Tag Archives: Poesia

Vagabundo, sem vergonha, poeta. Génio.

Não será o maior poeta brasileiro – como se entre o Gullar, o Bilac e o Drummond se pudesse escolher apenas um – porém o mais amado. Defini-lo não é fácil, Vinicius de Moraes foi muitos. Vagabundo, boémio, amante das mulheres todas, mesmo as feias, letrista, diplomata, cidadão do mundo. Poucas pessoas viveram a vida com tanta liberdade, despudor e prazer.

O seu amigo Paulo Mendes Campos interroga-se se “existirá na língua portuguesa outra fascinação tão global pela mulher?”. E não se trata apenas da capacidade de descrever a beleza em todas as suas curvas, de exortar a feminilidade, mas também de entender suas fraquezas. Talvez em “Desespero da Piedade” Vinicius diga tudo.

Drummond de Andrade invejava-lhe a simplicidade, a imagem como verbo. Vinicius é sempre evocação. Haverá melhor definição de amor que a escrita, em Outubro de 1939 no Estoril, no verso final de “Soneto de fidelidade” ? “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”.

Gosto de quase tudo do Vinicius, agradeço a graça de o poder (re)ler em frente ao mar, palavras como veleiros sós em portos silenciosos- em ano de centenário as livrarias brasileiras reeditaram-no – porém as palavras do poeta que mais me tocam não são um poema encontrei-as em “O dia do meu pai”.

Partilho-as.

“Faz hoje nove anos que Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, homem pobre mas de ilustre estirpe, desincompatibilizou-se com este mundo. Teve ele, entre outras prebendas encontradas no seu modesto, mas lírico caminho, a de ser meu pai. E como, ao seu tempo, não havia ainda essa engenhosa promoção (para usar do anglicismo tão em voga) de imprensa chamada “O Dia do Papai” (com a calorosa bênção, diga-se, dos comerciantes locais), eu quero, em ocasião, trazer nesta crônica o humilde presente que nunca lhe dei quando menino; não só porque, então, a data não existia, como porque o pouco numerário que eu conseguia, quando em calças curtas, era furtado às suas algibeiras; furtos cuidadosamente planejados e executados cedo de manhã, antes que ele se levantasse para o trabalho, e que não iam nunca além de uma moeda daquelas grandes de quatrocentos réis. Eu tirava um prazer extraordinário dessas incursões ao seu quarto quente de sono, e operava em seus bolsos de olho grudado nele, ouvindo-lhe o doce ronco que era para mim o máximo. Quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai.
Se Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e eu trocamos dez palavras durante a sua vida, foi muito. Bom dia, como vai, até a volta – às vezes nem isso. Há pessoas com quem as palavras são desnecessárias. Nos entendíamos e amávamos mudamente, meu pai e eu. Talvez pelo fato de sua figura emocionar-me tanto, evitei sempre pisar com ele o terreno das coisas emocionais, pois estou certo de que, se começássemos a falar, cairíamos os dois em pranto, tão grandes eram em nós os motivos para chorar: tudo o que podia ter sido e que não foi; tudo o que gostaríamos de dar um ao outro, e aos que nos eram mais caros, e não podíamos; o orgulho de um pai poeta inédito por seu filho publicado e premiado e o desejo nesse filho de que fosse o contrário… – tantas coisas que faziam os nossos olhos não se demorarem demais quando se encontravam e tornavam as nossas palavras difíceis. Porque a vontade mesmo era a de me abraçar com ele, sentir-lhe a barba na minha, afagar-lhe os raros cabelos e prantearmos juntos a nossa inépcia para construir um mundo palpável”.

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Canções das suas terras que não conheço*

* o título do post é pedido emprestado a um poema de Craveirinha.

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Pai ( ao meu pai distante)

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…

(Mario Quintana)

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Até 2013

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

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Ami i sombra k asabi

Fotografia da página do Hospital Simão Mendes, em Bissau

 

Ami i sombra di un kurpu ka ten

Ami i tchur di dususpero

Ami i tuada di girta ku girtadu

Na um garganti sin forsa

Ami i um kusasinu ku

sta lundju

Ami i sombra k asabi

 

(Sou a sombra de um corpo

que não existe

Sou choro desesperado

Sou eco de um grito articulado

Numa garganta sem forças

Sou um ponto infinito

Silhueta da desventura)

Odete Semedo ( poetisa guineense)

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O pobre

O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.

Bertold Brecht, in ‘Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas’

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Saudade

“Saudade é não saber.

Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche”.
(Martha Medeiros)

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