Nada mudou 

 

Nada mudou. Sobre o teu nome deixei cair o tempo, rasguei-o numa árvore. Não te invoco. Encontro-te no recorte do silêncio tão pesado que me dobra. Aguardo um vento de feição que leve o teu perfume que me atravessa. Assim me faço ao sono, noite após noite, lembrando horas, de olhos desatentos sobre os livros, em que me demorava a ver-te dormir. 

Nada mudou. Parti para os lugares derradeiros do mundo. Viajei países de luz clara e pátios com palmeiras. Naveguei mares incertos com bússola e astros. Escolhi ser outra pessoa, mas as águas não tiveram compaixão, devolveram-me o verde do teu olhar. 

Em nenhum lado, nem nas noites de luar transparentes, encontrei um lugar sereno. 

Nada mudou. Porque é atrás de ti que fecho a mala, que escolho os livros que não abandono a meio. Tenho o teu nome rente aos lábios e ainda que o quisesse murmurar calo-me. 

É por ti, nesses países onde a luz quente me afaga os ombros, que recuso outras bocas, outros braços ancorados na minha cintura, outro peso a esmagar-me sobre a areia. 

Sei que não volto ao teu corpo, que a tua voz não chamará por mim, que este amor é um mapa que não volto a desdobrar, que continuarás a partir na véspera de eu chegar.

Mas nada mudou, ainda que em silêncio guardo o que por instantes foi meu. Talvez este amor estivesse escrito, se não o estava escrevo-o eu. 

Helena Ferro de Gouveia, 29.07.15

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Onde é que eu errei? 

Sempre soube que me queria tornar mãe. Digo tornar porque a maternidade parte de um acto biológico, mas é sobretudo um ocupar o lugar, um contínuo movimento onde nada é garantido, não há rede, nada é simples ou fácil. 
Espera-se que a mãe seja como aqueles equilibristas de pratos no circo, que aceleram o ritmo delirantemente e apanham pratos vindos da esquerda e da direita, de trás e da frente, sem se desequilibrar, nem os pratos estremecerem. 
Nenhum manual prepara uma mãe para a montanha russa de sentimentos, do amor que ilumina como um relâmpago poderoso acende a noite escura, ao medo-adamastor que algo os perturbe, fira ou desiluda. Ou para as escolhas que os filhos fazem.
Quando um filho toma uma decisão que aos nossos olhos é menos acertada ou que é um murro no estômago a pergunta surge mais rápida que uma bala: onde é que eu errei?
Vou partilhar uma história pessoal, com o consentimento da minha filha no equinócio entre a adolescência e a idade adulta. 
Quando a Joana nasceu a casa encheu-se de riso e suavidade. Ria com gargalhadas claras como a água, tão contagiantes que dela diziam ser um raio de sol.
À sua roda no Kindergarten os meninos e as meninas sentiam-se bem. Era princesa entre piratas. Em casa, trepava as escadas da cama como se fossem degraus de uma fortaleza de brincar e punha-se a cantar. Tinha (tem) uma voz luminosa, como se a “água ou o vidro se rissem”. Num instante os legos transformavam-se numa orquestra. Adorava a música e adormecia embalada por canções antigas.Quando brincava às profissões dizia querer ser luthier. Depois piloto ou médica.

Olhava para vida cheia de curiosidade, respirando o seu perfume. “Mami, há tantas coisas que eu não sei. Leva-me a vê-las”. Lembro-me dela aos cinco anos a desenhar, tranquilamente, em conferências de imprensa, quando falhava a baby-sitter. Conhecia pelo nome políticos e presidentes e adorava o jogo das capitais. Queria devorar o mundo. Aninhava-se nos meus braços quando trovejava. Juntas éramos onda e areia. 
De repente cresceu, começou a viajar sozinha, a falar em inglês com a mãe no Facebook, a namorar. Manteve-se uma aluna brilhante e permaneceu cumplicidade com a mãe. Tanta que me telefonou a meio da noite (da minha noite) para Cruzeiro do Sul, cidadezinha bem no fim do Brasil, para me contar entre o assustada e o feliz que tinha perdido a virgindade. 
Decorridos meses sobre esse telefonema – e da minha estupefacção que chorei no ombro de um amigo providencial – na véspera de Natal, a Joana conta-me que está grávida. A contracepção falhou e aos 18 anos ela quer ter aquele filho, adiar a faculdade de medicina e tornar-se mãe. Eu, egoísta, pensei num primeiro momento: “onde é que eu errei, onde falhei”. Aos 43 anos a ideia de ser avó ainda não me tinha ocupado os dias.
Depois abracei-a com muita força sabendo-a com mais medo do que eu.
2014 foi o ano mais difícil da minha vida. Perdi o meu pai, a mãe teve dois AVC. Há horas que magoam, outras horas virão. 2014 terminou com a graça da maternidade da minha princesa. 
Eu não errei, nem ela. Uma vida nova nunca é um erro, mas uma possibilidade.
Daqui a duas semanas serei avó e estou profundamente feliz. 

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Receita para viver

Receita para viver 
A vida raramente é um trevo de quatro folhas ou um pêssego doce e sumarento que se aconchegue exacto no côncavo da mão. 

Viver é escrever na areia ao abrigo das falésias, e esperar que a maré tarde como o crepúsculo no Verão.

É regressar a casas onde o sol adormecia no telhado, os cheiros, as memórias eram as nossos e nos baús onde estavam as cambraias e linhos encontrar lãs. E se dói, há coisas que mala nenhuma pode levar. 

É fazer chamamentos a que ninguém acode noite após noite. Não falar de detalhes intranquilos como os sentimentos, desejos e demónios que perturbam a noite.E arrepender-se do silêncio porque o sentir não se adivinha. Nem o amor se estende como um mapa antes da viagem.

Viver é perseguir o sol, voar com as aves de arribação, sem a certeza de voltar. Deixar um livro partido no meio por ler e conquistar as horas. Às vezes as horas magoam-nos. Outras virão. Não vivas à espera de uma dor que teimas que há-de chegar, posso não ter tempo para salvar-te.
As histórias de amanhã são livros por escrever, pegadas no deserto por traçar, caminhos de São Tiago a percorrer. 
Larga a âncora, o velho calendário cheio de desencontros, e faz da mais pequena história do mundo, a nossa, por instantes enorme.

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Merkel, a Europa. Uma história de amor.

 

  

Goethe considerava-o um semi-deus. Refiro-me a Napoleão. Para o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a chanceler é maior do que o imperador francês. Não deixa de ter alguma razão. Ambos são resultado de uma revolução, Napoleão dominou a política francesa durante 16 anos, Merkel  conta 12, a Rússia tem um papel central na política de ambos , a diferença é que  as sanções de Merkel causam mais danos a Moscovo do que as tropas do francês.

Hoje, em Colónia, Angela Merkel foi eleita, pela oitava vez como, presidente dos democratas-cristãos com uns soviéticos 96,7 por cento dos votos dos delegados. Como se pode imaginar a chanceler é o partido e a CDU sem a chanceler não é nada. Nenhum político alemão, arrisco mesmo europeu, tem a estatura de Angela Merkel. Primeiro porque não têm o seu poder ( e o poder da Alemanha). Segundo porque o grande luxo da chanceler, que lhe advém precisamente desse poder,  é poder fazer política por sentido de dever patriótico e assente num profundo europeísmo e atlantismo.

Este domingo uma sondagem  mostrava que mais de metade dos eleitores alemães  é da opinião que a chanceler se deve candidatar a um quarto mandato em 2017 ( e sem os sociais-democratas). Na história alemã apenas um político, Helmut Kohl,  cumpriu quatro mandatos. 

De tudo o que sabe de Angela Merkel há uma característica que me agrada: o nunca se ter entregue a um fazedor de imagem ou a um desses gurus para os quais a política moderna se declina em sound-bites certeiros e um guarda-roupa adequado. 

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler é a ausência de gobbledygook no seu discurso.Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano, Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Angela Merkel não é “motivada pela ideologia” como salienta uma das suas biógrafas, “Jacqueline Boysen, “ ela toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos”. Convém acentuar a palavra factos porque eles falam por si.  Olhe-se para o estado da economia alemã, mas não apenas. “ Não devem ser subestimados os esforços que fez para manter a Europa unida. A Grécia não abandonou o euro, os europeus do norte aceitaram pagar bail-outs, a Espanha e outros fizeram reformas que poucos julgaram possíveis, e ajudou a Europa ver-se livre de palhaços como Berlusconi”, escreve uma das revistas que durante os últimos anos mais criticou Merkel, a “The Economist”.

Um dia, quando se fizer a história a frio dos últimos vinte anos, chegar-se-á à  conclusão de que esta mulher foi decisiva para o não desmoronar da Europa e terá um lugar tão importante na história como o de Kohl. Vai uma aposta?


(Este texto é uma adaptação do que escrevi aqui há uns meses). 

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Breve reflexão sobre a correria

Quando estive entre os índios macuxi desaprendi o relógio e ganhei um grande respeito pelo tempo. Ali no meio da Amazónia era o sol queria regia as horas, marcava o tempo da vida. E esta media-se por muitas horas de todo-o-terreno até à aldeia indígena mais próxima.

De regresso à Europa e às semanas em que todos os dias são segundas-feiras, reencontrei as horas por todo o lado, no iPhone onde escrevo, no computador, no mostrador do forno. O relógio perdeu a solenidade e o tempo banalizou-se. Tempo fugit e fugit a uma velocidade incrível.O urgente parece não deixar tempo para o importante.

Ainda me lembro do meu primeiro relógio, de correia de pele castanha , mostrador quadrado, que recebi ao completar a quarta classe. Era um presente tão aguardado que recordo as noites sem dormir a pensar nele. Aos nove anos passei a poder carregar o tempo no pulso e dar-lhe corda para que ele não se me escapasse. Não sei bem como perdi esse relógio da infância. Pior que o ter perdido é ter a sensação que um relojoeiro louco me dá corda ao tempo.

Sinto-me entregue nas mãos de  tiranos, de seu nome planeamento e reuniões , aspiro pelo tempo para ir ao encontro do que é surpreendente, poder abrir mapas  e páginas.Canoas no Rio Uraricoera

Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013

Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013

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(O que me vale é que as férias começam esta semana. Ohmmmmm)

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A espessura das palavras e do silêncio

  
Custa-me muito olhar para as imagens da agressão ao agente da PSP na Moita que alimentam o noticiário nacional. Habituada que estou à violência, ao cheiro da morte em países distantes, a polícias corruptas, não lhe encontro sentido. Apenas barbárie.

Não há dias comuns quando se é polícia. Há que reeditar todos os dias um compromisso com a resistência. Ter controlo permanente para não reagir às intimidações, às ameaças diárias, ao confronto com os abismos da abjecção humana. Viver numa angústia permanente e assistir ao sofrimento que passa para além da conta. Não é pouco. E a farda não os protege desse músculo que trazem no peito, nem do sal das lágrimas. A dor atravessa a roupa. 
Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

As pessoas são todas parecidas. Querem chegar a casa ao final do dia, abraçar os filhos, a pessoa que se ama, esticar as pernas no sofá, ler ou ver televisão, passar os olhos pelo Facebook, tomar uma cerveja ou um vinho. Os pequenos prazeres que fazem esquecer a brutalidade do quotidiano. Alguém que usa uma farda é feito da mesma matéria que nós. Tenho um amigo militar que tatuou no braço o nome do irmão mais novo, morto em Timor e antes de encerrar o caixão lhe colocou dez medalhas no peito, medalhas suas ao serviço de Portugal. Podia contar tantas outras histórias. 

Alguém de quem gosto muito, escreveu-me hoje revoltado. Ele, que é uma pessoa solar e reservada,  estava perturbado. Nunca ninguém pergunta a um polícia se está triste ou como se sente. O meu amigo esteve durante dois anos na Esquadra do Bairro da Boavista, em Lisboa, numa Equipa de Intervenção Rápida, sofreu ameaças diárias, ofensas físicas, viu camaradas ficar feridos. Não há hipérboles para descrever o medo que estes homens e mulheres têm de errar. A condenação pública de um erro da polícia é pronta, a compreensão, para uma profissão plena de riscos e sem qual a nossa tranquilidade ( e acreditem Portugal é apesar de tudo um paraíso) não estaria garantida, é curta. Ser polícia é equilibrar-se num fio muito ténue.
As imagens da Moita sacodem- nos a nós que vivemos do lado confortável da vida, dizem o que não queremos ver. Um dos pilares da humanidade é a compaixão, o outro a coragem.
Há momentos para falar dos abusos, dos erros da polícia, hoje é o dia de atravessar a espessura do silêncio e de agradecer a essas mulheres e homens que diariamente arriscam a vida por nós. 

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Devolucionómetro

Devia existir um “devolucionómetro” que permitisse trocar intactas e por outras as palavras ditas a quente e que magoam. A vida era um lugar mais fácil se viesse com errata.

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