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É a cooltura, stoopid

Imagem roubada à Livreira Anarquista

Imagem roubada à Livreira Anarquista

Onde isto já vai. A cultura. Eu explico. Hoje, na leitura diária da imprensa portuguesa, esbarrei numa carta de um leitor dirigida à directora do Público. O autor, um aluno estrangeiro de língua portuguesa, indignado, escreve o seguinte:  

“José Castelo Branco e Lili Caneças [ para os leitores deste blog não familiarizados com a vida social portuguesa : ambos são personagens que vivem da sua participação em eventos e festas] são figuras incontornáveis para o conhecimento do que é a cultura portuguesa.” O alerta é feito por uma professora num curso de Português para estrangeiros leccionado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A frase é acompanhada por um exemplar da revista Caras que é mostrado aos alunos. Estamos na Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa, numa aula pós-laboral de Português para estrangeiros.”

Num primeiro instante senti-me corar com vergonha alheia, mas depois conclui que o que aconteceu naquela sala não é melhor nem pior do que o que acontece diariamente noutras escolas portuguesas. É uma reflexão da realidade nacional. Os tablóides, as revistas cor-de-rosa e as televisões controlam o espaço de debate público. Se é verdade que produzem alguma, escassa, inteligência, a outra face da moeda é que produzem muita indigência que passa por “pensamento”, por “cultura”.

Considerar Lili Caneças, cujo pensamento se sintetiza no bon mot “estar vivo é o contrário de estar morto”, figura incontornável  da cultura portuguesa é um pouco como comparar a Serra da Estrela com o Kilimanjaro. Peca-se por excesso ou por desconhecimento. Que isto aconteça na Faculdade de Letras roça o surrealismo e espelha um país onde as humanidades (humaniquê?) e a literatura são uma chatice. Os Maias? Boring. O Lobo Antunes? Intragável. O Pedro Rosa Mendes? Um gajo difícil e que ainda por cima não gosta de Angola. O Aquilino? Muito barroco e gongórico ( isto pressupondo que se conhece o significado de barroco e gongórico).O Camilo? Um chato. O Saramago? É português? Mas o gajo não vivia nas Canárias? O Rui Zink? Tem um humor corrosivo. A Agustina? Uma feminista.

A propósito da Agustina, talvez a maior escritora portuguesa viva, há dois episódios deliciosos da sua vida, que ela própria confidenciou numa palestra, que ainda hoje me fazem sorrir. A história dos  taxistas de Lisboa que a levavam em grandes pela cidade, tomando-a por uma provinciana carregada de volumes de supostos mantimentos, pacotes que envolviam as letras em forma de livro que escrevia, e de como isso não a incomodava. Ou um episódio passado no Porto, em que um vendedor do Bulhão, após lhe ter apresentado um papel com a conta das mercadorias, e Agustina o ter questionado sobre a quantia em causa, lhe ter perguntado se sabia ler.

Isto anda tudo ligado, bem dizia o poeta Eduardo Guerra Carneiro.

Ao contrário de muitos que não penso que é o Google ou a crescente tecnologização que nos (salvo seja) torna  “stoopid”, mas uma causa bem mais corriqueira: a falta de leitura, de livros com muitas páginas , de autores difíceis , what ever that means,  de livros que obriguem a pensar  e que exijam concentração .

Os portugueses continuam tratar mal os livros. Se calhar trocaram-nos pela Bimby. Desculpem não resisti.

PS – A autora deste post  está consciente que não é de todo qualificada para escrever sobre figuras incontornáveis da cultura portuguesa, salienta no entanto que isso nunca impediu ninguém de o fazer  anteriormente.

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Isabel dos Santos, petrodólares e abutres

Isabel-dos-santos

A realidade não é a preto-e-branco. Certo. Mas em alguns momentos é tão previsível. Como esta notícia . Isabel dos Santos, a filha mais velha do presidente de Angola, tornou-se na primeira bilionária africana, segundo a revista norte-americana Forbes.

As ações de empresas cotadas em Portugal, caso do BPI e da ZON, juntamente com activos em Angola, “elevaram o valor líquido da fortuna da engenheira acima da fasquia de mil milhões de dólares, fazendo da empresária de 40 anos a primeira mulher bilionária africana”.

Formada em engenharia no King´s College de Londres, Isabel dos Santos abriu o seu primeiro negócio, em 1997 : um restaurante chamado “Miami Beach”, em Luanda.  Em menos de duas décadas tornou bilionária. E ainda dizem que não há coincidências.

Por uma dessas ironias da vida, esta notícia surge quando faz exactamente um ano que Pedro Rosa Mendes, o jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, saneado da RDP, por criticar  Angola.

Na altura escrevi que  as  palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo.

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza, é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Se isto não é obsceno, o que será?

 

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Princípios, guerra, pobreza: anotações à margem do Natal

1.O eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência.

Deixem-me fazer aqui um parêntesis para vos falar do F. Conheci-o no local onde costumo tomar café e ler o jornal. Cruzamos-nos muitas vezes, sem termos trocado palavras. É um velho que traz no rosto a geografia da vida e se esconde sempre por detrás de um livro. Um dia eu trazia comigo um livro sobre judeus alemães e ele pediu-me desculpa e perguntou “é judia”? Respondi-lhe que não, que estava a fazer uma investigação. Quis revelar-me um segredo.

No mais improvável lugar de todos para ter esta conversa, aquele alemão quase com noventa anos (nasceu em 1925), recuou dezenas de anos rumo ao passado. Esta conversa não vai ser fácil, apetecia-me providenciar o meu desaparecimento, mas decido ficar. F. contou-me que havia sido convocado para a Wehrmacht, já próximo do final da guerra, a família tinha sido fervorosamente pró-nazi na década de trinta. Ele vivia no terror de matar ou ser morto. Quando chegou a inevitável convocação resignou-se. “Não tive coragem de desertar, nem de resistir. Fui um cobarde”. Desceu ao Inferno. Disparou vezes sem conta, para não morrer teve de ser ele a matar, tiro à vista, o ódio no branco dos olhos. Quase morreu de frio. Memórias difíceis de serem ditas. Acabou prisioneiro de guerra na Rússia. Ensombra-se-lhe o olhar. Arrepio-me. Sinto-me gelada por dentro. Comove-me aquele velho, quebrado, que espera o impossível, que lhe perdoe, eu, interposta pessoa, em nome às vítimas de uma ideologia demente. Repugna-me o jovem nazi que foi. Um dilema terrível.

Disse-me que depois da guerra estudou Literatura, que as palavras de autores judeus, que demorou anos até conseguir ler, foram o passaporte para entender o seu crime, o crime, a ignomínia da Alemanha. ” O que é terrível procuramos a verdade é quando a encontramos”. “Há um limite. Não me perdoo não ter resistido. Não é verdade que tudo passe. Carreguei toda a vida a vergonha e o pesadelo. Estou quase a morrer. Os sobreviventes estão a desaparecer. Mas o horror, esse lugar que ninguém admitir existiu. Existe. Obrigada por me ter ouvido” .

F. levantou-se e deixou-me com a minha angústia em frente a uma chávena de cappucino frio.

Esta conversa sobre o território vasto do horror fez-me admirar ainda mais aqueles que tiveram a coragem de resistir, de contrariar o eterno destino dos princípios.

2. Este longo parêntesis serve de prelúdio para um ensaio, “Portugal, Finis Terrae”, publicado na Lettre International alemã, onde entre muitos outros aspectos se fala da relação entre Portugal e Angola.

“Angola é hoje Circus Maximus da nova exploração colonial num projecto de capitalismo de rapina sob a égide de um regime de origem e carácter estalinista”. Este binómio, Lisboa-Luanda, inverteu-se no entanto, numa espécie de vingança histórica. “Hoje são os filhos e os netos dos colonialistas portugueses que trabalham nos estaleiros, pedreiras e na construção civil como semi-escravos dos antigos “nativos” e “assimilados” da “Província Ultramarina” que era o orgulho de Salazar”. Sem Angola, escreve Pedro Rosa Mendes,”Portugal seria incapaz de sobreviver. O que coloca a questão, como nos anos setenta, da soberania, não de Angola, mas a nossa”.

“A nação portuguesa ( de nove séculos!!) confronta os seus mitos com a realidade da sua existência periférica e recicla na “lusofonia” o discurso do excepcionalismo português cozinhado a partir do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A pobreza enfim volta a ser condição normal do cidadão português médio. Resignação, rancor e inveja social – marcas ancestrais de uma população que poucas vezes teve a coragem de ser povo para mudar o seu destino – formam o código operativo de sobrevivência individual”.

Embora não concorde com tudo o que Pedro Rosa Mendes escreve neste ensaio, um retrato feroz do país onde o prestigio social do “Schein” (parecer) é muito mais forte do que o do “Sein” (ser), considero a sua leitura indispensável. “Há uma geração os portugueses viviam abaixo das suas possibilidades, o cidadão médio consumia um copo de leite por dia, um pedaço pequeno de carne por semana, três ovos por mês e um frango por ano”. O país não andará muito longe de regressar a este passado, muito por culpa dos cúmplices de Salazar: as nossas “elites” . “Exemplo mais grotesco? O ministro Miguel Relvas” ( e mais não traduzo, ide ler, ide).

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O Falcão e o Abutre

Fotografia de Veríssimo Dias

Há uma fábula antiga que se conta aos meninos guineenses para lhes ensinar a dureza da vida. É a estória do Abutre e do Falcão. Ambas as aves, esfomeadas, estão no alto de um poilão seco, aguardando por alimento que sabem que não existe. Das duas apenas umas sobreviverá, comendo a outra. “Vais comer-me”, diz o Falcão. “Jamais faria isso”, contrapõe o Abutre indignado, “nós não matamos para comer. Isso fazem vocês”. A dado momento o Falcão resolve, levantar voo, mas colide com outra árvore. Cai, morto, no chão. O abutre não é um pássaro ignorante.

 Lembrei-me deste conto ao pensar na situação que vive na Guiné-Bissau. Em 2001, numa extraordinária reportagem publicada no jornal Público, esse analista fino da realidade guineense que é Pedro Rosa Mendes, escrevia “hoje, na Guiné, há paz mas não há sossego. Há Governo mas não há Estado. Há Presidente mas não há mão. Há ambições mas não há escrúpulos. Há violência mas não há denúncia. Há armas mas não têm (só um) comandante. Há tensões mas não há controlo”.  Não mudaria uma linha.

Hoje na Guiné a mobilidade social continua a ser total, da Presidência e do Governo passa-se para a prisão, sendo o inverso também válido. Quem manda hoje, não mandará provavelmente amanhã. E no meio de toda esta loucura o Governo de transição para coisa nenhuma começa a preparar novas eleições para Maio de 2013, enquanto nas Nações Unidas o Governo de jure, apoiado pela diplomacia portuguesa – que se tem portado exemplarmente – exige o retorno à normalidade constitucional. O Falcão e o Abutre olham-se nos olhos.

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Filed under África, Guiné-Bissau

A crónica da polémica

“Em directo de Luanda, a RTP serviu nesta segunda-feira aos portugueses e ao mundo – eu vi aqui em Paris – uma emissão a que chamou ‘Reencontro’ e na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários e comentadores de Portugal  e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local.

O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão para tudo, mas o Reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti. Há até propaganda comestível, quando feita com inteligência, mas nem sequer essa bitola foi conseguida, foi permitida, à emissão. A nossa televisão, a televisão paga por todos e que, de certo modo, é um pouco de cada um de nós, afectiva mas também politicamente,  foi a Luanda socializar com os apparatchik do regime, nos quais deveríamos reencontrar uma Angola irmã, uma Angola feliz, uma Angola nova.

Aconteceu o contrário. Reencontrei nesta emissão a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz. Não no conteúdo, mas no tom, seguro, simpático, veladamente sobranceiro. Aquela gente –  as divas, os engravatados, os socialites – são. ao mesmo tempo, a couraça e as lantejoulas de uma clique produzida pela história recente de um país que combinou uma guerra de 30 anos e uma riqueza concentrada, basicamente, no petróleo.

Oleocracia, chamou-lhe a socióloga francesa Christine Messiant, falecida faz agora anos, e que identificou como ninguém a natureza do poder de José Eduardo dos Santos, do MPLA, da Grande Família e das suas clientelas. Em poucas linhas, a clique angolana, em torno do Presidente, privatizou o Estado, numa teia de clientes da ‘economia política’ angolana e num aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, as contas vitais da República, como a do petróleo, dos diamantes, do Banco Nacional e do Tesouro.

Os generais e barões da economia política fizeram ganhos astronómicos nas comissões dos contratos de armamento, do petróleo, da manutenção militar, por aí fora, e depois usaram esses recursos  em todos os negócios sensíveis, estratrégicos – as empresas de segurança, as companhias de aviação, os sectores das empresas públicas colocados em leasing, as companhias ligadas às forças armadas e à polícia. Um lucro incalculável e, o melhor, legal!

Como bem explicou Christine Messiant, o controlo da economia pelo topo do poder político (juntando as altas patentes e o politburo informal do Partido) usou e geriu a concorrência internacional, beneficiando a conivência, a colaboração ou a assistência de grupos estrangeiros na banca, no sector energético.

É esta, resumindo, a face verdadeira da nova Angola: o novo poder económico é apenas a nova máscara do velho poder político. Uma maquilhagem sofisticada mas óbvia, o bâton da ditadura, parafraseando o grande jornalista Rafael Marques.

Num reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências, teria havido por exemplo Rafael Marques, ou alguém que chamasse à corrupção, corrupçlão, e não, quase a medo, numa única pergunta, ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira.

Quem se encontra com a realidade de Angola, encontra a violência brutal nas Lundas diamantíferas, os despojos da guerra civil no tecido social e produtivo, a conflitualidade social latente entre quem tem o mundo e quem não é sequer dono da sua vida, ou a pobreza dos musseques de Luanda, que não desaparecem com o cair do cetim vermelho de um banco como na publicidade que embrulhou a emissão da RTP. Já agora, gostaria de ter reencontrado outros portugueses: os milhares que vão para Angola em fuga de um país sem esperança, o nosso, como se ia nos anos 50, e, como então, enfiados como semi-escravos e semi-reféns à mercê dos seus patrões – agora angolanos – num estaleiro, numa pedreira ou numa fazenda algures fora do alcance das visitas oficiais que chegam a Luanda.

Nesta emissão, enfim, Portugal confirmou que, como antes os nossos colonos, apenas temos a subserviência quando a situação não nos permite o abuso. É no que estamos. ‘Qual o objectivo do investimento angolano no estrangeiro?’, perguntava a jornalista. A resposta foi dada pela própria emissão: respeitabilidade. Luanda apenas compra aquilo que sabe que não tem.”

Pedro Rosa Mendes

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Filed under Angola

O Pedro

Disclaimer: O Pedro Rosa Mendes é meu amigo e um dos jornalistas que mais admiro em Portugal. Pela verticalidade, pela seriedade, pelo talento e maestria com que usa as palavras e sobretudo pela Independência.

Trocámos várias mensagens durante a emissão o “Reencontro” na RTP 1 e numa delas o Pedro disse-me “vou escrever uma crónica sobre isto. Nem que seja a última”.

As palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo. O jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, “saneado”. Se isto não é um escândalo, o que será?

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza ,é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Enquanto os políticos angolanos se continuarem a comportar como abutres e os petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” e os “mutilados” servidos pelo Natal a apelar à lágrima. Os angolanos merecem mais, muito mais que isto. Nós portugueses também. E pessoas com a coragem do Pedro merecem uma profunda vénia.

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Para lá da próxima fronteira

Entre 1998 e 2007, Pedro Rosa Mendes e o fotógrafo alemão Wolf Böwig estiveram nas frentes de guerra da África Ocidental. Libéria, Serra Leoa, Costa do Marfim e Guiné-Bissau. O trabalho de ambos – extraordinárias viagens ao fim dos homens, ao que resta de humano, se é que resta, num mundo habitado por homens sem pernas, sem braços, flagelados pelo ódio e onde a morte se cheira antes de se ver – publicado em meios de comunicação social de todo o mundo e seria nomeado, em 2007, para o Prémio Pulitzer.

 Como apresentar o incompreensível, o indizível e o imaginável através da palavra e da imagem? Como retratar a anulação do que se considera humano e restaurar alguma da dignidade das vítimas? Estas interrogações, a dor fantasma de repórter e fotógrafo, estiveram na génese do projecto Black.Light. Um projecto polifónico, palavra e imagem, que é o fresco de um continente, do desespero e do horror das guerras em lugares para lá da cerca de segurança ocidental.

O projecto terá duas componentes, um livro que reúne as reportagens de Pedro Rosa Mendes , ilustradas por 15 artistas internacionais,  e uma exposição em três continentes, com passagem pela Serra Leoa,  Alemanha, e Portugal.  A não perder. A ler e reler. A ver. Para trazer à luz os que morrem na sombra, para lhe dar uma réstia de dignidade.

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Parabéns Pedro

O romance “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” , do escritor e jornalista Pedro Rosa Mendes, ganhou o prémio PEN Clube na categoria de narrativa.

“ A ingratidão é um dos direitos humanos da indigência”. Este é um dos momentos/frases que mais me marcou na leitura de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” de Pedro Rosa Mendes. Afiada e dolorosa como uma lâmina esta frase reflecte muito do que se passa no hemisfério sul e particularmente no país/causa Timor Leste onde “memória não é passado”. Na altura escrevi  que“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”  se tratava de uma das obras belas e corajosas a ser publicadas em Portugal em 2010.

Fico muito feliz por ver a escrita crua, mas belíssima do Pedro ser premiada. Nunca mais me digam que os jornalistas não sabem “fazer literatura”.

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Filed under Timor

“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”

“ A ingratidão é um dos direitos humanos da indigência”. Este é um dos momentos/frases que mais me marcou na leitura de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” de Pedro Rosa Mendes. Afiada e dolorosa como uma lâmina esta frase reflecte muito do que se passa no hemisfério sul e particularmente no país/causa Timor Leste onde “memória não é passado”.

 A minha “relação” com este livro começou com um jantar em Díli, em Novembro de 2008, dias antes do artigo no Público sobre a falência do sonho timorense. Nessa altura já o Pedro Rosa Mendes estava em plena claustrofobia. À distância, numa outra ilha, a Islândia, o jornalista fez pause e o escritor recebeu um aviso de mobilização, criando um monumento de palavras que é crepúsculo e risco de luz. No Natal tive o privilégio de ter um capítulo de presente. Semanas mais tarde as provas finais, devoradas com um prazer de guloseimas. Prometi que só falaria sobre o livro quando o lançamento estivesse próximo. Está. Por isso aqui ficam as minhas impressões de leitura (numa adaptação de um texto escrito para a VISÃO de 06.05.2010 ).

O autor de “Baía dos Tigres”, está de volta com um romance exigente, denso, poético. Que fascina e apavora. E que foge do óbvio. Não é excessivo dizer que a “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” de Pedro Rosa Mendes se trata de uma das obras belas e corajosas a ser publicadas em Portugal este ano.

Se Timor Leste é o cenário, o cabo de onde se lançam as amarras, a “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” não é uma narrativa sobre Timor, senão sobre o arquipélago Malaio, porque não é possível compreender Timor sem se remeter para esse universo permeável à viagem. Em última instância, é um romance sobre Portugal.

Dalboekerk, indonésio, pai do herói do livro ( Alor) conspirador da corte em Jacarta e agente especial da Indonésia para Timor ao longo de 25 anos, comenta esta relação assim. “ Os povos timores têm uma avidez colectiva por alianças cósmicas que os absolvam da sua abjecta posição no fluir da história global. Portugal, no seu catolicismo atávico, feito regime e religião de Estado “Novo”, conseguiu convencê-los de uma conjugalidade primordial e necessária entre Timores e Portugueses, seus amigos e amantes. Pior: Portugal convenceu-se até da perenidade e excepcionalidade desta relação, comportando-se como se estas núpcias, concretizadas perante Deus valessem para eternidade. Mesmo para lá do fim, mesmo depois que a morte – com uma descolonização!- os separe. “Ai Timor””.

Uma das singularidades da “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” consiste em “universalizar” Timor Leste recorrendo a realidades simultâneas, vários tempos históricos, várias geografias e várias vozes. Num equilíbrio entre a distância emocional – Rosa Mendes nunca foi militante da “causa” timorense – e uma proximidade da qual resulta uma leitura profunda, por vezes cáustica da sociedade timorense. Quieta, viva de pedra, como os penedos do monte Matebian “por olharem demasiado tempo para o passado? Ou por não conseguirem pôr-se de acordo sobre o futuro?”.

A peregrinação para a qual o autor convida no título é tripla. É a do personagem principal, Alor, arquitecto em busca da casa tradicional timorense, lulic-país, e que acaba por se desencantar com a jovem nação, preferindo a morte à Pátria. “ No Meu País, todos os súbditos são reis e todos os servos são forros. Todos mandam e, acima dessa plebe de príncipes manda o que mais pode desobedecer, suserano no cume mais alto dos ódios pares. No Meu País, as mulheres assistem à preguiça dos homens. Os meninos aprendem o ócio dos pais. Os velhos esfingem a inutilidade dos avós. (…) No Meu País, apenas trabalha quem não pode cobrar. O pão e o amanhã são suor dos mortos. É assim que o meu país encara o futuro”. É a peregrinação do leitor – levado pela mão numa viagem onde não faltam a resistência e os seus mitos, a família Carrascalão, a violência que irrompe para propor uma ética, a intolerância da vítima, o catolicismo esvaziado de espiritualidade, o Bispo e o Comandante. E é a peregrinação do autor que sentiu a necessidade de olhar para Timor Leste como os olhos da geografia e da história. 

Na “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” temos Timor e Java, mas também temos Alemanha, Noruega, ocupações nazis e resistências, Shoah e Médio Oriente, Bíblia e Jugoslávia e uma pitada do Kosovo. É preciso acrescentar que as questões de fundo colocadas ao leitor pela “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” são morais. É essa a sua principal força e o que faz deste livro grande literatura.

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Filed under Alemanha, Timor

“Peregrinação de Enmanuel de Jhesus”

Tendo Timor como cenário, eis o novo livro de Pedro Rosa Mendes. Passagens de História, memórias políticas, cadernos da guerrilha, tratados breves de diplomacia, debates teológicos, cenas de artes marciais, cartografia antiga, observações de botânica, notas de geologia, ritos de sagração, sortes tauromáquicas, até um fado perdido (por Amália?) lá em «Outramar»: abundantes são os tesouros que nos acompanham nesta viagem. Uma vertigem de personagens desfilam e falam a várias vozes.

Sai a 15 de Maio.

E agora morram de inveja: Já li o livro ! Quando acabar o “embargo” escrevo aqui sobre ele.

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Filed under literatura, Timor

O português do emigrante é um local de encontro

Uma crónica excelente de Pedro Rosa Mendes na LUSA

Onde fica a “curra da Rosa”, chamariz da vizinhança? E o que é “deitar um cu do olho”? Ou, ainda, o que é “despejar a pubela”? Estas, e centenas, mesmo milhares de outras palavras pertencem a uma língua que não existe mas que, “élá!”, é falada diariamente na segunda maior cidade portuguesa depois de Lisboa: Paris.  caso para perguntar, na mesma língua que não é nem português nem francês: “Ah-bom?!?” Maria João Lehning, escritora portuguesa radicada em França há 22 anos, interessou-se pelas derivações e invenções da linguagem dos emigrantes portugueses, um estudo que ela aplicou nos seus três romances.  ” Uma língua inventada pela emigração portuguesa em França e é preciso saber as duas línguas para a conseguir entender”, explicou a autora à Agência Lusa em Paris. “Nem sempre é fácil perceber, tirando aquelas mais fáceis, como ir emvacanças (‘vacances’, férias) a Portugal ou montar as escalieras (‘monter les escaliers’, subir as escadas), exemplifica Maria João Lehning. 

 O champanhe com tremoços servido pelo português Abílio em “D’Acordo”, no último romance de Maria João Lehning, é o resumo e metáfora desta língua nova.  “Aprendi muito com a Albertina, uma empregada portuguesa que eu tiveaqui em Paris”, diz Maria João Lehning. Formulações como “você foi lá-bá (‘lá-bas’, lá, além)”, tanto como a interjeição “ah-bom?”, que repete uma exclamação recorrente dos franceses, agarram-se desde o início aos portugueses que chegam a França”, esclarece. Muitas vezes, a apropriação de uma palavra resulta num sentido exatamente oposto ao do original francês. “Dizem-lhe, por exemplo, ‘O meu filho está lá em baixo a treinar, a treinar, a treinar (‘traîner’, arrastar-se, não fazer nada). Pensa-se que o filho está ativo, mas é o contrário”, explica Maria João Lehning.  ” Inacreditável e, por vezes, resulta num ridículo impossível”. No entanto, a autora reconhece que esta língua “porto-francesa” “reflete imenso uma crise de identidade”.  “A invenção de uma língua deriva de um choque entre identidade e alteridade.O português gostava de ser o ‘outro’ – de ser francês. A vontade de não ser português vem de terem vergonha, como basicamente se sente ainda na nossa emigração mais antiga. A nova é mais rica culturalmente, porque hoje há quadros que fogem de Portugal”, diz a autora.   “Nesse sentido, falar francês, mesmo inventado, é uma forma de promoçãosocial. Os emigrantes portugueses estão sempre a dizer mal dos franceses mas gostavam de ser como eles”, acrescenta.  A autora de “Travessa de Memória” e “D’Acordo”, e de um inédito ainda por publicar, acusa, entretanto, a “atitude de ‘snobeira’ e desprezo” dos portugueses em Portugal e o “chauvinismo da maioria dos franceses” em relação aos emigrantes portugueses em França.  “Tudo o que cheira a emigração, cheira a pobreza. Cheira a ridículo.como se Portugal quisesse esconder as suas traseiras, as traseiras do prédio. A emigração é o retrato da pobreza do país e do seu analfabetismo”, conclui.   Afinal, o português de emigrante é um local de encontro, quase tão físico como a “curra da Rosa” do romance de Maria João Lehning.  A “curra” é o pátio, “la cour”. O sítio comum onde emigrantes e nacionais podem mutuamente “deitar-se um cu de olho”, perdão, uma olhada (“coup d’oeuil”).

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