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Princípios, guerra, pobreza: anotações à margem do Natal

1.O eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência.

Deixem-me fazer aqui um parêntesis para vos falar do F. Conheci-o no local onde costumo tomar café e ler o jornal. Cruzamos-nos muitas vezes, sem termos trocado palavras. É um velho que traz no rosto a geografia da vida e se esconde sempre por detrás de um livro. Um dia eu trazia comigo um livro sobre judeus alemães e ele pediu-me desculpa e perguntou “é judia”? Respondi-lhe que não, que estava a fazer uma investigação. Quis revelar-me um segredo.

No mais improvável lugar de todos para ter esta conversa, aquele alemão quase com noventa anos (nasceu em 1925), recuou dezenas de anos rumo ao passado. Esta conversa não vai ser fácil, apetecia-me providenciar o meu desaparecimento, mas decido ficar. F. contou-me que havia sido convocado para a Wehrmacht, já próximo do final da guerra, a família tinha sido fervorosamente pró-nazi na década de trinta. Ele vivia no terror de matar ou ser morto. Quando chegou a inevitável convocação resignou-se. “Não tive coragem de desertar, nem de resistir. Fui um cobarde”. Desceu ao Inferno. Disparou vezes sem conta, para não morrer teve de ser ele a matar, tiro à vista, o ódio no branco dos olhos. Quase morreu de frio. Memórias difíceis de serem ditas. Acabou prisioneiro de guerra na Rússia. Ensombra-se-lhe o olhar. Arrepio-me. Sinto-me gelada por dentro. Comove-me aquele velho, quebrado, que espera o impossível, que lhe perdoe, eu, interposta pessoa, em nome às vítimas de uma ideologia demente. Repugna-me o jovem nazi que foi. Um dilema terrível.

Disse-me que depois da guerra estudou Literatura, que as palavras de autores judeus, que demorou anos até conseguir ler, foram o passaporte para entender o seu crime, o crime, a ignomínia da Alemanha. ” O que é terrível procuramos a verdade é quando a encontramos”. “Há um limite. Não me perdoo não ter resistido. Não é verdade que tudo passe. Carreguei toda a vida a vergonha e o pesadelo. Estou quase a morrer. Os sobreviventes estão a desaparecer. Mas o horror, esse lugar que ninguém admitir existiu. Existe. Obrigada por me ter ouvido” .

F. levantou-se e deixou-me com a minha angústia em frente a uma chávena de cappucino frio.

Esta conversa sobre o território vasto do horror fez-me admirar ainda mais aqueles que tiveram a coragem de resistir, de contrariar o eterno destino dos princípios.

2. Este longo parêntesis serve de prelúdio para um ensaio, “Portugal, Finis Terrae”, publicado na Lettre International alemã, onde entre muitos outros aspectos se fala da relação entre Portugal e Angola.

“Angola é hoje Circus Maximus da nova exploração colonial num projecto de capitalismo de rapina sob a égide de um regime de origem e carácter estalinista”. Este binómio, Lisboa-Luanda, inverteu-se no entanto, numa espécie de vingança histórica. “Hoje são os filhos e os netos dos colonialistas portugueses que trabalham nos estaleiros, pedreiras e na construção civil como semi-escravos dos antigos “nativos” e “assimilados” da “Província Ultramarina” que era o orgulho de Salazar”. Sem Angola, escreve Pedro Rosa Mendes,”Portugal seria incapaz de sobreviver. O que coloca a questão, como nos anos setenta, da soberania, não de Angola, mas a nossa”.

“A nação portuguesa ( de nove séculos!!) confronta os seus mitos com a realidade da sua existência periférica e recicla na “lusofonia” o discurso do excepcionalismo português cozinhado a partir do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A pobreza enfim volta a ser condição normal do cidadão português médio. Resignação, rancor e inveja social – marcas ancestrais de uma população que poucas vezes teve a coragem de ser povo para mudar o seu destino – formam o código operativo de sobrevivência individual”.

Embora não concorde com tudo o que Pedro Rosa Mendes escreve neste ensaio, um retrato feroz do país onde o prestigio social do “Schein” (parecer) é muito mais forte do que o do “Sein” (ser), considero a sua leitura indispensável. “Há uma geração os portugueses viviam abaixo das suas possibilidades, o cidadão médio consumia um copo de leite por dia, um pedaço pequeno de carne por semana, três ovos por mês e um frango por ano”. O país não andará muito longe de regressar a este passado, muito por culpa dos cúmplices de Salazar: as nossas “elites” . “Exemplo mais grotesco? O ministro Miguel Relvas” ( e mais não traduzo, ide ler, ide).

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Os mercados moram aqui

Se a crise da dívida fosse um filme de vilões este seria o cenário perfeito. Kronberg, nos arredores de Frankfurt. Cidadezinha discreta, silenciosa, daquelas que não aparecem no Google Street View.

Olhe-se para a estatística e percebe-se porquê. Banqueiros, industriais, milionários e multimilionários – conceito que na Alemanha é aplicado a fortunas superiores a mil milhões de euros – fazem de Kronberg a cidade com maior poder de compra na Alemanha, muito provavelmente na Europa. Os mercados moram aqui.

É às mansões sumptuosas de Kronberg, cercadas por muros altos, protegidas por portões à prova de bala e câmaras de vigilância, que à noite regressam, ronronado os motores dos Jaguares, Maseratis, Porsches, Maybachs, os gestores que têm na mão o destino de países inteiros. Portugal incluído. A casa de hóspedes do Banco Central Europeu também se situa aqui. Este é o maravilhoso mundo da upper class, em que o dinheiro absorve todas as falhas de carácter. Mundo imperturbável e convém que se acentue a palavra imperturbável.

O Die Zeit quis pôr este território sideral à prova. Como convivem os milionários com a pobreza? Serão os Maquieveis e as aspirantes a Maquievel dos tempos modernos a personificação do cinismo e da amoralidade? Falha a responsabilidade social do dinheiro?

Nos dias que antecederam o Natal, um repórter e uma actriz, vestiram roupas coçadas, disfarçaram-se de sem abrigo e procuraram ajuda em Kronberg. Desse exercício resultou a perturbante confirmação do estudo do psicólogo Dacher Keltner da Universidade da Califórnia. Keltner concluiu que “as pessoas mais ricas têm menor capacidade de empatia e menos compaixão do que as mais pobres”. “Aquilo a riqueza, o prestígio e uma boa posição na vida dão é a liberdade para se concentrar em si próprio”. Licença para o egoísmo ou para se livrar do aborrecimento que é ter uma consciência.

Todas as portas de Kronberg se fecharam ao Die Zeit, ou melhor nenhuma se abriu, porque a comunicação foi feita através de intercomunicadores. Apenas um padre católico, habituado a conviver de perto com a pobreza, deu abrigo ao repórter e à actriz durante a noite. Todas as esmolas e refeições que receberam vieram das mãos dos empregados, de um jardineiro ou de alguma classe média que habita em Kronberg.

Há várias passagens na reportagem que inquietam. Uma delas é a observação de uma criança, com um rosto que podia ser capa de uma qualquer Vanity Fair, “mamã, olha aqueles cobardes preguiçosos”. Pobre menina rica será que algum dia se dará conta que existem catástrofes maiores do que a queda do DAX?

Outro momento desconcertante é a descrição do “Charity Concert” para os meninos cegos do Bangladesh organizado por um manager da Standard & Poor’s. A concorrência pelas photo-opportunities da caridade é tão grande, que já não basta uma só tragédia ser-se pobre no Bangladesh, no Sri Lanka ou no Peru, é necessário um cumular de desgraças, neste caso ser-se pobre e cego. Condição sine qua non para a distribuição das migalhas que caem do banquete dos milionários é estar-se à distância de um continente. Porque ajudar os mais de dez milhões de pobres na Alemanha colocaria a questão da redistribuição da riqueza. Uma maçada portanto. Os falsos sem-abrigo estiveram durante cerca de trinta segundos no lobby do hotel de luxo onde se realizava o concerto. Zelosos os empregados conduziram-nos à saída. “ A vossa presença é inadequada. Nós temos um evento de caridade!”.

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Occupy África

Não cabe no script. Dirão alguns que este não será o melhor momento para se falar sobre pobreza em África. Com as câmaras atrás dos despojados europeias e os holofotes apontados para os caixotes do lixo gregos. Discordo. Este é seguramente um dos melhores momentos para se olhar para a pobreza extrema. Para os milhões que vivem com menos de dólares por dia e ano sem saber o que é uma casa, uma escola, um hospital, nem água potável ou saneamento básico.

Em demasiados países africanos pude observar o cinismo da política de interesses ocidentais – e dos BRIC, basta ver o que o Brasil, o de Lula e o da Dilma,  anda a fazer por Moçambique –  e que a herança colonialista sobreviveu à(s) independência(s). Achille Mbembe, um dos mais brilhantes teóricos dos estudos pós-coloniais, é acutilante na sua crítica:  “nós [os africanos] somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra”.

 Muito se tem escrito acerca da ascensão dos BRIC e sobre o “deslizamento” a oriente do poder económico. Contudo, a sucess story económica da primeira década deste século é africana. Dos dez países que mais cresceram entre 2001 e 2010 seis foram africanos, com Angola no topo da tabela e Moçambique em oitavo lugar. Segundo a The Economist nos próximos cinco anos as economias africanas deverão continuar a crescer ultrapassando as asiáticas.

Só que a cornucópia da riqueza é restrita a alguns: mais de metade da população destes países vive na mais abjecta pobreza. A explicação em “economês” é a simples: “ as políticas de redução da pobreza centradas apenas no crescimento económico terão um impacto mais limitado nos casos em que os níveis iniciais de desigualdade são elevados e persistentes”.

Traduzindo: enquanto os políticos africanos se continuarem a comportar como abutres e os  petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” servidos pelo Natal a apelar à lágrima das sociedades confortáveis. Os africanos merecem mais, muito mais que isto.

 

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Meninos sem colo

A “praia” da 25 de Setembro. HFG, Maputo 28.06.11
 

Estendido sob a areia dormia embalado pelo sol morno do Inverno moçambicano. Deve ter uns oito, nove anos. Na praia daquele menino não pousam flamingos, aves anunciadoras da esperança. A praia dele é o separador da 25 de Setembro, uma das avenidas mais movimentadas de Maputo.

Os passantes sucediam-se impávidos ao preguiçar sem destino daquele menino descalço.Os condutores nem lhe concediam um olhar. Perguntei quem era aquele menino sem colo. “É um feito à toa”. Filho de uma prostituta, virabazucas, das que requebram ali por perto, concebido num momento de breve prazer comprado. Abandonado pela mãe e de pai desconhecido, vai sobrevivendo como consegue. A sua estória de embalar é a fome. O seu corpo é tapete de todos abusos. Queria consolar-lhe a tristeza, passar-lhe a mão pelo rosto, dar-lhe colo. Limitei-me a dar-lhe comida , a pôr tudo o que se revolvia em turbilhão cá dentro num sorriso. Devolveu-mo. Um risco branco de dentes iluminou-se. Quando entrei no táxi, bateu ao de leve na janela e acenou-me. Depois regressou à sua praia.  

LUSA-  Moçambique tem os mais altos níveis de desnutrição crónica infantil no mundo e deve redobrar os esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio na área da mortalidade infantil, indica um relatório da UNICEF divulgado esta segunda-feira em Maputo.

O relatório de 2010 sobre “Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique” refere que 44 por cento das crianças moçambicanas sofrem de desnutrição crónica e a média mais alta regista-se na província de Cabo Delgado, com 59 por cento dos menores a enfrentar esse problema.

A situação da criança em Moçambique é também grave ao nível da mortalidade infantil, pois 141 crianças entre mil morrem antes de completar cinco anos. Dessas mortes, 33 por cento são provocadas por malária, aponta a UNICEF.

“Houve grandes progressos depois da guerra civil, mas prevalecem dois grandes problemas essenciais: o ritmo da redução da mortalidade infantil não está a ser suficientemente rápido e o segundo tem a ver com as disparidades regionais neste indicador”, disse o representante adjunto da UNICEF em Moçambique, Roberto de Bernardi, comentando o estudo.

Em todo o país, indica o relatório, 48 por cento das crianças passam por pelo menos duas ou mais privações severas, 11 por cento das raparigas com idades entre 11 e 15 anos estão infetadas pelo HIV/SIDA e 70 por cento dos alunos conhecem casos de abuso sexual nas suas escolas.

A UNICEF constatou na sua pesquisa que 52 por cento de raparigas com menos de 18 anos estão casadas e 22 por cento de crianças entre 5 e 14 anos trabalham.

Ao comentar os dados do relatório, a coordenadora-residente da agência das Nações Unidas em Moçambique, Lola Castro, afirmou que a pesquisa demonstra “a necessidade e urgência de o país investir nas crianças, porque serão os adultos” de amanhã.

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Fazer de deus com um orçamento limitado

 

Foto da DER SPIEGEL, tirada em Gangachara Upazila, Rangpur, Bangladesh

Estou furiosa. A “culpa” é da “Der Spiegel” e de uma excelente reportagem. Ela abre um rasgão que nos deixa espreitar para dentro das nossas vidinhas confortáveis e oque se vê causa repulsa. Enquanto andamos por aqui entretidos a gastar o dinheiro dos contribuintes europeus a salvar bancos e acalmar o Adamastor dos “mercados”, há um mundo que nos passa ao lado, que merece trinta segundos nos telejornais ocidentais. Quando merece.

A “Der Spiegel” retrata o dilema dos trabalhadores do PAM, programa alimentar mundial, obrigados a seleccionar quem irá passar fome e quem irá receber ajuda. Afectado pela crise mundial e pela diminuição das contribuições de países doadores o PAM anda a fazer de deus com um orçamento limitado. Quem já olhou a fome nos olhos daqueles que estão sempre à espera de alguma coisa, e eu sei do que falo porque já a vi demasiadas vezes em África, não consegue ficar indiferente.

Deixemo-nos de meias palavras: a fome em muitos países deste planeta é uma tragédia vergonhosa e sem fim à vista. É obra de salteadores. De lá e de cá. Muitos dos líderes africanos e asiáticos convivem pacificamente com a miséria
mais abjecta dos seus concidadãos enquanto investem em imóveis de luxo no “Ocidente”. São fora-da-lei internacionais a quem as multinacionais e os governos estendem a passadeira vermelha. É isto o século XXI?
Chegamos à lua, descodificámos o DNA e não conseguimos acabar com a fome?

O Biafra foi há 40 anos. Pode repetir-se amanhã. E você consegue ficar indiferente?

 

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Filed under África, direitos humanos

Os pobres

É ano de eleições. Fala-se muito de pobreza em Portugal. Um tom compungido sobrevoa os discursos. Muitos falam de cátedra, nunca viveram a experiência da pobreza na primeira pessoa.

Os rostos da pobreza são muitos, assim como os daqueles que ficam a meio sem sequer terem chegado a partir. Portugal é o país da Europa com mais meninos e meninas pobres. Uma em cada quatro crianças. Sonhos entornados pelo chão. Meninos e meninas sem hipóteses de uma educação decente, sem pais que os amparem, comendo mal e nunca a horas.  Crianças que caminham devagar para lado nenhum. O mundo à sua volta gira a duas velocidades: a dos incluídos e à deles. Chama-se a isso exclusão social e doí muito. Lágrimas choradas por dentro.

A sociedade remediada ajuda como pode. Os sacos do Banco Alimentar contra a fome enchem-se com a generosidade e o carinho de tantos. A Igreja ajuda como pode.  Os voluntários dão sem pedir nada em troca.

E no meio disto há uma elite, jornalistas incluídos, que se limita a sobrevoar coisas, a passar de longe e de lado e  a fazer de conta que  os invisíveis da sociedade fazem parte doutro país.

Algumas reportagens de fim-de-ano das televisões portuguesas foram obscenas. Gabando as frivolidades da mesa de uns poucos –  que gastaram em lagosta para uma noite e em Moet Chandon mais do que os outros têm durante um mês para sobreviver – e os vestidos de milhares de euros. É legítimo que cada um gaste o seu dinheiro da forma que melhor intenda, o que não é legítimo é que este mundo de faz-de-conta, de extravagância nos seja servido em horário nobre num espaço ” noticioso”. É de mau gosto e é ofensivo. Desculpem sim, mas a Vogue, não fica em Portugal.

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Geração sem saída…

Sai-se de Bona  e regressa-se a Bona e as notícias  de Portugal são as mesmas; é como se o mundo girasse e Portugal estivesse parado.  Crise, depressão, dificuldades, o fantasma da pobreza  e da desigualdade social. E a falência inescapável,  por mais que os políticos esperneiem. Visto daqui, da Alemanha, Portugal é um pobre país de gentes simpáticas.

Pela  nossa redacção, em Bona,  passam tantos bons jovens profissionais  portugueses e o fio condutor das suas  vidas repete-se: faculdade completa, estágio (s), precaridade, salários anoréxicos, desalento.  Alguns procuram mestrados ou doutoramentos no exterior e acabam por lá ficar. A saudade aperta, magoa, mas não paga as contas ao final do mês.  Quem fala em jornalistas, fala em cientistas, engenheiros, médicos, arquitectos. Conheço alguém a quem é reconhecida  excelência suficiente para fazer o pós-doutoramento e investigação na Universidade de Berkeley (a mais conceituada universidade pública norte-americana), em Portugal não encontra emprego. É apenas um exemplo em milhares.

“Nunca houve tantos licenciados em Portugal. E nunca foi tão difícil para os jovens encontrar emprego”. Este excerto do Público é inquietante. “A taxa de desemprego entre os jovens mais do que duplica o índice geral. Entre os que arranjam emprego, só cerca de um terço escapa à regra dos contratos a termo, recibos verdes e outras formas de precariedade. Um em cada dez licenciados abandona o país. É o retrato de uma geração sem saída.”

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Retórica e realidade

Uma das formandas de "Making Finance Work for Africa" a entrevistar "empresários" do sector informal.

Manhã de sol, segunda-feira, Avenida 25 de Setembro (data que evoca o ínicio  símbólico da luta armada contra o colonialismo português). Artesãos, sentados no chão, vendem estátuas em madeira, caixinhas, pentes. Jovens vestidos de colete amarelo ( patrocinado por uma empresa de telecomunicação de que o Presidente  Armando Guebuza é dono) estendem carregamentos telefónicos. Taxistas legais e ilegais competem por clientes, numa desordem ordenada. É o chamado sector informal da economia.

 O táxi leva-me a Sommerschield, a zona nobre de Maputo onde ficam as mansões dos diplomatas, magnatas e/ou dirigentes políticos. É aqui que venho assistir a uma conferência económica, “África e Novos Actores Globais”. No Centro de Conferências  reúne-se o who is who dos negócios moçambicanos. Os oradores – diplomatas, onusianos e académicos- conversam no palco como velhos amigos, debitando estatística, lugares comuns  e insurgindo-se contra o “afropessismismo”. Batem na tecla  do “capacity building” e usam o vocabulário “workshopista” feito de siglas, ele são os  BRICS, o BAD, o PNUD , a UA, os ODMs. Para bom entendedor meia sigla basta.

No final da conferência dirigi-me a um dos oradores perguntei-lhe se se estaria disposto a conversar  com  jornalistas moçambicanos (os que integram o curso de “Making Finance Work for Africa” que me trouxe a Maputo). Respondeu-me “foi um prazer conhece-la, mas mal tenho tempo para cumprir os compromissos da minha agenda social”.  E nesse contraste entre a retórica e a realidade vai toda a economia do país.

Antes dos tumultos  populares de Setembro,  lia-se num fórum online “existem vários mundos em Maputo. Condomínio e palhota. Fome e abundância. Campos de golfe e supermercados gourmet ao lado de casas sem água, electricidade, saneamento e comida na mesa”. A revolta, como escreve Cristiana Pereira, “trouxe a descoberto as assimetrias próprias de um país em que mais de 90 por cento da população vive com menos de dois dólares por dia. Com 1,3 milhões de habitantes, a cidade de Maputo apresenta uma taxa de pobreza de 53 por cento, sendo que 70por cento da população recorre a actividades informais, segundo um estudo de 2007 sobre pobreza urbana, do instituto norueguês CMI. Diariamente, a chamada “cidade de caniço” – residente nos bairros suburbanos – desloca-se a pé ou no transporte semi-colectivo, conhecido por chapa, para executar os serviços que asseguram o funcionamento da «cidade de cimento», o coração urbano onde se encontra a camada mais favorecida”. Os confrontos  a polícia e os  manifestantes fizeram  13 mortos. Seguindo, porém, a estatística dos bairros – que, tal como a economia, tem carácter informal – o número ultrapassa as duas dezenas.

A síntese de Cristiana Pereira diz tudo. “Entre o tecto de chapa e o chapa do transporte, há um enlatado de pobreza e cansaço que não mais se quer conter. Porque quando a fome aperta, a consciência desperta”.

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O planeta das peúgas rotas

A fotografia do presidente do Banco Mundial , Paul Wolfowitz, com as meias rotas, à entrada de uma mesquita,  correu mundo. Mia Couto inspirou-se nela para escrever  “O planeta das peúgas rotas”, uma intervenção sobre a “pessoa”. As peúgas esburacadas do banqueiro, mostram que apesar do sapato poder ser diferente , o dedo que espreita pelo buraco é igual ao seu e ao meu.

Algo que se esquece com facilidade no silêncio-mais-que – imperfeito com que reagiamos à leitura dos jornais. No evitar o olhos nos olhos com o destino dos miseráveis. Os slums, as favelas, os campos dos deserdados da vida onde meninos chapinham em  poças fétidas, viúvas estendem a mão, estropiados mendigam, mulheres pedem dinheiro com bébes ao colo . Onde se vestem trapos e calçam buracos.  Raras vezes os queremos ouvir e ver. Gostámos de Slumdog Millionaire porque tem happy end. A  voz dos pobres perturba a nossa existência de  ocidentais  mimados. Uma ideia de escuro em que nenhuma luz embarcou.

Chorei tanto quando vi, no cinema Avenida em Maputo, o documentário “Enjoy Poverty” de Renzo Martens , um violentíssimo documento sobre a pobreza, a deles, os que comem ratos na República Democrática do Congo e se abrigam sobre um plástico azul das Nações Unidas, e a nossa a da perversidade da ajuda humanitária, que explora a pobreza e faz dela um negócio lucrativo. Lágrimas quentes por eles e por mim.

O fio do pensamento leva-me a Bissau. Recordo-me do embaixador britânico, sediado em Dakar, que  de visita à capital guineense fazia gala em passear-se pelas estradas esventradas no seu todo terreno conduzido por um belíssimo e discreto senegalês, encaixado numa farda  solene e pesada que lhe prolongava a cor da pele, com o detalhe improvável dos inúmeros botões dourados.

A insanidade do planeta de peúgas rotas transborda quando se lêem notícias como esta publicada hoje no jornal Público. “O mundo tem, cada vez mais, manchas gigantescas de barracas. Quase 830 milhões de pessoas vivem em bairros de lata, quando, há dez anos, não chegavam a 770 milhões. Sem medidas radicais, a tendência de crescimento vai continuar e em 2020 serão 889 milhões a residir em aglomerados precários, sem condições mínimas.

O diagnóstico é traçado no relatório O estado das cidades no mundo 2010-2011: reduzir a fractura urbana, ontem divulgado pela agência ONU-Habitat, a poucos dias do V Fórum Mundial Urbano, que se realiza na próxima semana, no Rio de Janeiro”.

O travo da culpa não me sai da boca.

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