Dos encontros inesperados:

O taxista que me leva ao aeroporto de Düsseldorf, ao ver-me de livro na mão pergunta: “conhece a poesia de Farough Farrokhzad?”.

Respondo que apenas conheço o nome de uma das maiores poetisas persas. Vira-se na minha direcção e oferece-me um livrinho, “Divar”, com os poemas em inglês. “Quando o ler passe-o a outra pessoa”, pede-me.

Já no aeroporto o motorista iraniano, professor de literatura no exílio, entrega-me duas bolachas de pistácio “Vieram da minha cidade ( na fronteira com o Azerbaijão) e tem cara de gostar delas”.Quase o abraçava.

Já em Varsóvia entreguei o “Divar” a um universitário português de Braga que conheci no Caffé Nero. Como dizem os polacos Gość w dom – Bóg w dom. Convidado na casa, Deus na casa.

O livrinho de poesia era meu convidado, enriqueceu-me e comoveu-me é tempo de o deixar partir. 

   

     

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A propósito de Grass lembrei-me de Fest*

Se é possível falar de um “quinto poder”, um poder intelectual na Alemanha, então o escritor Günter Grass e o historiador Joachim Fest [entretanto falecido] são dois dos seus representantes mais influentes. Ambos da geração dos Flakhelfer – que designa os alemães que na adolescência foram chamados a entrar numa guerra perdida – Grass, o ídolo eloquente, turbulento e moralista da esquerda, e Fest, o austero analítico conservador, encarnaram ao longo de décadas pólos políticos opostos.
No Outono de 2006 ambos decidiram contar como se tornaram naquilo que são. Grass fez da sua confissão – ter sido do soldado das Waffen SS aos 17 anos – uma encenação estética. Fest pediu emprestado o título da sua autobiografia a uma passagem do Evangelho de São Mateus, Etiam si omnes – ego non (“mesmo que todos colaborem, eu não”).
Naquele Outono de 2006, não podia haver título mais provocador para um livro de memórias. Grass pertence à geração de jovens homens formados pela propaganda de Goebbels e deslumbrados pelo nacional-socialismo. Em Descascando a Cebola, o Nobel da Literatura quebrou finalmente um silêncio de 60 anos e, para desilusão da esquerda, justifica-se com a cegueira ideológica comunitária, com a abnegação à causa nacional. Como se não houvesse outra via. Eu Não, a biografia de Joachim Fest editada pela Rowohlt, foi considerada pela crítica como uma sensação. Insuspeita de grande simpatia pelo grande pensador católico e conservador, a Der Spiegel escreve: “Faz bem ler o livro de Fest, em particular neste Outono. É estilisticamente elegante e não como uma cebola que tem de ser descascada e descascada para no final enganar os leitores quanto ao núcleo.”
Em 304 páginas, escritas de forma clara e sem a névoa em que Günter Grass envolveu os anos da sua juventude, Fest conta o quotidiano numa família resistente ao regime. O seu pai é um republicano militante, um prussiano convicto, erudito e profundamente católico que lutou ao lado dos sociais-democratas contra a ascensão dos nazis. Logo em 1933 a família Fest conhece as represálias contra os não alinhados. O pai é afastado do seu posto como director de uma escola, é proibido de dar explicações e a família burguesa perde privilégios. É por esta altura que os contestatários do regime começam a aparecer mortos. Com o pai, Fest aprende a ser fiel a si próprio e a assimila a coragem para não se acomodar.
“Não somos pequenos. Pelo menos não nessas questões.”
 Um dos momentos mais expressivos das memórias de Fest é um episódio do início de 1936. Fest, então com nove anos, e o seu irmão Wolfgang ouvem uma rara altercação entre os pais. A mãe, no fim das forças face às adversidades, procura convencer o pai a filiar-se ao NSDAP. “É só uma inscrição, nada mais: Nós permanecemos os mesmos”, argumenta. Sem compasso de espera o pai responde: “Iria mudar tudo.” A mãe alega que a hipocrisia sempre foi um meio dos pequenos se defenderem dos poderosos. O pai diz simplesmente: “Não somos pequenos. Pelo menos não nessas questões.” Etiam si omnes – ego non.
As questões de consciência com se confrontou um impotente pai de cinco filhos ilustram a situação vivida por muitos alemães em 1933. Houve os que optaram pelas represálias e os que viram a acomodação como um mal menor. Apesar da proximidade que os unia, pai e filho enfrentaram-se. A decisão de Fest de se alistar na Luftwaffe, a força aérea, para evitar a convocatória para as Waffen SS provoca a ira do pai. “Ninguém se apresenta como voluntário para a guerra criminosa de Hitler.”
No final da guerra, pai e filho retomam o tema. “Não estavas de todo errado, mas eu que estava certo”, afirma o pai. Com este livro, um consequente prosseguimento da sua vida e obra – Fest é autor de uma brilhante biografia de Hitler, referência para todos os estudiosos do período nacional-socialista, e também do livro em que se baseou o filme sobre os últimos dias do ditador, Der Untergang (A Queda) -, o historiador pôs um fim definitivo ao confortável mito alemão do Nicht-gewusst-Haben, não sabia de nada, e do Nicht-anders-gekonnt-Haben, não podia ter agido de outra forma.

*Texto aqui publicado em 2012

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Imigrantes

Escrevo no avião rumo a Lisboa. Acabei a leitura da imprensa e detive-me num artigo sobre o fluxo de imigrantes para a Europa.
Ano após ano a agência de estatísticas europeia dá conta que os europeus não têm filhos porque não podem ou porque não querem e que se nada acontecer nos extinguimos sem apelo nem agravo em poucas gerações. Quase sempre quando se fala neste tema o politicamente correcto obriga a que se diga “precisamos de imigrantes”. O que não se diz ou pouco se fala é na forma como a fortaleza Europa fecha as portas aos que não lhe servem (leia-se bem qualificado, ateu ou cristão, “ocidental”). A comoção pelos que vão deixando a vida nesse cemitério em que converteu o Mediterrâneo até será na maioria dos casos genuína, porém não passa de lágrimas fugazes que duram o tempo de uma reportagem na imprensa. Demasiados não perdem tempo a pensar em quem são estas pessoas a quem recusamos entrada. Algum jornal publicou as histórias individuais dos sírios que embarcaram no voo da TAP de Bissau para Lisboa? Saber-lhes a história e não apenas a proveniência torna-os numa coisa de mais palpável. Gente sem futuro assinalável e passado distante, doloroso.
Olha-se para o exército de desesperados que se atropelam nos muros e sebes de arame que separam África da Europa como pobres, sem instrução, sem nada para oferecer ou como prostitutas nigerianas (tantas nas ruas e bares portugueses), pequenos criminosos, traficantes de todos os males. 
Quando olho para essas pessoas – a quem não tem a oportunidade de as olhar no branco dos olhos recomendo o livro do Paulo Moura, “Passaporte para o Céu” – vejo-as como pessoas que muitas vezes não tendo nada de seu, possuem algo de que a egoísta Europa desesperadamente precisa: uma fúria de viver e a juventude.
Todos temos uma noite escura, mas 
alguém  imagina o que é viver em quarteirões inteiros arrasados, com paredes, onde as há, pontilhadas por furos de balas? Ou coberto por um plástico azul da ONU esticado numa armação de paus ? Em tendas encharcadas, sujas de lama, rotas? Ter apenas insectos para comer porque os animais domésticos e o gado há muito foram consumidos? 
 
Fogem eles para se salvar? Talvez, mas não apenas, eles também vêm para nos salvar a nós. Recordam-se do empregado no supermercado judaico de Paris ?
Quantas sepulturas nas ondas nas ondas serão ainda precisas? 
Foi no Promontório de Sagres que um príncipe português visionário sentiu o apelo nómada das águas e enviou caravelas com Cruz de Cristo arvorada nas velas para unir continentes. A densidade do tempo faz-nos responsáveis pelos invisíveis, os cuja vida anónima jaz no enrolar e desenrolar das ondas. “E assim se sabe que sempre que se fala do espírito do Príncipe”, diz a Lídia Jorge, “seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele outro infante múltiplo, sem retrato, que habita na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade”.

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Ver o mar 

Vim para ver o mar contigo.
O lugar não importa.
Só os ventos de longe que agitam os cabelos
As ondas moldando a forma de um corpo. 
A graça inquieta dos teus olhos doces
Qualquer coisa como a luz e vida. 
Falarei baixo, 
Para não perturbar o sossego na tarde parada
Trago na ponta dos dedos um afago,
poderosa ternura que nada pede
A vontade de encostar a minha face em tua face
Ah pudera eu dizer-te tudo.
Vim para ver o mar contigo.
Com a imagem tua que eu compus serena.
Falarei baixo, pedido à brisa que te leve as minhas palavras
Na verdade é o infinito trazer-te mim,
E a lembrança de cada instante vivido.
HFG, 2015

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Maravilhas do Facebook 

Sou uma adepta incondicional do Facebook, diverte-me, informa-me, permite-me acompanhar os que gosto. Agora o Facebook tem uma nova função, as memórias. Ao consultá-las recordei que há exactamente um ano estava a caminho de Vila Real, numa das viagens mais atribuladas da minha vida. 

Começou com a greve da Lufthansa que me obrigou a viajar a partir da Holanda. Depois houve alguém que suicidou na linha, alguém que teve um ataque cardíaco a bordo do comboio e o surreal anúncio: ” se há algum médico à bordo, homem ou mulher não importa, por favor dirigir-se ao pessoal da DB”. Foi impossível fazer o check online, perdi o comboio entre Utrecht e Schipol e quando cheguei ao aeroporto o único local disponível para carregar o telemóvel era uma “bicicleta”  em que eu ao pedalar produzia a minha própria electricidade…

Consegui chegar a Vila Real e a mãe que teve dois AVCs graves ( o motivo da viagem) encontra-se francamente melhor, o que põe tudo em proporção.

Fica o registo.

 

   

     

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Filed under Alemanha, cenas da vida doméstica

Museu dos Corações Partidos

Na geografia dos afectos há objectos que se transformam numa espécie de porto no qual não se volta a lançar amarras.

Quando um amor acaba o que fazer com as memórias físicas dele? Os objectos, as cartas, os presentes existem para reconhecer o outro, para estruturar os nossos sentimentos, por vezes para dizer sem palavras o que é suficientemente importante para ser dito.

Como nem todos os afectos, nem mesmo os grandes amores, têm um final feliz sobram os seus despojos. Alguns, os preferem guardá-los numa caixa no sótão, embrulhados em papel amarelecidos, onde não desinquietem a paz das coisas. Quem sabe para os desembrulhar mais tarde, numa espécie de Natal imóvel e portátil, encontrando neles um consolo infantil e a nostalgia dos momentos partilhados.

Os mais pragmáticos, feridos ou os conseguem esquartejar sentimentos e pensamento, separam DVDs, livros, fotografias e despejam as memórias no contentor mais próximo. Recalcando todos os assomos da saudade ou da mágoa.

Para os amantes separados há em Zagreb um local extraordinário, o Museu dos Corações Partidos, no centro histórico da cidade. Cada objecto exposto é acompanhado pela sua história. Lá se encontram as cartas e fotografias que um homem arménio, Yerevan, escreveu e enviou à namorada, antes de morrer num acidente de automóvel, no dia seguinte à ter pedido em casamento. É um museu que faz chorar e rir. Lá se encontra um telemóvel oferecido para que a namorada não volte a ligar, um ferro de engomar usado para passar um vestido de casamento de que é o único sobrevivente; o telemóvel de um amante, as chaves de casa dele oferecidas ao museu para ela não sofrer a tentação de lhe voltar a entrar em casa.

Não é um lugar triste este Museu, embora contenha o sal das lágrimas, porque como disse o Vinicius “a vida só se dá/Pra quem se deu/Pra quem amou, pra quem chorou/Pra quem sofreu”. O amor é como um mapa, pode estar esborcinado depois de muitas viagens,dá rumo à existência. Nunca é uma dependência, mas uma abundância.

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Das coisas que importam

Esta fotografia que partilho foi-me enviada hoje de Balsas, uma cidadezinha, no Maranhão profundo, por uma pessoa de quem gosto muito.

Saber que alguém do outro lado do mundo pensa em nós com carinho é daquelas dádivas que não se quantificam, mas nos envolvem com o abraço diáfano da ternura.

Li em tempos que cada viagem que fazemos deixa-nos mais longe da origem. Porque sempre que regressamos somos outra gente e outros lugares dentro de nós. Na verdade acredito que cada viagem, que cada amigo novo que se conquista nos aproxima mais da origem, e essa origem é a gentileza, a generosidade, a partilha e a entrega, porque a vida é um fósforo. Sem Amor, em todas as todas as suas acepções a vida nada vale. 

 

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