A princípio não sabia se havia de me exasperar ou de ignorar. Mas lembrei-me delas, das mulheres que dormem com o medo ao seu lado na cama, e que dormem com o sono do pesadelo.
Há uns anos entrevistei uma mulher que foi violada repetidamente por vários militares. Raras vezes as vítimas de violação têm a coragem de falar do seu martírio. Querem esquecer. A F. contou-me detalhadamente como a atiram para o chão, lhe rasgaram a roupa e um após outro se serviram dela. Uma e outra e outra vez. Sentiu o abraço da humilhação, uma dor mais lancinante do que o sangue que lhe escorria entre as pernas.Contou-me, e muito ficou dito nos espaços entre uma e outra palavra, que se sentiu impura, um pedaço de lixo. Confiou-me as suas lágrimas e eu estremeci de raiva,de impotência e chorei com ela.
Quando li hoje pela manhã no El Pais que um deputado conservador espanhol afirmou publicamente que as ” as leis são como as mulheres, existem para ser violadas” voltei a estremecer de raiva. Ainda pensei ignorar a boçalidade, a perfídia do comentário, mas ele espelha o que vai na cabecinha de alguns machos ibéricos e ignorá-lo seria ser conivente e cúmplice com o achincalhar , com a redução da mulher a uma vagina.
Que comentários como este façam ainda parte do quotidiano da civilização ocidental no século XXI é miserável. Face a isto o feminismo esta longe de estar fora de moda.
Ps- A história da F.












