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Barbárie

Há coisas terrivelmente simples: na maioria dos países islâmicos as mulheres não possuem direitos. A vida pública é-lhes (praticamente) negada, são vítimas de toda a espécie de humilhações desde a obediência cega ao homem que não escolheram à mutilação genital até ao apedrejamento até à morte. Hoje foi disponibilizado um vídeo na internet – para o qual me recuso a colocar link –  que mostra o apedrejamento, até à morte, pelos monstros do IS, de uma jovem mulher síria. A mulher foi conduzida pelo próprio pai até um buraco na terra, em seguida enterrada e apedrejada. O seu crime? Ter-se apaixonado por um homem que não o seu marido, desaparecido há mais de um ano. “Quem se interessa por uma adúltera?”, pergunta-se no vídeo, ” a beleza do Islão será mostrada aos infiéis quer eles queiram, quer não”. A religião, seja ela qual for, e a “diferença cultural”  sempre tiveram  as costas largas, porém há limites. Não há  justificações religiosas para o massacre de mulheres – violadas, vendidas, apedrejadas, despojadas de direitos- que se vive na Síria, no Iraque, mas também no Irão, no Paquistão, na  Arábia Saudita, na Somália, no Egipto. As histórias destas mulheres, que de tempos a tempos afloram nas notícias, desmontam , como escreveu Inês Pedrosa, ” o discurso da boa consciência paternalista praticado no Ocidente: não, não há “uma cultura outra” difícil de “descodificar” aos nossos olhos”, nem uma religião que justifique a violação dos direitos humanos. A complacência para com a barbaridade torna-nos bárbaros. Terrivelmente simples.

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Porque é que as mulheres querem falar sempre sobre tudo?

O que pode dizer a um homem após o sexo? O que se quiser. Ele está a dormir. A piada é recorrente entre terapeutas e é um raio X daquilo que distingue homens e mulheres.
No caso das mulheres o ser-se íntimo de alguém envolve partilha. As mulheres não se sentem bem na solidão acompanhada. Para elas a palavra emoldura a intimidade. Mais – ou tanto como – do que as mãos escaldantes do homem que desejam e lhes percorrem os vales do corpo, as mulheres querem conversar, analisar, dar contornos. A palavra é o fio do colar onde se vão compondo as contas. Nela flutua a carícia e se constrói a ternura que, como escreveu Inês Pedrosa, é a “mais lenta das ciências, e a mais essencial”.
Para a maioria das mulheres é incompreensível que a paixão demonstrada (e verbalizada) pelos homens, o sentimento que desnudam pela sua equipa de futebol, não seja a mesma quando se trata de expressar um sentimento por elas. Seja ele o fugaz e devorador desejo ou um grande amor. Nenhuma mulher consegue lidar bem com a concorrência desleal do Sporting.
Uma mulher só se sente amada, querida, se sentir que o homem que partilha consigo o momento tem um interesse real pela sua vida, que se lembra do que lhe contou no mês passado. Que conversa com ela. A palavra é um fruto, na medida é madura e delicia, na escassez deixa um amargo na boca. Atenção homens: nenhum emoticon, nenhum gatinho ou mensagem mais ou menos requintada, enviada pelo Facebook, whatsapp ou pelo Skype substitui a conversa.
Não há forma simples de entender a equação do amor, da paixão ou de um simples caso entre uma mulher e um homem. Arrisco-me a dizer que só a palavra o permite desfrutar em pleno, viver intensamente, ou pôr-lhe fim. Depois de ter desabado sob um corpo, a mulher precisa que lhe digam se foi viagem de bilhete único, se é lua em quarto crescente, ou uma foda ocasional. A palavra abre os amplos territórios do amor, cerceia os do caso e alimenta nossa a vocação de proteger e cuidar.
A ausência das palavras de alguém de que se foi íntimo, a falta de um ponto final na história fere mais do que o abandono, a traição ou a privação da pele do amante. Para fazerem o luto de uma relação as mulheres precisam de um verbo: acabou.
Há uma explicação científica para esta necessidade feminina de falar: o cérebro da mulher tem a capacidade de sem esforço produzir entre seis a oito mil palavras faladas, o de um homem entre duas a quatro mil. Se uma mulher conversa muito com um homem é porque este agrada, se não tiver interesse nele simplesmente ela mantém o silêncio. Estranhos seres, nós mulheres.
As mulheres hoje mudam pneus, atravessam desertos, vão ao futebol sozinhas, escolhem com quem se deitam, não precisam “do homem”, mas, adaptando William Blake, “ao pássaro, o ninho. À aranha, a teia. À mulher, a palavra”.

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Maputo by night

É já noite no Índico. A temperatura desceu um pouco. Estou sentada no Jacarandá, num jantar leve, bem-disposto. As palavras são como a castanha de caju, é só começar. Tocam levemente a política e os interesses portugueses em Moçambique, as desavenças no PS e daí resvalam para magnificência da vida selvagem. A política não dista muito desta última. Digamos assim: tanto numa como noutra cada gazela tem o seu leão. A conversa acaba, se saber bem como, na questão de género. O jpt, antropólogo de verve elegante e ferina, diz a dada a altura “que o trabalho de campo o fez tornar-se um feminista”. Acabamos a desfiar a cartografia das angústias e dos nossos demónios.

Basta passar os olhos pela imprensa dos últimos dias e indignamo-nos com a “Catarina”, adolescente portuguesa (abusada duplamente pelos perpetradores e pelos que se tornaram silenciosamente cúmplices), invade-nos nos um frio glaciar ao ler que uma adolescente malaia, de 12 anos foi violada por mais de trinta homens, ou que duas meninas na Índia foram assassinadas depois do suplício de uma violação múltipla. A história repete-se, dia após dia, após dia,com outras personagens, numa interminável e cruel espiral.

Debruçar-se sobre na varanda do abuso e da violência sobre a mulher é aventurar-se a descobrir quanto sofrimento o coração humano consegue afinal suportar, quando e se consegue. Este mundo misógino onde a mulher é um mero objecto, uma vagina disponível para a cópula quando um macho quer, não nos devia indignar e fazer passar à notícia seguinte, mas enfurecer. Estas meninas, estas mulheres precisam que se fale delas. As palavras que as nomeiam, as histórias que as contam, modelam-lhe a verdadeira existência. Porque o destino de ser mulher não é esquecer-se de ser. A contemporaneidade exterior, conquistada via Facebook ou Twitter teima em demorar a chegar às mentalidades. Até lá o feminismo, “essa maçada”, continua actual.

PS – Num curso que fiz no Bundeswehr para me preparar para zonas de guerra ou conflito coloquei ao major responsável pelo mesmo a questão: “o que fazer no caso uma violação ?”. A resposta ficou-me gravada a ferro : “fique quieta e aproveite”.

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Expediente estafado ?

De cada vez que me dedico a essa arreliadora tarefa que é celebrar o dia da Mulher tropeço numa singularidade. Um grande número de mulheres têm todas as habilitações necessárias, excepto uma: não é um homem.

A todas as grandes mulheres (e a alguns homens que têm um livre-trânsito no sentir feminino, sem perderem um grama de virilidade) que se cruzaram na minha vida um beijo terno.

Não, este dia não é um expediente estafado. Infelizmente para tantas de nós.

PS- A Domadora está em Maputo, o trabalho e o Verão africano ( tenho a sensação que estou no Inferno) não tem permitido a escrita. Prometo redimir-me.

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It’s a woman’s world…

 

A ironia é a Tarte Tatin do cérebro: uma sobremesa sedutora e inesquecível. Ou conseguem imaginar algo mais tentador e aconchegante do que maçãs caramelizadas numa cama de massa crocante? A alma da tarte Tatin é a desafectação, a simplicidade e a autenticidade que põe a um canto a cozinha molecular.

Desafectado e irónico  é também “ Majorité Opprimée”  o filme da francesa actriz e realizadora Eleonoré Pourriat.

Trata-se de uma curta-metragem de 2010 que se tornou viral no Youtube. E ainda bem. “ Majorité Opprimée”   é um filme sobre mulheres embora a personagem principal seja Pierre, um homem vulgar, num dia vulgar, numa cidade francesa vulgar. Mas algo é diferente no mundo de Pierre. Usando um recurso simples, a troca de papéis, e uma dose de ironia, Pourriat  traça em poucos minutos um retrato perturbador  do assédio, maus tratos e discriminação a que as mulheres vulgares, em dias vulgares, numa cidade francesa  vulgar ( podia ser quase qualquer outra cidade desta Europa) estão submetidas. Um filme que recomendo a mulheres e a homens porque é de seres humanos que fala. De seres humanos com o direito a corpos e direitos intactos, algo absolutamente evidente e ainda tão longínquo.

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Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

Não é fácil tocar-lhe no verdadeiro rosto. É uma cortesã envelhecida, feita de contrassensos. Deslumbrante e amarga.
Maputo é uma mulher suspensa a quem cabe a resignação de esperar, sem saber por que e pelo que se espera. Qual a vida que se imagina quando as esperanças se desvanecem a cada manhã?Maputo não se percorre com o à-vontade de cidades africanas como Bissau. Há aqui uma violência epidérmica que vem de longe e se torna cada vez mais visível.
Na coreografia da cidade o espaço é fatiado entre o cimento, onde uma flat pode atingir 4,5,6 mil dólares, e a chapa ondulada, metálica, cortante, feita de silêncio e de uma vida nas sobras do urbano.

A revolta popular de Setembro de 2010 e os seus mortos revelaram as assimetrias de um país em que mais de 90 por cento da população vive com menos de dois dólares por dia. Dolorosas a estatísticas mostram que de metade dos habitantes de Maputo é pobre. Leia-se miserável. Sem água, electricidade e a certeza de uma refeição. A infalível upswa (xima) e o “se não fosses tu” (repolho) não são, para demasiados, mera memória distante da guerra civil. É neste caldo que fervilha a próxima revolta. O sismógrafo regista os primeiros abalos.

Cansada de uma semana na capital quis conhecer a outra margem, a que via diariamente da esplanada do Hotel Cardoso. Já na época colonial a Catembe era margem, geográfica e metafórica, de Lourenço Marques. Vila piscatória e de feiticeiros, inspiração do filme mais censurado na história do cinema português (“Catembe”de Faria de Almeida, documentário ficcionado que é um dos primeiros olhares disruptivos sobre o colonialismo português). Embarquei com a A. (que desafiei a acompanhar-me) no Bagamoyo, batelão que desafia a lei da resistência dos materiais, ou que a testa a cada travessia da baía. Esmagadora a vista panorâmica da cidade. Rasgada por gruas amarelas e pela promessa de progresso em forma de prédios de muitos andares.
À chegada a Catembe, pés descalços, trouxas à cabeça, pó, pilhas de fruta na berma. Caos colorido e previsível. Negociamos um chapa. 250 meticais pelo luxo único de um banco sem suspensão numa picada de terra batida. Ruínas, machamba, gado. O restaurante Marisol, lendário como a própria Catembe, não desilude. Conta-se que o próprio Samora Machel terá almoçado lá a caminho do exílio. Há várias Catembes dentro da Catembe.

Maputo vista da Catembe parece uma recompensa. Quotidiano agreste, violento, nos limites? Tomai-lá a Praia dos Amores e Maputo na outra margem. Brindámos à vida e à amizade com uma Laurentina, a mais premiada das cervejas moçambicanas, que um mestre cervejeiro alemão criou por encomenda de um empresário grego, George Cretikos.

Levanta-se vento, na baía as águas encrespam-se, encapela-se a picada em ondas vermelhas de poeira e areia. Impõe-se o regresso. O nosso e o dos muitos que aproveitaram o fim de semana prolongado para atravessar para a Catembe. O batelão enche, enche, enche, enche. Sobre nós não planam abutres como na Amazónia, mas poderiam. O batelão arranca, estamos molhadas até aos ossos, num navio tão cheio, o fio de segurança que resta é seguramos-nos na beirada. Batelão bate contra o cais, boooomm, volta a embater, numa trovoada metálica assustadora.”As cordas, as cordas”, grita-se. Nenhum marinheiro tinha solto as amarras, os motores puxavam em força bruta num desafio de titãs. Soltas as amarras começa não a liberdade, mas o pesadelo. Duas mulheres brancas, a cor da pele é neste contexto importante, vivem a sua própria solidão. Um bêbado assedia a A. agarra-a pela cintura, passa-lhe as mãos nas nádegas, um louco passa-me as mãos pelo cabelo, uma e outra e outra vez, pousa a mão pesada, quase uma garra, nos ombros. Consigo libertar-me e ele parece desistir. A A. tem menos sorte, o abuso prossegue. Ao nosso redor grupos de homens e mulheres observam o espectáculo, saboreiam o nosso medo com um esgar de desdém. Putas brancas lia-se nos olhos duros.
Além do P. mais ninguém parecia estar a ver. “Estão a ser incomodadas? Ponham-se atrás de mim”. Enfrentou a turbe. “Eu tenho a minha identidade no bolso e não quero que os estrangeiros pensem que os moçambicanos são todos assim”. Punhos e uma vozoeiria ergueram-se. Boommm. Atracámos em Maputo. “Sou pastor da Igreja do Nazareno”, diz, “já não é a primeira vez que dou um soco aqui. Ainda no domingo passado alguém agarrou a Mamã [a mulher] pelos seios. Era o que faltava meterem-se com propriedade minha”.

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As mulheres e as leis

A princípio não sabia se havia de me exasperar ou de ignorar. Mas lembrei-me delas, das mulheres que dormem com o medo ao seu lado na cama, e que dormem com o sono do pesadelo.
Há uns anos entrevistei uma mulher que foi violada repetidamente por vários militares. Raras vezes as vítimas de violação têm a coragem de falar do seu martírio. Querem esquecer. A F. contou-me detalhadamente como a atiram para o chão, lhe rasgaram a roupa e um após outro se serviram dela. Uma e outra e outra vez. Sentiu o abraço da humilhação, uma dor mais lancinante do que o sangue que lhe escorria entre as pernas.Contou-me, e muito ficou dito nos espaços entre uma e outra palavra, que se sentiu impura, um pedaço de lixo. Confiou-me as suas lágrimas e eu estremeci de raiva,de impotência e chorei com ela.
Quando li hoje pela manhã no El Pais que um deputado conservador espanhol afirmou publicamente que as ” as leis são como as mulheres, existem para ser violadas” voltei a estremecer de raiva. Ainda pensei ignorar a boçalidade, a perfídia do comentário, mas ele espelha o que vai na cabecinha de alguns machos ibéricos e ignorá-lo seria ser conivente e cúmplice com o achincalhar , com a redução da mulher a uma vagina.
Que comentários como este façam ainda parte do quotidiano da civilização ocidental no século XXI é miserável. Face a isto o feminismo esta longe de estar fora de moda.

Ps- A história da F.

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