Cábulas versão indiana



Na Índia decorrem neste momento exames escolares. Um desafio não apenas para os alunos mas também paras suas famílias, que não olham a meios para passar cábulas para o interior das salas onde decorrem os testes.

Talvez o Mário Quintana tenha razão quando escreve que “a preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”. Talvez.


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Postais de Berlim 





We will always have Berlin. 

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Desamparo

Na brevíssima passagem por Lisboa, este fim-de-semana, encontrei-me com um amigo de que gosto muito. Encontrar não será talvez o verbo adequado, retomamos uma velha conversa inacabada, conspiramos o necessário sobre política e falamos de viagens e escritores. Dizia o meu amigo que “estava a mudar de pele”. Às vezes por excesso outras por carência, ou porque as lágrimas não cumprem o seu destino natural, que é correr em caudal como ribeira fora de margem, é preciso mudar de pele, como quem muda de casa.

Mudança de pele. As adiadas e as ávidas de vida são a linha condutora do extraordinário romance de Inês Pedrosa, “Desamparo”,que li de um fôlego só.

“Desamparo” é um retrato do Portugal actual. A encenação de um tempo através de personagens com as quais boa parte dos portugueses se identifica com facilidade. O enredo passa-se numa aldeia fictícia, Arrifes, que podia ser qualquer pequena localidade portuguesa, uma metáfora da vida rural, um lugar de partilha, de solidariedade, mas também de crueldade magnificada pela pequenez da aldeia.

O romance de Inês Pedrosa é a história de Jacinta, roubada do colo da mãe, aos três anos, e levada pelo pai para o Rio de Janeiro e do seu regresso a Arrifes, cinquenta anos mais tarde para cuidar da mãe. Emigração, imigração. “As tragédias individuais não são assinaladas por placas, homenagens, celebrações. Falta-nos o tempo para as acolher e são demasiado próximas da nossa vida”.

O enredo começa com uma queda, a de Jacinta, no pátio da sua casa, uma metáfora de todos personagens que são de alguma forma anjos caídos, pessoas no limite da existência. O socorro tarda a chegar e Jacinta estendida no chão, sob um sol de incêndio, pensa no amor da sua vida, “como eu adorava aquele homem, Nossa Senhora. E tanto ele andou atrás de mim para me conquistar. Essa foi a época dourada da minha vida: desquitada, independente. Desejada. Um pedaço de mulher”. Recorda o partos muito difíceis dos três filhos Rafael, Rita e Raul, “os portugueses” no Brasil, “brasileiros” em Portugal. Jacinta morreria sozinha na cama de hospital, “morremos sempre sozinhos. Mesmo de mão dada com a pessoa que mais amamos”. E Raul, o arquitecto que trocou o Brasil por Portugal e acabaria atirado pela crise para um call center, acordaria muitas vezes nos anos seguintes torturado pela culpa de não ter estado ao lado da mãe naquele hospital.

“Desamparo” é um monumental tratado sobre a desesperança da crise financeira, sobre ausência de auxílio e protecção, sobre a solidão e a insegurança face ao amor tardio. E no meio disto tudo a esperança que brota como erva teimosa nas frechas de um muro de pedra. “Este país que se diz triste é afinal um lugar de consolação”.

E onde se encontra a redenção? No amor. Podia lá ser doutra forma. No amor tardio entre a jornalista Clarisse e Raul. Um amor tempestuoso no início  – ” trabalhar para esquecer:o tema da minha existência. Quando conheci o Raul, acreditei que esse tema caducara; viveria para amar e o trabalho deslizaria para o segundo plano que lhe caberia” – como todos amores que sucedem a desilusões passadas – “a verdade é que eu amo Clarisse, não quero perdê-la. Entreguei-me a esta mulher. Domino-a, com o consentimento dela ; nunca uma mulher se me entregara assim( …) diz que sofro de excesso de mimo materno, por isso não aguento uma repreensão. Admito”. Um amor que sobrevive a brigas, a um ano de separação, ao medo. Um amor que faz girar o torno do mundo.

“Desamparo” é um livro fortíssimo. Um ensaio contra a solidão e um convite a mudar de pele. Obrigada Inês, precisava deste livro.

PS – É impossível não dar nota 10 a um livro maravilhosamente escrito e que inclui o Rio, Berkeley e Berlim, as minhas cidades.

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Dos amores pequenos

“Há de se querer o amanhã”, escreveu no belo poema “Mulher”, Carlos Drummond de Andrade. Por vezes penso  que descobrimos tarde demais na nossa vida três artes: a cozinha, a música e o amor completo.

A cozinha não se revela na sua delicadeza e perfeição no ambiente asséptico e formatado da bimby. É um amor feito de lentidão, exige tempo e paciência e sabedoria no momento de condimentar, nada que um desses artificiais molhos ou máquinas de cozinha consigam, podem até enganar o sabor, não ilude todavia a alma. Poucas momentos serão mais sublinhes do que aqueles jantares em que o palato faz amor com os alimentos.

A música descobre-se pela poesia, não entra em nós só porque dispomos de uma playlist no telemóvel ou uma sofisticada aparelhagem Bang&Olufsen. Quantos não trauteiam a Habanera, da Carmen de Bizet, sem lhe conhecerem a letra. “L’amour est enfant de bohème/ Il n’a jamais jamais connu de loi”.

O amor completo pede entrega e disponibilidade de alma. Esta manhã vi um vídeo de uma proposta de casamento. Não era um daqueles pedidos que se tornam cada vez mais comuns em jogos de futebol ou num estúdio de televisão. Trata-se de uma declaração de amor feita ao longo de 365 dias. Todos os dias, durante um ano, nas mais diversas situações da vida quotidiana um homem gravou uma mensagem a dizer porque amava a sua namorada e pedir-lhe que casasse com ele. As mensagens foram editadas e exactamente um ano depois da decisão de pedir a namorada em casamento entregou-lhe o filme. Estes amores assim são como os dias em que o sol vai dissipando a neblina, que o orvalho dá lugar a uma luz intensa que realça o azul metálico do Tejo e transforma o casario cansado de Alfama e as suas velhas telhas em rubis, pedras raras.

Conheço cada vez mais gente que se queixa da solidão, que procura um outro amor após o divórcio ou fim de uma relação. Os segundos e terceiros amores são sempre complexos. Há um passado para trás um ou uma “ex”, filhos, mágoas, vivências que não se querem repetir. E o medo, a incapacidade da entrega. Não quero ser injusta, mas é mais fácil amar-se aos vinte, sem passado, do que aos 30, 40, 50.

Por vezes penso que a palavra “amor”, assim como “mulher/homem da minha vida” são cada vez mais usadas levianamente. Com o desprendimento com que se esquece um guarda chuva num autocarro trocam-se mensagens copiadas de uma qualquer página virtual dessas que anestesiam o trabalho da inteligência e têm a citação pronta a servir. Ou enviam-se “stickers” com corações e rosas virtuais. Sim porque as rosas reais, como os amores completos custam algo.

Vivem-se amores pequenos que se atiram para o chão, como pratos num festa grega, à primeira contrariedade. Qualquer esforço de partilha, e os detalhes são a essência, é visto como supérfluo. O “amor” é olhado na perspectiva do eu, esquecendo que o tu reflecte o eu é que só no reflexo dos olhos do outro se pode ser feliz.
Os amores completos são os imperfeitos, não os impossíveis, são os pacientes, das frases cadenciadas, não os cheios de adrenalina, os que estão preparados para sofrer, para resistir às contrariedades, para conquistar o outro e deixar-se ser conquistado. ” Há-de se querer o amanhã”, não apenas o agora. Vivem dos detalhes, “de tudo ao meu amor serei atento” e de cada momento.

Pode viver-se a vida toda a cozinhar com a bimby, a ouvir música na M80, a viver amores pequenos, pode-se optar pelo conforto do sofá, a fazer zapping na televisão, a namorar pelo Messenger e ficar tolhido pelo medo, sonhando mas sem dar um passo para concretizar o sonho, esse nunca saberão o que é acampar no Grand Canyon, descer os rápidos, atravessar o deserto. Às vezes os grandes amores, os amores completos são Casablanca, não tem como dar certo, outras vezes têm um final estupidamente feliz. Há as vidas mornas e as outras.”
Eu possa me dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.”.

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Viagens na minha terra (Munique)

Muenchen

“Lederhose und Laptop” (calções de pele e computador portátil): assim definem os alemães a Baviera.

Quanto aos bávaros, estes preferem a máxima  “Extra Bavariam nulla Vita, et si Vita non est ita” (fora da Baviera não há vida e se existe não é esta). Não deixam de ter um poucochinho de razão, basta visitar Munique.

Com Hamburgo e Dusseldorf, a orgulhosa capital da Baviera disputa as preferências dos ricos, super-ricos e multimilionários. A que se somam intelectuais, escritores, pintores, cineastas que fazem da metrópole atravessada pelo Isar numa das mais interessantes cidades alemãs em termos culturais, aguentando mesmo a comparação com Berlim.

Munique é conhecida internacionalmente pelas suas colecções de arte antiga e clássica. A Alte Pinakothek (com obras de Rubens, Rembrandt, El Greco, Ticiano, Dürer), a Neue Pinakothek (Goya,Gaugin, Henry Moore) e a Pinakothek der Moderne (Picasso, Matisse, Braque, Max Beckmann) são alguns dos museus de arte mais conceituados da mundo.

A capital da Baviera é um misto, uma paleta rica em nuances. Conjuga o deslumbramento das grandes cidades históricas com uma pitada de província pitoresca. Exuberância, alegria de viver e vitalidade são sinónimos de Munique.

Assim como o catolicismo profundo e o Grant, algo equiparado à fleuma britânica. Na cidade convivem palácios de contos de fadas e minimalismo arquitectónico. Se fosse uma cor, Munique seria “dourada”. Ou não fosse o barroco o estilo dominante dos monumentos.

E a cor da sua cerveja, reconhecida internacionalmente, e celebrada anualmente por mais de 6 milhões de apreciadores na Oktoberfest.

No imaginário colectivo alemão o brasão não oficial de Munique é a Mass, a caneca de cerveja de um litro, e o Brezel, o pão salgado que tradicionalmente a acompanha.

O culto da salsicha

O lado pitoresco é um bom ponto de partida para começar uma vista a Munique. Encha-se de coragem e tome um pequeno-almoço bávaro composto por uma Weissbier  (cerveja branca), salsichas brancas com mostarda doce, Brezel e, para rematar,um café. Os muniquenses levam muito a sério a tradicional salsicha – diariamente são consumidas na cidade 250 mil – e existem mesmo manuais de “salsichologia”, que explicam a forma correcta de ingerir este exemplar dopatrimónio gastronómico alemão que figura com frequência em menus ofi ciais. Por exemplo, “Der Kleine aber absolut unentbehrliche Weisswurst Knigge”, de Werner Siegert, que investigou o assunto durante 30 anos.

Reforçado, dirija-se à Marienplatz, a praça central da cidade em torno da qual se agrupam alguns dos mais importantes monumentos de Munique. A praça é dominada pelo edifício neogótico da Rathaus (construída de 1867 a 1908), mais pomposo do que interessante. A Rathaus redime-se pelo Glockenspiel. Pontualmente às 11h00, 12h00 e às 17h00, durante oito minutos, os 43 sinos do carrilhão da Rathaus tocam e grandes bonecos de madeira representam dois momentos importantes da história da cidade: o casamento de Wilhelm V e Renata von Lothringen, em 1568, e a Schaeffl ertanz, de 1517, destinada a dar ânimo à população durante a peste .

Quem quiser ver do ar a Marienplatz deve subir à torre da igreja Peterskirche, a mais antiga igreja de Munique, e se o tempo estiver bom, quase que pode tocar nos Alpes. Saindo da Peterskirche o visitante mergulha, cinco minutos mais tarde, numa das instituições de Munique, o Viktualienmarkt, quase um quadro de Arcimboldo, um mercado onde se amalgamam frutos e legumes frescos, queijos, salsichas, produtos artesanais. Não é um local barato, mas a qualidade dos produtos é excelente.

Em pleno mercado situa-se um pequeno Biergarten, um bom lugar para uma pequena refeição.

O Palácio Residenz  e o Englische Garten

A norte da Marienplatz encontra-se o esplêndido Palácio Residenz, que, como o nome indica, foi durante cinco séculos a residência e o centro de poder dos reis da Baviera, os Wittelsbachs. Recomenda-se que planeie pelo menos um dia inteiro para visitar a Residenz, um esplêndido museu de decoração interior.

Salientem-se apenas alguns pontos altos do paço, a Ahnengalerie, uma galeria decorada em estilo rococó, semelhante a uma sala de espelhos, onde estão expostos 121 retratos dos Wittelsbachs. Deslumbrantes e sumptuosos são também os Reiche Zimmer, a Nibelungen Saele (cinco salas que evocam a épica Nibelungenlied) e a Goldener Saal.

Concorre em beleza com a Residenz o Schloss Nymphenburg, a antiga residência de Verão dos Wittelbach, enquadrado por um parque em estilo francês. É um dos monumentos de visita obrigatória. O palácio foi dedicado aos prazeres campestres da deusa Flora e às suas ninfas, daí o nome.

Incompleta ficaria uma visita a Munique sem um passeio pelo Englische Garten, um oásis em pleno coração de Munique. O Englische Garten não é apenas o maior parque da capital bávara, é maior que o Central Park em Nova Iorque ou o Hyde Park em Londres. A rede de caminhos soma cerca de 78 quilómetros. Cerca de um terço do parque é composto por áreas florestais, os restante são prados e ribeiros atravessados por mais de uma centena de pontes e passadeiras.

Construído em 1789, é um dos lugares preferidos dos habitantes de Munique e oferece atracções durante todo ano.

Fique com esta sugestão de percurso. Comece pela Chinesiche Turm, uma torre de madeira em forma de pagode e um dos muitos Biergaerten de Munique. Se preferir algo mais in, vá até ao Seehaus, onde a beautiful people refresca a sede e aprecia a bonita vista sobre o lago. No Verão, podem ser aqui alugados barcos a pedais ou a remos. Quem prefira chá pode optar pela Japanische Teehaus, onde duas vezes por mês é demonstrada a cerimónia japonesa de preparação do chá. No norte do parque situa-se o anfiteatro onde no Verão se realizam concertos e espectáculos teatrais. Uma curiosidade do Englische Garten são os surfi stas do Eisbach. As ondas deste ribeiro artificial são mesmo referidas no Stormriders Guide.

Não se surpreenda se vir alguém nu a apanhar sol ou simplesmente a passear, uma vez que o Schoenfelderwiese, junto ao Schwabinger Bach, é uma zona de nudismo. Liberalitas Bavierae.

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Em busca do tempo

Encontrar tempo para ir simplesmente dançar.

Se tivesse um desejo livre era o que pediria.

Na loucura desenfreada dos dias dei por mim a pensar na última vez que sai para dançar. Dei-me conta que foi no final de Setembro, em Maputo, e por um mero acaso. O avião da TAP falhou o voo, a estadia prolongou-se por uma noite inesperada e a generosidade dos amigos acendeu-me a alegria de dançar. Na naquela noite na Baixa de Maputo, conduzida pacientemente por um francês, tentei  os passos das danças africanas. “Deixa-te levar ”, dizia-me com um sotaque mais doce que  macarons, enquanto deslizávamos.  Naquele terraço, sem querer demonstrar nada – e era impossível face à imponência dos pares que rodopiavam e se entrelaçavam ao ritmo da música –, sem olhar para quem dançava ao lado,  rodopiei e cacei a liberdade que anda tão rara em dias cheios. “Quem dança/Não é quem levanta poeira/Quem dança/é quem reinventa o chão”.

Enquanto estou em abstinência de viagens e entregue nas mãos de  tiranos, de seu nome planeamento de projecto e reuniões , aspiro pelo tempo para ir ao encontro do que é surpreendente, poder abrir portas e páginas. Até já, o Excel chama-me.

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Ficção científica? Não, Suécia.

Hannes Sjöblad não necessita de cartão de identificação para entrar no escritório, nem no ginásio. Para desbloquear o telemóvel não necessita de código, basta aproximar a mão. No inverno passado o sueco implantou na mão um chip, do tamanho de um grão de milho, que contém todas as suas informações pessoais e códigos. O que parece ficção científica tornou-se na Suécia há muito realidade, pelo menos 300 pessoas já implantaram um RFID-chip. Em breve os chips suecos substituirão os cartões de débito e de crédito, assim como serão suficientes para embarcar num avião.

Não sei muito bem o que pensar desta possibilidade que a ciência nos oferece. Se por outro vejo a sua componente prática ( não ter de decorar pins, transportar cartões e documentos de identificação) por outro lado ela abre, não escancara a porta da vigilância total e da transparência total.

( agora que me dava jeito um chip destes para substituir as chaves de casa e do carro, sempre perdidas nas catacumbas da minha mala de mão, ou o cartão da garagem, dava)

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