Tag Archives: mulheres

Maputo by night

É já noite no Índico. A temperatura desceu um pouco. Estou sentada no Jacarandá, num jantar leve, bem-disposto. As palavras são como a castanha de caju, é só começar. Tocam levemente a política e os interesses portugueses em Moçambique, as desavenças no PS e daí resvalam para magnificência da vida selvagem. A política não dista muito desta última. Digamos assim: tanto numa como noutra cada gazela tem o seu leão. A conversa acaba, se saber bem como, na questão de género. O jpt, antropólogo de verve elegante e ferina, diz a dada a altura “que o trabalho de campo o fez tornar-se um feminista”. Acabamos a desfiar a cartografia das angústias e dos nossos demónios.

Basta passar os olhos pela imprensa dos últimos dias e indignamo-nos com a “Catarina”, adolescente portuguesa (abusada duplamente pelos perpetradores e pelos que se tornaram silenciosamente cúmplices), invade-nos nos um frio glaciar ao ler que uma adolescente malaia, de 12 anos foi violada por mais de trinta homens, ou que duas meninas na Índia foram assassinadas depois do suplício de uma violação múltipla. A história repete-se, dia após dia, após dia,com outras personagens, numa interminável e cruel espiral.

Debruçar-se sobre na varanda do abuso e da violência sobre a mulher é aventurar-se a descobrir quanto sofrimento o coração humano consegue afinal suportar, quando e se consegue. Este mundo misógino onde a mulher é um mero objecto, uma vagina disponível para a cópula quando um macho quer, não nos devia indignar e fazer passar à notícia seguinte, mas enfurecer. Estas meninas, estas mulheres precisam que se fale delas. As palavras que as nomeiam, as histórias que as contam, modelam-lhe a verdadeira existência. Porque o destino de ser mulher não é esquecer-se de ser. A contemporaneidade exterior, conquistada via Facebook ou Twitter teima em demorar a chegar às mentalidades. Até lá o feminismo, “essa maçada”, continua actual.

PS – Num curso que fiz no Bundeswehr para me preparar para zonas de guerra ou conflito coloquei ao major responsável pelo mesmo a questão: “o que fazer no caso uma violação ?”. A resposta ficou-me gravada a ferro : “fique quieta e aproveite”.

2 Comentários

Filed under Coisas do Mundo

Expediente estafado ?

De cada vez que me dedico a essa arreliadora tarefa que é celebrar o dia da Mulher tropeço numa singularidade. Um grande número de mulheres têm todas as habilitações necessárias, excepto uma: não é um homem.

A todas as grandes mulheres (e a alguns homens que têm um livre-trânsito no sentir feminino, sem perderem um grama de virilidade) que se cruzaram na minha vida um beijo terno.

Não, este dia não é um expediente estafado. Infelizmente para tantas de nós.

PS- A Domadora está em Maputo, o trabalho e o Verão africano ( tenho a sensação que estou no Inferno) não tem permitido a escrita. Prometo redimir-me.

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo, direitos humanos, Maputo

It’s a woman’s world…

 

A ironia é a Tarte Tatin do cérebro: uma sobremesa sedutora e inesquecível. Ou conseguem imaginar algo mais tentador e aconchegante do que maçãs caramelizadas numa cama de massa crocante? A alma da tarte Tatin é a desafectação, a simplicidade e a autenticidade que põe a um canto a cozinha molecular.

Desafectado e irónico  é também “ Majorité Opprimée”  o filme da francesa actriz e realizadora Eleonoré Pourriat.

Trata-se de uma curta-metragem de 2010 que se tornou viral no Youtube. E ainda bem. “ Majorité Opprimée”   é um filme sobre mulheres embora a personagem principal seja Pierre, um homem vulgar, num dia vulgar, numa cidade francesa vulgar. Mas algo é diferente no mundo de Pierre. Usando um recurso simples, a troca de papéis, e uma dose de ironia, Pourriat  traça em poucos minutos um retrato perturbador  do assédio, maus tratos e discriminação a que as mulheres vulgares, em dias vulgares, numa cidade francesa  vulgar ( podia ser quase qualquer outra cidade desta Europa) estão submetidas. Um filme que recomendo a mulheres e a homens porque é de seres humanos que fala. De seres humanos com o direito a corpos e direitos intactos, algo absolutamente evidente e ainda tão longínquo.

Deixe o seu comentário

Filed under direitos humanos, Mulheres

Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

Não é fácil tocar-lhe no verdadeiro rosto. É uma cortesã envelhecida, feita de contrassensos. Deslumbrante e amarga.
Maputo é uma mulher suspensa a quem cabe a resignação de esperar, sem saber por que e pelo que se espera. Qual a vida que se imagina quando as esperanças se desvanecem a cada manhã?Maputo não se percorre com o à-vontade de cidades africanas como Bissau. Há aqui uma violência epidérmica que vem de longe e se torna cada vez mais visível.
Na coreografia da cidade o espaço é fatiado entre o cimento, onde uma flat pode atingir 4,5,6 mil dólares, e a chapa ondulada, metálica, cortante, feita de silêncio e de uma vida nas sobras do urbano.

A revolta popular de Setembro de 2010 e os seus mortos revelaram as assimetrias de um país em que mais de 90 por cento da população vive com menos de dois dólares por dia. Dolorosas a estatísticas mostram que de metade dos habitantes de Maputo é pobre. Leia-se miserável. Sem água, electricidade e a certeza de uma refeição. A infalível upswa (xima) e o “se não fosses tu” (repolho) não são, para demasiados, mera memória distante da guerra civil. É neste caldo que fervilha a próxima revolta. O sismógrafo regista os primeiros abalos.

Cansada de uma semana na capital quis conhecer a outra margem, a que via diariamente da esplanada do Hotel Cardoso. Já na época colonial a Catembe era margem, geográfica e metafórica, de Lourenço Marques. Vila piscatória e de feiticeiros, inspiração do filme mais censurado na história do cinema português (“Catembe”de Faria de Almeida, documentário ficcionado que é um dos primeiros olhares disruptivos sobre o colonialismo português). Embarquei com a A. (que desafiei a acompanhar-me) no Bagamoyo, batelão que desafia a lei da resistência dos materiais, ou que a testa a cada travessia da baía. Esmagadora a vista panorâmica da cidade. Rasgada por gruas amarelas e pela promessa de progresso em forma de prédios de muitos andares.
À chegada a Catembe, pés descalços, trouxas à cabeça, pó, pilhas de fruta na berma. Caos colorido e previsível. Negociamos um chapa. 250 meticais pelo luxo único de um banco sem suspensão numa picada de terra batida. Ruínas, machamba, gado. O restaurante Marisol, lendário como a própria Catembe, não desilude. Conta-se que o próprio Samora Machel terá almoçado lá a caminho do exílio. Há várias Catembes dentro da Catembe.

Maputo vista da Catembe parece uma recompensa. Quotidiano agreste, violento, nos limites? Tomai-lá a Praia dos Amores e Maputo na outra margem. Brindámos à vida e à amizade com uma Laurentina, a mais premiada das cervejas moçambicanas, que um mestre cervejeiro alemão criou por encomenda de um empresário grego, George Cretikos.

Levanta-se vento, na baía as águas encrespam-se, encapela-se a picada em ondas vermelhas de poeira e areia. Impõe-se o regresso. O nosso e o dos muitos que aproveitaram o fim de semana prolongado para atravessar para a Catembe. O batelão enche, enche, enche, enche. Sobre nós não planam abutres como na Amazónia, mas poderiam. O batelão arranca, estamos molhadas até aos ossos, num navio tão cheio, o fio de segurança que resta é seguramos-nos na beirada. Batelão bate contra o cais, boooomm, volta a embater, numa trovoada metálica assustadora.”As cordas, as cordas”, grita-se. Nenhum marinheiro tinha solto as amarras, os motores puxavam em força bruta num desafio de titãs. Soltas as amarras começa não a liberdade, mas o pesadelo. Duas mulheres brancas, a cor da pele é neste contexto importante, vivem a sua própria solidão. Um bêbado assedia a A. agarra-a pela cintura, passa-lhe as mãos nas nádegas, um louco passa-me as mãos pelo cabelo, uma e outra e outra vez, pousa a mão pesada, quase uma garra, nos ombros. Consigo libertar-me e ele parece desistir. A A. tem menos sorte, o abuso prossegue. Ao nosso redor grupos de homens e mulheres observam o espectáculo, saboreiam o nosso medo com um esgar de desdém. Putas brancas lia-se nos olhos duros.
Além do P. mais ninguém parecia estar a ver. “Estão a ser incomodadas? Ponham-se atrás de mim”. Enfrentou a turbe. “Eu tenho a minha identidade no bolso e não quero que os estrangeiros pensem que os moçambicanos são todos assim”. Punhos e uma vozoeiria ergueram-se. Boommm. Atracámos em Maputo. “Sou pastor da Igreja do Nazareno”, diz, “já não é a primeira vez que dou um soco aqui. Ainda no domingo passado alguém agarrou a Mamã [a mulher] pelos seios. Era o que faltava meterem-se com propriedade minha”.

7 Comentários

Filed under África, Maputo, Mulheres

As mulheres e as leis

A princípio não sabia se havia de me exasperar ou de ignorar. Mas lembrei-me delas, das mulheres que dormem com o medo ao seu lado na cama, e que dormem com o sono do pesadelo.
Há uns anos entrevistei uma mulher que foi violada repetidamente por vários militares. Raras vezes as vítimas de violação têm a coragem de falar do seu martírio. Querem esquecer. A F. contou-me detalhadamente como a atiram para o chão, lhe rasgaram a roupa e um após outro se serviram dela. Uma e outra e outra vez. Sentiu o abraço da humilhação, uma dor mais lancinante do que o sangue que lhe escorria entre as pernas.Contou-me, e muito ficou dito nos espaços entre uma e outra palavra, que se sentiu impura, um pedaço de lixo. Confiou-me as suas lágrimas e eu estremeci de raiva,de impotência e chorei com ela.
Quando li hoje pela manhã no El Pais que um deputado conservador espanhol afirmou publicamente que as ” as leis são como as mulheres, existem para ser violadas” voltei a estremecer de raiva. Ainda pensei ignorar a boçalidade, a perfídia do comentário, mas ele espelha o que vai na cabecinha de alguns machos ibéricos e ignorá-lo seria ser conivente e cúmplice com o achincalhar , com a redução da mulher a uma vagina.
Que comentários como este façam ainda parte do quotidiano da civilização ocidental no século XXI é miserável. Face a isto o feminismo esta longe de estar fora de moda.

Ps- A história da F.

3 Comentários

Filed under Mulheres

A união faz a força ? Digam isso às mulheres…

Em a Insustentável Leveza do Ser Milan Kundera escreveu que o abismo maior é o da cama de casal, entre dois corpos, o da mulher e do marido. Talvez.

Tenho para mim que os maiores abismos e as traições mais obscenas nas relações humanas são entre mulheres. Entre as leoas solitárias que não dão direito de permissão a outras fêmeas na mesma savana, para gáudio dos leões a quem é sempre reservado o direito da primeira dentada na gazela.  As mulheres são avarentas de espaço.

Foram elas que inventaram o mito da “supermulher”, da “supermãe”, da “superamante” (lembro-me vagamente da letra de uma música trash que dizia o sonho de um homem era uma lady à mesa e, pardon my french,uma puta na cama…). São as mulheres (algumas) que passam dias a contar calorias, a sofrer as torturas do ginásio, a ficar de mau humor porque na Zara se esgotou aquela saia dourada – que se não fosse vista pelas lentes dos óculos trendy poderia ser apenas um acessório da mais velha profissão do mundo…– ou porque o corpo vai obedecendo à lei da gravidade. E são elas as piores inimigas das outras mulheres, em particular daquelas que não querem prolongar com cirurgias e artifícios a juventude ou as que resistem a ser magras como cães vadios. Como se uma mulher gorda não pudesse ser bela. Ou fosse menos mulher. Ou como se uma mulher feia não tivesse os seus atractivos. Ou como se a vida de uma mulher se resumisse à eterna procura do homem perdido.

 O pior de todos os abandonos, aquele que as mulheres sofrem em silêncio e que não consta em carta alguma de direitos civis, é o das outras mulheres.

Desculpem a divagação anterior, mas isto tudo veio a propósito de um estudo de duas universidades israelitas (Ben Gurion e Ariel), divulgado pela Der Spiegel, onde se recomenda às mulheres para não enviarem fotografias nas candidaturas. Porquê? Simples: os departamentos de recursos humanos são maioritariamente femininos e mulheres atraentes (além de inteligentes e bem qualificadas) são vistas como uma ameaça, logo excluídas do processo de selecção.

1 Comentário

Filed under Mulheres

Nunde ña diritu

Fotografia ca Casa dos Direitos/ ACEP

Não há como uma boa notícia para encher de sol os dias pardos.

Em pleno centro de Bissau, como um rasgão azul na paisagem urbana, naquela que foi a Primeira Esquadra, a mais antiga esquadra do país, abre hoje as portas a Casa dos Direitos da Guiné-Bissau. Espaço que funcionará como um centro de documentação, de formação, de debate  e de trabalho para a Liga Guineense de Direitos Humanos e outras organizações.

A ideia é criar um espaço de referência, uma instância de diálogo. Haverá um programa anual com acções abertas ao púbico em geral : uma exposição fotográfica, uma publicação em formato papel, um produto multimédia edebates. Neste primeiro ano, o tema é a mulher.

Além da cerimónia formal de abertura, presidida pelo Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau, Carlos Gomes Júnior, inaugura-se  hoje  também a exposição fotográfica “Mulheres da Guiné-Bissau” que reúne trabalhos de cerca de duas dezenas de fotógrafos profissionais e amadores de diversas nacionalidades e faz-se o lançamento do livro “Desafios – Direitos das Mulheres na Guiné-Bissau”, que reúne um conjunto de histórias recolhidas pela jornalista Ana Cristina Pereira, além de um texto de análise do contexto, da autoria do coordenador da Casa, Nelson Constantino Lopes, e ainda de uma série de documentários realizados pela televisão comunitária TV Klelé (Guiné-Bissau).

1 Comentário

Filed under Bissau, Mulheres

Um estudo que fazia falta

Porque me falta em vagar o que me sobra em vontade de escrever aqui no blog e porque ainda tenho um artigo para acabar sobre a cimeira de Bruxelas, vou dedicar breves linhas a um estudo feito na Grã-Bretanha.  O dito cujo veio confirmar algo que há muito suspeitava: as mulheres estacionam melhor que os homens.

Concede-se: os senhores da criação demoram em média menos cinco segundos do que elas para estacionar, mas elas colocam a viatura obedecendo ao cânone, centrada e direita. Mesmo que a viatura em questão seja grande. Ordnung muss sein.

Acho que o vou imprimir e ter à mão just in case.

2 Comentários

Filed under Coisas do Mundo

Cabul aqui ao lado

Lembrar é, cada vez mais não recordar apenas uma história, mas ser capaz de recordar uma imagem. Momento embalsamado que nos persegue. Que se fixa na retina. Coleccionei algumas imagens assim, que nunca me deixam.

Agora que Cabul se vai mudar para Bona, para aqui bem ao lado da rádio, a pretexto da Conferência sobre o Afeganistão, passam-me pelo cinema da mente imagens de Herat, de Kandahar, de Cabul. Locais que nunca visitei e onde provavelmente nunca irei. Sobretudo fotografias de mulheres, de meninas, de vidas na berma da estrada para coisa nenhuma. O que fazer com o sofrimento distante? E se o mal for realmente imparável?

“Na medida em que nos sentimos solidários, sentimos que não somos cúmplices das causas do sofrimento. A nossa solidariedade proclama a nossa inocência, assim como a nossa impotência”. As palavras são de Susan Sontag e apetece-me querelar com elas. Concedo que a particular acusação de algumas imagens acaba por se diluir, sobretudo em profissões cínicas como a minha, e a que comoção é demasiadas vezes passageira. Lágrima quente que escorre e se evapora, sem se tornar sal.

Só que essas imagens terríveis de meninas-mulheres atacadas com ácido, amputadas, batidas, condenadas à prisão móvel da burqa, não pessoas mas volumes, obcecam-me. Elas são eu e eu sou elas. Não tenho o direito de lhes virar a cara. Nem a fazer zapping mental. No Afeganistão uma vida tem valido pouco, a das mulheres ainda menos.

Deixe o seu comentário

Filed under Alemanha, Mulheres

Machos

Quando as mãos deixam de circunavegar o corpo. Quando a paixão se desbota e se reedita a existência, as lágrimas lavam a poeira dos olhos, mas haverá cílios que apaguem as poeiras do coração, que amachuquem o silêncio, que contestem a secreta desistência de si? “A gente fere a terra para semear, a gente magoa para amar?”

 Demasiados pensam que não é macho quem não usa uma mulher como um trapo em que se limpam as mãos.  

 Uma em cada três mulheres já foi espancada, coagida sexualmente, ou vítima de algum tipo de abuso; e uma em cada quatro mulheres na Europa está exposta a um destes tipos de violência. Em Portugal, só em 2010, foram assassinadas 43 mulheres por violência  doméstica e de género. A violência parte, maioritariamente, de homens (maridos, ex-maridos, companheiros, ex-companheiros namorados, ex-namorados).

Observatório de Mulheres Assassinadas, 2010

Madrid, 16 nov (Lusa) — Um milhão e meio de mulheres em Espanha foi pelo menos uma vez vítima de violência machista e cerca de 400.000 sofrem atualmente maus tratos, segundo fontes do Observatório contra a Violência Doméstica e de Género. 

Deixe o seu comentário

Filed under Mulheres

O meu livro de cabeceira

20110705-234551.jpg

Deixe o seu comentário

Filed under África, literatura

Boas notícias da Guiné-Bissau

O Presidente da Guiné-Bissau, Malam Bacai Sanhá, inaugurou hoje em Farim, norte do país, o primeiro banco de crédito que vai apostar na promoção dos camponeses, sobretudo as mulheres guineenses na luta contra a pobreza. O banco, localmente designado caixa de crédito e poupança agrícola, é constituído por capitais senegaleses e vai ser instalado em todas as regiões da Guiné-Bissau, sendo que Farim, no norte, foi a primeira zona a receber a instituição. A seguir a Farim, localidade situada a escassos 35 quilómetros do Senegal, Bissau e Gabu são as regiões onde o banco designado será instalado.

in Lusa

Deixe o seu comentário

Filed under Guiné-Bissau

Quotas para mulheres? Ainda é preciso perguntar?

Passou uma década e nada aconteceu. Rigorosamente nada. O acordo voluntário para aumentar a representação de mulheres no topo das empresas entre o então governo alemão, o tal da geração de 68, e o empresariado foi, se quisermos ser benévolos, homeopático. Apenas 2,2 por cento dos actuais gestores de topo na Alemanha são do sexo feminino. E isto porquê? Há múltiplas razões, mas a principal causa continua a ser a impossibilidade das mulheres (e mães) conciliarem a família com a carreira profissional.

A tão apregoada igualdade não é uma prática a nível salarial, a representação política das mulheres é muito diminuta – apesar das cinco ministras no gabinete da chanceler Angela Merkel – e a representação no topo das empresas é quase inexistente. Até no próprio farol da esquerda progressista, a Der Spiegel, se está longe da igualdade: existem 32 homens a chefiar secções contra apenas duas mulheres e há mais jornalistas homossexuais do que mulheres.

Face a este triste cenário o Governo está a planear seguir o exemplo norueguês (e francês) e introduzir quotas para mulheres nas empresas. esmo que a algumas incomode a pedra no sapato feminista ( e o atestado de falhanço de algumas correntes feministas alemãs)  sem lei, na Alemanha, a terra do “Ordnung muss sein não vamos lá”, não vamos lá. Quotas? Evidentemente que sim e não é preciso explicar porquê.

PS-

Nota breve: Nas legislativas passadas, passei a noite eleitoral, em Berlim, na sede da CDU, o partido democrata-cristão da senhora Merkel. Entre as muitas conversas que registei na memória há uma impagável. Falava eu com um autarca acerca de política para mulheres e o senhor muito simpático disse: “ nós (na sua autarquia) fizemos muito pelas mulheres”. Respondi “Ah sim, pode concretizar?”. “ Nós duplicámos o número de parques de estacionamento para mulheres”. Acho que fiquei com o maxilar deslocado até hoje por ter aberto tanto a boca…

Deixe o seu comentário

Filed under Alemanha, Mulheres

O Sudão não é um país para mulheres

Neste exacto minuto há uma mulher a ser espancada. Sob as costas, o rosto, as mãos, descem as chicotadas da moral e da humilhação. O chicote desce por ano mais de meio milhão de vezes. O Sudão, o país que proibiu a música e a poesia,  é um dos países mais instáveis do mundo e mais perigosos. Principalmente para mulheres. O presidente sudanês Omar al-Bashir, esse homem de “coragem” segundo as Nações Unidas,  anunciou uma revisão constitucional em caso de secessão do Sul do Sudão. A lei islâmica tornar-se-ia desta forma, no Norte,  a única fonte de direito e o árabe a única língua oficial.

O exemplo da humilhação humilha. Veja-se o vídeo (alerta prévio: é chocante).

4 Comentários

Filed under África, direitos humanos, Sudão

Lad’s mags

 À porta de uma filial do Tesco, no coração de Londres, apesar do ar gélido matinal, um grupo de mulheres em chinelos, vestidas com pijama ou camisa de dormir protesta. Todas elas são activistas da Object e estão  aqui numa acção da campanha Pornografia versus Pijamas. Mal o Tesco abre portas dirigem-se ao seu alvo: os expositores de revistas. A FHM é coberta com um saco de papel onde está escrito “ For Horrible Misogynists”, enquanto a Maxim é escondida sob o slogan “ MAXIMum Sexism”.

Apesar do código de conduta lojas e supermercados britânicos tem-se esquivado a colocar as “Lad’s Mags” nas prateleiras superiores. A comunicália é deixada com displicência nas prateleiras inferiores, numa promiscuidade doentia com os jornais, ao alcance de qualquer olhar mais desatento.

Não é uma questão de puritanismo, porém a comunicália (o neologismo, creio ser da Clara Ferreira Alves, refere-se à imprensa que se ocupa com devassas, inconfidências, genitálias, operações às maminhas e afins) enoja-me e inquieta-me. O voyeurismo e o marketing aliam-se para coisificar a mulher. E pior ainda, a mensagem subliminar das “Lad’s Mags” não é apenas o corpo feminino como “coisa”, mas como “coisa” vendável. Da misógenia , da banalização da pornografia ao abuso vai o nada.

Na semana passada o semanário “Stern”, num tema de capa, sobre pornografia e o perigo das redes sociais para crianças e jovens, constatava com candura que o consumo de pornografia na internet é em larga escala e que os predadores não têm “tarado”escrito na testa, mas que são pais de família, médicos, polícias, professores e até juízes. Quando o verniz civilizacional abre brechas então todos se espantam com a perversidade humana.

 Há uma diferença entre a “estória” da ascensão sem queda da “Pretty Woman” (sim esse filme em que Júlia Roberts sai da rua para a banheira do Richard Giro), e as vidas dos meninos e meninas abusadas, das mulheres e homens exploradas sexualmente ou vítimas de violência sexual. As existências tuteladas pelo medo não têm lugar nas folhas de papel lustrado.

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo, direitos humanos

Relativismos

Bijagós

Nas sociedades confortáveis o inferno são sempre os outros e dos outros. Podemos escrever milhares de caracteres sobre vítimas e torcionários, e continuaremos a não perceber de que falamos quando falamos de mutilação genital.

Se houvesse uma estatística do sofrimento, a escala seria determinada pela nossa identificação com esse sofrimento. A gravidade das tragédias formata-se nos ecrãs da televisão, do computador ou dos smartphone. E mostrar uma genitália barbaramente amputada, coberta de sangue, “não vende” como se diz na gíria jornalística. Nós, os não expostos à violência extrema, vivendo num mundo de previsibilidades e colchões, desembaraçamo-nos do problema: isso é coisa deles, os “selvagens”, os “bárbaros”.

 Por aqui se percebe que na Guiné-Bissau, perante a indiferença (quase) geral, metade das mulheres e meninas continuem a ser expostas ao fanado ou que em Moçambique os órgãos sexuais de meninos sejam decepados, por um punhado de euros, para serem usados em práticas de feitiçaria. Eles vivem “lá”, um lugar remoto de desespero e passividade, um lugar irreal para nós “civilizados”.

 Só que não nos damos conta que essa barbárie “deles” ainda acontece aqui, na nossa fortaleza Europa, em nome de um preceito vago de pureza (ou impureza)  e aconteceu, aqui ao lado, em Itália durante quatrocentos anos. Se gosta das árias de Handel, sabe do que estou a falar. É a música tecnicamente mais difícil para a voz humana.Algumas das árias mais tristes de toda a literatura vocal são as  dos castrati. São árias duma mágoa infinda. Interpretadas por vozes de anjos de caídos. Escritas para os  milhares de meninos castrados aos 6,7, 8 anos. Um crime que aconteceu aqui, na nossa Europa, até ao início do século XX,   em nome da “Arte” (sacra)  e para o divertimento de muitos.

Os castrados surgiram no século XVI, quando o Papa Sisto V aprovou, em bula papal de 1589, o recrutamento de castrati  para o coro da Igreja de São Pedro, em Roma. As castrações eram feitas  geralmente em rapazes pobres, órfãos ou abandonados, sem a protecção familiar. Nápoles era a capital dos castrados – era em instituições ligadas à Igreja que se educavam os castrati. À porta das barbearias locais eram comuns os letreiros: “Qui si castrano ragazzi a buon mercato!” (aqui castram-se rapazes a bom preço).  Desses milhares de  jovens que anualmente eram mutilados ficaram as glórias de Farinelli, Cafarelli e Sanesino.

Faz agora um ano que a mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli  apresentou um CD  que é uma homenagem aos  castrati, um álbum virtuoso cujo  nome não podia ser mais adequado  Sacrificium.

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo, direitos humanos, Guiné-Bissau, Jornalismo

As notícias têm sexo?

Dois rabos apenas? Ou a princesa das Asturias e a primeira dama francesa? A foto foi capa do El Pais.

“Há jornalismo no masculino ou no feminino? Por que continuam as redacções a ser dirigidas por homens quando as mulheres estão em maioria? A liderança determina o estilo e o conteúdo das notícias e previne a difusão de estereótipos de género? A ditadura da imagem impõe-se sobretudo às mulheres? As questões não são novas mas o debate continua a despertar paixões e a não trazer respostas.”

 Vale a pena ler o artigo publicado na Jornalismo& Jornalistas

2 Comentários

Filed under Jornalismo

A capa da Time


A imagem de capa da Time desta semana é poderosa e perturbante. É um espelho da realidade das que tiveram a desventura de nascer do lado errado da vida. Como Aisha. OsTaliban bateram-lhe à porta pouco antes da meia-noite, exigindo que Aisha, 18 anos, fosse punida por fugir do seu marido. O marido tratava-a como uma escrava, batia-lhe. Se não tivesse fugido teria morrido. O seu juiz, um comandante local dos  Taliban, não se comoveu. O cunhado e o marido puxaram de uma faca. Primeiro cortaram-lhe as orelhas. Depois parte do nariz. Isto não aconteceu há dez anos quando os Taliban governavam o Afeganistão. Acoteceu no ano passado. Agora escondida num abrigo secreto para mulheres Aisha escuta obsessivamente as notícias.A ideia de um acordo entre o governo e os Taliban assusta-a. ” Foram eles que me fizeram isto. Como é possível reconciliarmo-nos com eles?”

Num momento em que se discute a “reconciliação”  vale  muito, muito a pena ler a Time.

1 Comentário

Filed under direitos humanos

Babypause na Alemanha

Claudia Schiffer e Boris Becker são excepções. As figuras públicas alemãs celebram as alegrias da maternidade e paternidade nas páginas da imprensa cor-de-rosa. Quem  folhear este mundo de quimeras baratas pode ficar com a impressão que as crianças estão in e são bem-vindas. Nada mais errado. A taxa de natalidade na Alemanha continua a cair  mostraram hoje as estatísticas. Em 2009 nasceram menos 24 mil crianças, uma queda de 3,6 por cento em relação a 2008. E a Alemanha já  é um dos países da União Europeia com uma das mais baixas taxas de natalidade. As estatísticas indicam ainda que 40 por cento das mulheres com um curso superior optam por não ter filhos.

Economistas, sociólogos, psicólogos procuram uma explicação para esta greve de barrigas e as conclusões são  díspares. Coincidem no entanto em dois pontos: a falta de infra-estruturas para acolher crianças com menos de 3 anos e o enorme encargo financeiro que as crianças representam para as famílias. Comecemos por este último. De acordo com um estudo publicado pelo semanário Focus criar uma criança na Alemanha até à sua maioridade custa 120 mil euros por filho. Muito dinheiro numa época hedonista, contudo longe de ser a única explicação.

A falta de infantários e creches  é outra peça do puzzle. Num país onde conseguir  um lugar para uma criança com menos de 3 anos é o mesmo que acertar na lotaria  ( só há lugares para 3 por cento dos meninos e meninas) as mulheres-trabalhadoras-mães são obrigadas a ficar em casa. A pensar que talvez daí a três anos exista um mundo para além das fraldas, do fogão e  das fundamentalistas super-mães- super-taxistas- super-vassalas. Não haverá país na Europa onde haja um fosso ideológico  mais cavado entre mães trabalhadoras, as Rabenmuttern - a palavra carreira quando faz par com mulher é na Alemanha pejorativa  - e as mães a tempo inteiro ( como se a outras não o fossem). Passada a primeira infância  vem a escola primária que de uma forma geral fecha entre as 11.30 e 12.00. Quando há ocupação de tempos livres  esta é paga  a peso de ouro, encerrando religiosamente às 16.30.

Pior do que tudo isto é no entanto a Kinderfeindlichkeit, a aversão às crianças. Certos alemães nascem e morrem sem nunca terem sido crianças.  Detestam a capacidade de deslumbramento das crianças, o barulho que elas fazem, as perguntas que colocam, simplesmente o facto de serem crianças. Neste país ainda há lojas onde os miúdos são indesejados (mas os cães não), cafés só para adultos ( e cães ) e relvados onde é proibido brincar.

Diz-se que a Alemanha é um país, mas na verdade são dois. Um é um mundo sem manchas nem desarrumações, um mundo intolerante , onde a cor da infância não brilha.  Um mundo autoconvencido da sua superioridade e onde as crianças são incómodo, uma chatice . Um mundo onde a mulher é posta entre a espada e a parede: ou filhos ou profissão. Outro país é o do desalinho e dos legos espalhados pela sala, do barulho do riso e dos beijinhos.Mas,  também neste mundo a  mulher é posta entre a espada e a parede: ou filhos ou profissão. E quando ousa uma lógica inclusiva, filhos e profissão, fica numa espécie de terra de ninguém entre países. Ainda se admiram que  não nasçam crianças?

3 Comentários

Filed under Alemanha

Devolver (pelo menos) o rosto às mulheres

 

Bruxelas, 29 abr (Lusa) – O parlamento federal belga aprovou hoje um projecto de lei que proíbe o uso de véu islâmico (integral) em todos os locais públicos, faltando ainda o voto do Senado para a interdição entrar em vigor.

A actual crise política e a iminente dissolução das assembleias, com o cenário de eleições antecipadas, deverá todavia adiar o processo legislativo, sendo provável que o texto agora aprovado pela câmara sóseja apreciado na próxima legislatura.O texto, que já havia sido aprovado há um mês, a 31 de Março, em sede de comissão parlamentar, foi aprovado hoje pela câmara do parlamento federal praticamente por unanimidade, com apenas duas abstenções. A lei não inclui qualquer referência explícita à “burqa” ou ao “niqab”, nem tão pouco a “peças de vestuário”, mas prevê que o código penal belga passe a considerar crime (passível de uma multa ou pena de prisão de um a sete dias) uma pessoa apresentar-se em locais públicos com “a cara coberta ou dissimulada total ou parcialmente, de tal forma que não seja identificável”.O texto contempla algumas excepções, isentando categorias como motociclistas, bombeiros e soldadores.Se o Senado aprovar em breve o projeto de lei, o véu facial ou o niqab (que deixa aparecer somente os olhos) deixarão de ser tolerados a partir do próximo verão na via pública, edifícios público e comércio em todo o país.

Deixe o seu comentário

Filed under direitos humanos

Perdoai-lhes porque não sabem o dizem, ou esqueceram-se de tomar os psicotrópicos

Beirute, 19 abr (Lusa) – Um destacado clérigo iraniano afirmou num sermão que as mulheres que usam roupas reveladoras e assumem comportamentos promíscuos são responsáveis pelos terramotos, noticiaram hoje os ‘media’ iranianos.”Muitas mulheres não se vestem com modéstia, levando os jovens a perder-se, a corromper a sua castidade e a disseminar o adultério na sociedade, o que faz aumentar os terramotos”, disse o dirigente religioso Hojatoleslam Kazem Sedighi, citado pelos ‘media’ iranianos.”O que podemos fazer para não ficarmos debaixo dos escombros? Não há outra solução senão refugiarmo-nos na religião e adaptarmos as nossas vidas aos códigos morais islâmicos”, disse o clérigo durante o sermão da passada sexta-feira.

No Irão, as mulheres estão obrigadas por lei a cobrir-se dos pés à cabeça, embora muitas, especialmente as mais jovens, ignorem algumas das regras mais rígidas e usem casacos justos e lenços puxados para trás que permitem ver o cabelo.As declarações de Hojatoleslam Kazem Sedighi surgem duas semanas depois de o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, ter previsto a ocorrência em breve de um terramoto em Teerão e considerado que pelo menos cinco dos doze milhões de habitantes da capital devem ser realojados.O Irão, e Teerão em particular, está sobre várias falhas geológicas e os sismólogos têm alertado nas últimas décadas para a probabilidade de a populosa capital do país ser abalada por um violento sismo num futuro próximo.O último grande terramoto a atingir a capital iraniana remonta a 1830. Em 2003, 31.000 pessoas morreram num violento terramoto que destruiu a cidade de Bam (sul).O clérigo iraniano afirmou que lhe foi “dito por uma autoridade divina” que alertasse a população para a necessidade de “um arrependimento geral” e referiu-se à contestação das presidenciais de junho como “um terramoto político que ocorreu em reação a determinadas acções”.

3 Comentários

Filed under Coisas do Mundo

E tudo como dantes

Getty Images

Quando tinha nove anos os pais arranjaram-lhe um noivo. Dois meses após o casamento Nujood Mohammed Ali fez algo virtualmente impossível no Iémen, fugiu, apanhou um autocarro e depois um táxi, e dirigiu-se a um tribunal de Sanaa reclamando justiça. A audácia desta menina-mulher chegou aos ouvidos de Shada Nasser, advogada e defensora dos direitos humanos. ” Eu não acreditei  e perguntei-lhe porque queria o divórcio. Ela respondeu  porque ” odeio a noite”“. Uma semana após o seu pedido, um juiz concedeu-lhe o divórcio. Aos dez anos esta menina  era a divorciada mais jovem do Iémen. E uma das suas mais lúcidas e valentes mulheres. 

 Nujood Mohammed Ali, agora com 12 anos, reaprendeu a sorrir, voltou à escola, e sonha tornar-se advogada, “para proteger outras meninas como eu”.  A revista americana Glamour destacou-a  como uma das dez Mulheres do Ano de 2008, ao lado de Hillary Clinton, Condoleezza Rice ou Nicole Kidman. 

 A coragem de Nujood Mohammed Ali para afrontar a política dos casamentos infantis forçados fez lei. Em Fevereiro de 2009  passou a ser proibido o casamento de raparigas menores de 17 anos. A medida todavia foi considerada como hostil ao Islão  por vários líderes religiosos conservadores, entre eles o xeque  Abdul Madschid al Sindani, e a Comissão Parlamentar para a Sharia anulou-a, com o argumento de que o Profeta Maomé casou com uma menina de 9 anos. 

 No  domingo passado sairam à rua milhares de mulheres iémenitas. Umas para exigir que a lei seja cumprida , outras, de Corão a punho, a reclamar que cabe aos pais decidir quando uma filha tem idade para casar. Em Abril deve ser tomada uma decisão definitiva. A promessa de uma vida normal é menos que escassa. Há poucos países onde as mulheres estejam mais sós. 

Mulheres que defendem o casamento infantil

No Iémen rural as meninas casam habitualmente aos 12 , 13 anos. Em 1992 uma lei estabeleceu a que  idade mínima para o casamento seria 15 anos.Mas em 1998 o Paralmento reviu a lei permitindo que a decisão seja tomada pelos pais e desde que as meninas não tenham sexo com os maridos antes de serem mestruadas. O que não é cumprido. O casamento infantil pode ser uma tradição cultural, como o foram os autos-de-fé,  mas é sobretudo, um crime contra a autodeterminação individual e a dignidade a que todos os seres humanos têm direito. Outros costumes, dirão alguns, encolhendo os ombros. É a “sharia”, elas estão habituadas. A mim que por um acaso geográfico nasci do lado certo da vida repugna-me, indigna-me  que homens  o defendam o inaceitável casamento infantil. Que as mulheres, elas também vítimas, tuteladas pelo medo, saiam por ele para a rua, enfurece-me e leva-me às lágrimas. A ignorância é um véu.

1 Comentário

Filed under direitos humanos

Do lado certo

Fotografia de Ricardo Rangel

Uma noite em Setembro de 2009. Depois de um concerto no centro cultural franco-moçambicano partimos para  “a noite” de Maputo. Perguntaram-me queres ver a zona da prostituição? Muarramuassar (significa procurar, vasculhar) está-me nas entranhas. Aceitei.

Conhecia as “catorzinhas” dos livros de Mia Couto e de Pepetela, mas queria ver a sordidez de perto. Ver os anjos roubados de dignidade, marginais de noite, marginais de dia. Troféus de lata. Fiquei enojada.

Bastaram-me três semanas em Moçambique para perceber que por aqui as amantes jovens são divisas apetecidas que enfeitam lapelas de muitos locais e de expatriados. Casadíssimos. Pais de família. A virilidade para alguns mede-se pela quantidade de meninas que coleccionam. Claro que nenhum destes predadores ignora que se está a aproveitar da miséria instalada. E que a “virilidade” tem um nome. Pedofilia.

Lembrei-me destas meninas-mulheres porque amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Para algumas, as que nasceram do lado certo da vida.

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo

Carta das Mulheres

A Comissão Europeia assumiu o combate à discriminação e violência contra as mulheres como uma das grandes prioridades para o novo mandato de cinco anos, avisando os Governos dos Vinte e Sete de que poderá vir a impor por via legislativa ou por sanções o respeito pela igualdade entre os géneros. Esta prioridade foi assumida no quadro da Carta das Mulheres, uma declaração política lançada para enquadrar os domínios de acção que a União Europeia (UE) vai assumir até ao fim do ano em favor da igualdade dos géneros.

 A Comissão garante que os seus princípios – igualdade no mercado de trabalho, salário igual para trabalho igual ou combate a todos os tipos de violência – vão passar a ser integrados em todas as políticas europeias e nas relações com os países terceiros.

Deixe o seu comentário

Filed under direitos humanos

Filhos da Guerra

Fotografia de Helena Ferro de Gouveia, tirada em Díli em Novembro de 2009

Sento-me no City Café, encostado à casa que acolhe a Fundação Oriente. O gravador corre longos minutos. Tinha-me preparado mentalmente para aquela entrevista. Não consigo parar de a ouvir, apesar do terror e da violência que a atravessam. Hipnotizada . Horrorizada. Em Timor-Leste a violação foi usada como um instrumento de guerra, para quebrar a resistência dos timorenses.

Toda a gente a conhece em Díli. É uma veterana. Contou-me que foi continuamente violada, por vários militares. Que a amarraram a uma cadeira e lhe deram choques eléctricos. Que lhe queimaram os mamilos e a zona genital com cigarros. Porque escolheu não viver em genuflexão.

Ao contrário dos seus compatriotas homens, cujas feridas de guerra são honradas, as mulheres timorenses que foram violadas, as que foram forçadas a tornar-se „mulheres de militares“, escravas sexuais, prémios de guerra , foram deixadas a sós com a humilhação. Esquecidas.  Consideradas impuras . Os “bastardos” , os filhos da guerra, viram o baptismo ser-lhe recusado pela Santa Madre Igreja e as mães proclamadas indignas do sacramento da confissão.

O que será feito desses filhos da guerra? O que será feito dos  cinco filhos daquela mulher com cinco pais , militares indonésios, diferentes? Uma reportagem adiada.

Agora que preparo um trabalho sobre a violência sexual no Congo, lembrei-me dela. Os seus olhos nos meus  são mais que uma página de um relatório, a  história  trágica dela tornou-se minha. Ela quer estar em paz com todos. Eu não evito o desassossego.

Deixe o seu comentário

Filed under Coisas do Mundo, direitos humanos