 10 a um livro maravilhosamente escrito e que inclui o Rio, Berkeley e Berlim, as minhas cidades.

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Dos amores pequenos

“Há de se querer o amanhã”, escreveu no belo poema “Mulher”, Carlos Drummond de Andrade. Por vezes penso  que descobrimos tarde demais na nossa vida três artes: a cozinha, a música e o amor completo.

A cozinha não se revela na sua delicadeza e perfeição no ambiente asséptico e formatado da bimby. É um amor feito de lentidão, exige tempo e paciência e sabedoria no momento de condimentar, nada que um desses artificiais molhos ou máquinas de cozinha consigam, podem até enganar o sabor, não ilude todavia a alma. Poucas momentos serão mais sublinhes do que aqueles jantares em que o palato faz amor com os alimentos.

A música descobre-se pela poesia, não entra em nós só porque dispomos de uma playlist no telemóvel ou uma sofisticada aparelhagem Bang&Olufsen. Quantos não trauteiam a Habanera, da Carmen de Bizet, sem lhe conhecerem a letra. “L’amour est enfant de bohème/ Il n’a jamais jamais connu de loi”.

O amor completo pede entrega e disponibilidade de alma. Esta manhã vi um vídeo de uma proposta de casamento. Não era um daqueles pedidos que se tornam cada vez mais comuns em jogos de futebol ou num estúdio de televisão. Trata-se de uma declaração de amor feita ao longo de 365 dias. Todos os dias, durante um ano, nas mais diversas situações da vida quotidiana um homem gravou uma mensagem a dizer porque amava a sua namorada e pedir-lhe que casasse com ele. As mensagens foram editadas e exactamente um ano depois da decisão de pedir a namorada em casamento entregou-lhe o filme. Estes amores assim são como os dias em que o sol vai dissipando a neblina, que o orvalho dá lugar a uma luz intensa que realça o azul metálico do Tejo e transforma o casario cansado de Alfama e as suas velhas telhas em rubis, pedras raras.

Conheço cada vez mais gente que se queixa da solidão, que procura um outro amor após o divórcio ou fim de uma relação. Os segundos e terceiros amores são sempre complexos. Há um passado para trás um ou uma “ex”, filhos, mágoas, vivências que não se querem repetir. E o medo, a incapacidade da entrega. Não quero ser injusta, mas é mais fácil amar-se aos vinte, sem passado, do que aos 30, 40, 50.

Por vezes penso que a palavra “amor”, assim como “mulher/homem da minha vida” são cada vez mais usadas levianamente. Com o desprendimento com que se esquece um guarda chuva num autocarro trocam-se mensagens copiadas de uma qualquer página virtual dessas que anestesiam o trabalho da inteligência e têm a citação pronta a servir. Ou enviam-se “stickers” com corações e rosas virtuais. Sim porque as rosas reais, como os amores completos custam algo.

Vivem-se amores pequenos que se atiram para o chão, como pratos num festa grega, à primeira contrariedade. Qualquer esforço de partilha, e os detalhes são a essência, é visto como supérfluo. O “amor” é olhado na perspectiva do eu, esquecendo que o tu reflecte o eu é que só no reflexo dos olhos do outro se pode ser feliz.
Os amores completos são os imperfeitos, não os impossíveis, são os pacientes, das frases cadenciadas, não os cheios de adrenalina, os que estão preparados para sofrer, para resistir às contrariedades, para conquistar o outro e deixar-se ser conquistado. ” Há-de se querer o amanhã”, não apenas o agora. Vivem dos detalhes, “de tudo ao meu amor serei atento” e de cada momento.

Pode viver-se a vida toda a cozinhar com a bimby, a ouvir música na M80, a viver amores pequenos, pode-se optar pelo conforto do sofá, a fazer zapping na televisão, a namorar pelo Messenger e ficar tolhido pelo medo, sonhando mas sem dar um passo para concretizar o sonho, esse nunca saberão o que é acampar no Grand Canyon, descer os rápidos, atravessar o deserto. Às vezes os grandes amores, os amores completos são Casablanca, não tem como dar certo, outras vezes têm um final estupidamente feliz. Há as vidas mornas e as outras.”
Eu possa me dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.”.

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