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Liberdade, liberdade

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Por que razão evitar a expressão outrora? Regressando lá, a esse tempo, Caracas não se me afigura como ameaçadora, nem violenta, mas apenas como um presépio em escadinha com luzes intermitentes, tantas luzes intermitentes que se tornavam elas próprias no fio do horizonte. Ao amanhecer descobri que as luzes que fascinaram eram barrios, as favelas venezuelanas. Outrora era eu adolescente, a Venezuela era um país prostrado, deslumbrante, e o comandante não havia chegado ao poder. Caracas sabia a manga, a arepas,  a pasta italiana e a pão português. Ressoavam nela as cadências do mundo.

 Foi preciso mais tempo, sobretudo mais densidade no tempo, para que eu entendesse que em Caracas, que na Venezuela, como em todas as cidades em convulsão, como em todos os países revolucionários existe o inquieto, o curioso, o ignorado, o pobre, o oprimido, o inqualificável. E o abuso, o torcionário, o déspota.

Na atenção dos media internacionais as imagens de Caracas, da horrível violência nas ruas da Venezuela competem por uma migalha de atenção. A Europa olha para Kiev, onde estão em jogo as suas fronteiras, a sua segurança energética e onde se disputa um braço de ferro com a cada mais autoritária e perigosa Rússia. Na cínica contabilidade dos mortos a Ucrânia ultrapassa a Venezuela. E são mortos brancos, de olhos azuis. E há revolucionários fotogénicos que tocam piano nos intervalos da revolução.  Moisés Naím nota hoje no  El País que “ a América Latina não é competitiva, nem sequer nas suas tragédias”.

Façamos zoom-in. Hugo  Chávez levou os cientistas políticos reverem etiquetas: sonhador, obcecado por Simon Bolívar,  dono de uma  empatia genuína pelos pobres, narcisista, déspota. Morreu amado e odiado, deixando menos pobres, uma inflação tenebrosa, a dívida pública dez vezes superior à 2003, manipulação da justiça, perseguição à imprensa, corrupção, desemprego, aumento da criminalidade violenta, violação dos direitos humanos e uma sinistra influência de Cuba nos desígnios venezuelanos. Quando falamos de Chávez falamos sobretudo de um ditador eleito e Nicolás Maduro é o seu aprendiz.

É sabido que uma das vacas sagradas do chavismo é o “pobre”. Para muitos o que está em jogo  actualmente nas ruas de Caracas é mais um episódio de um longo conflito entre um Governo que “ama os pobres” e odeia o “imperialismo dos Estados Unidos” e uma oposição  que muitos jornalistas descrevem como “classe média” .  Essa descrição está errada. Facto é que metade dos venezuelanos está contra o governo de Nicolás Maduro. É o que demonstram todas as pesquisas e resultados eleitorais.  Apesar de todas as tentativas de manipulação Maduro chegou à presidência com uma margem mínima de 1,5 por cento sobre o candidato da oposição. A classe média Venezuela está longe de representar metade da população do país, pelo que muito milhões de pobres, aqueles que Maduro diz representar estão contra ele.

Na Venezuela, o país com as maiores reservas petrolíferas do mundo falta insulina para os diabéticos, falta leite para as crianças, faltam shampoos e papel higiénico. A escassez , o medo e o desencanto tornaram-se insuportáveis.

Nestes dias, perante o desinteresse geral, assiste-se na Venezuela ao estertor do “socialismo do século XXI”. Trava-se uma luta de vida ou de morte.   A luta pela liberdade na Venezuela feita por anónimos de pele dourada, por rainhas de beleza, estudantes e habitantes dos barrios, merece o nosso respeito e a nossa solidariedade. E não é por o sonho, como todos os sonhos, fazer uma travessia por momentos de pesadelo que um dia não haverá um belo despertar. Em liberdade.

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Porque é que certas coisas banais têm a ver com a liberdade ?

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Na defesa de valores não pode haver lugar para Pilatos. Antes de sermos apanhados de surpresa por uma total inversão de valores, é bom estar atento aos sinais.

Estes são os factos: uma adolescente muçulmana pretendia não ter de frequentar aulas de natação, numa escola de Frankfurt, mesmo usando burkini, porque se sentia ofendida nas suas convicções religiosas com a presença de rapazes em calções; invocando também a religião um adolescente queria ser dispensado de assistir ao filme “Krabat” (cujo argumento é uma adaptação do livro de Otfried Preussler, um dos mais célebres autores infantis alemães). Ambos os casos foram levados perante o Tribunal Administrativo Federal que decidiu hoje com lucidez que “a religião não pode interferir com no currículo escolar”.

Em 2009, foi autorizado na Alemanha uso de burkini nas piscinas e nas escolas públicas. Uma decisão política controversa tomada para “facilitar a integração” de jovens e mulheres muçulmanas. Pessoalmente defendo que cada um tem o direito inalienável de decidir sobre as suas convicções religiosas ou os seus hábitos de vida se isso o implica só a ele. Se o burquini faz com que as meninas muçulmanas entrem na piscina com os colegas da escola e aprendam a nadar, excelente. Agora é aberrante e perigosa a pretensão de regular o código de vestuário dos restantes alunos e alunas. Assim como é aberrante querer impedir um jovem de filme “Krabat” só porque terá “elementos de feitiçaria”. O que se proibiria a seguir? O “Fausto”?

Tolerar e compreender outro não significa abdicar dos nossos valores, nem da nossa herança judaico-cristã, nem alinhá-los pela fatwa do politicamente correcto. Pode-se respeitar as convicções religiosas do outro sem ceder nos princípios básicos do livre pensamento, da livre expressão e da autodeterminação. Caso contrário a nossa sociedade democrática e livre tornar-se-à numa espécie de Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Pode-Pronunciar.

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Vaclav Havel, encenador, director de cena e o protagonista da revolução

O meu amigo Vaclav Havel

Por Timothy Garton Ash

 Um copo de cerveja é levantado de uma mesa de madeira por uma mão surpreendentemente pequena e delicada. Um sorriso passa brevemente pelos lábios, sob o bigode com as pontas viradas para baixo, enquanto uma voz profunda deixa sair alguma observação mordaz antes de tomar mais um golo de boa cerveja checa. Muita coisa mudou durante as duas décadas em que o conheço: a sua vida, de dissidente a Presidente, a sua roupa, de “jeans” a fatos escuros, a sua saúde, de mal a pior, todo o mundo em redor, do comunismo ao capitalismo, do Pacto de Varsóvia à NATO – mas na minha mente permanece a imagem do constante e irredutível Vaclav Havel.Foi assim a primeira vez o conheci, sentado à janela do seu velho apartamento sobranceiro ao rio Vltava, magro depois de quase quatro anos como preso político do regime comunista. Foi assim da última vez que conversámos, num centro de congressos que foi construído para conferências do Partido Comunista mas agora aguardava uma cimeira da NATO. O assunto da observação mudou, claro. Em 1984 era sobre o polícia secreto que o seguia por toda a parte. Quando Havel foi a uma sauna, o polícia secreto, corpulento e de meia idade, aproximou-se dele e disse “Desculpe-me, senhor Havel, mas tenho um ‘pacemaker’ e não é bom para mim entrar aí. Importa-se de esperar enquanto chamo outra pessoa?” Agora era sobre os presidentes George W. Bush e Jacques Chirac, e sobre se ficariam para o surpreendente hino à liberdade que se seguiria ao jantar, combinando a “Ode à Alegria”, de Beethoven, a Marselhesa e o “Poder ao Povo”, de John Lennon, que encomendara especialmente para a cimeira da NATO e para a sua própria despedida…O humor, a vivacidade interior, permanece. Tal como a profunda gravidade que é habitualmente revelada em algumas reflexões mais longas que se seguem imediatamente à anedota.

Em 1984, contra todas as hipóteses, contra as provas existentes, contra a opinião da maior parte do mundo e da maior parte dos checos, foi sua convicção que o gelo da opressão de estilo soviético estava a ser gradualmente derretido, por desilusão popular e pela pequena chama do movimento dissidente “Carta 77″. Agora foi sobre a importância da América e da Europa se apegarem aos valores comuns, mesmo enquanto argumentamos quanto ao Iraque.Havel é um boémio nato, em ambos os sentidos da palavra. Durante anos, de nada gostava tanto como de uma improvisação nocturna, teatral, política ou ambas ao mesmo tempo – na companhia de lindas mulheres, de boa cerveja e de Becherovka, o espírito checo. Mas, criado no lar de um milionário culto, é também o homem mais delicado que conheço. Aqui, no restaurante do centro oficial de congressos, insiste em oferecer-se para pagar a cerveja e a sopa que tomámos, se bem que tenha de pedir o dinheiro emprestado ao guarda-costas. (É a espécie de pormenor que o próprio dramaturgo-Presidente escolheu no princípio da sua presidência para ilustrar o isolamento dos poderosos em relação à vida quotidiana). Um divertido jovem empregado aceita o dinheiro mas volta minutos depois para dizer, com um gesto principesco: “É por conta da casa”.Um amigo que esteve com Havel na prisão disse-me que os guardas lhe fizeram a vida dura por causa desta extrema delicadeza e aparente timidez. Pensaram que o podiam destruir. Mas interpretaram-no mal. Por detrás do exterior suave e muitas vezes hesitante, existe uma grande força mental e física. Já quase morreu várias vezes nos últimos anos, de infecções brónquicas crónicas que se seguiram a cancro pulmonar. Mas ainda aqui está, a lutar pela sua visão de um mundo mais humano, o último dos heróis da opressão anti-comunista em toda a Europa pós-comunista, de Berlim a Vladivostok, a permanecer no topo ao longo de toda a transição do seu país do Leste geopolítico para o Ocidente.

Assim, ao retirar-se da Presidência, desfolho os meus cadernos de apontamentos de 20 anos para recordar o fenómeno Vaclav Havel.Um carro da polícia bloqueia a entrada para a sua casa de campo, Hradecek, no Norte da Boémia. Sigo pela estrada, escondo o meu carro e passo pelo pinhal até à traseira da casa. Bato à janela. Surpreendido, mas só por um momento, pela minha chegada clandestina, saúda-me calorosamente, vestindo uma “t-shirt” que diz “A Tentação é Grande”. A “Tentação” é a sua nova peça, acabada de estrear em Viena. Mas não a poderá ver. Se atravessasse a cortina de ferro, para o Ocidente, o regime nunca lhe permitiria o regresso.Falámos durante todo o dia. Diz-me como é que escondeu na floresta um manuscrito do seu último ensaio – “parte dele ainda lá está” – com receio de que a polícia confiscasse o seu único exemplar. (Em meados da década de 80 não havia na Checoslováquia arquivos de computador). E como é que uma vez foi pelo meio dos bosques, gastou três dias em entrevistas e declarações a favor da “Carta 77″, e regressou a casa perante a surpresa e furor do polícia que guardava a entrada. Falamos de Kafka, Harold Pinter, do filósofo Jan Patocka – e do sádico governador da prisão.”Hitler estava em melhor posição do que eu”, disse-lhe uma vez o governador. “Enviava-vos todos para a câmara de gás”. Descreve a frustração de ter de concentrar toda a sua produção literária numa simples carta semanal da prisão para a mulher, Olga. (O livro “Cartas a Olga”, existente em várias línguas, é o maravilhoso resultado). “Nada de sublinhados, citações ou palavras estrangeiras”, disse-lhe o governador.

Uma consequência da censura foi um estilo tão à moda de Esopo que quando hoje relê as cartas mesmo ele não sabe o que é que queria dizer.Agora, contudo, está seguro de que a mudança política vem não de cima mas de baixo, daquilo a que chama a quinta coluna da consciência social.E a mudança finalmente chegou. No subterrâneo teatro Lanterna Mágica, sede daquilo a que alguns chamaram “A Revolução de Veludo”, Havel movimenta-se como o personagem de uma das sequências apressadas de um filme de Charlie Chaplin. As suas pequenas mãos sempre expressivas movimentam-se como propulsores. Caminha com um certo ar chaplinesco. Em cada 10 segundos alguém o aborda com um novo pedido. Muitas vezes retira-se para o pequeno camarim a partir do qual dirige a revolução. É ao mesmo tempo o encenador, o director de cena e o protagonista. Mas ainda encontra tempo, pela noite fora, para um copo de cerveja e uma anedota no bar da cave que fica nas traseiras do seu bloco de apartamentos.Cá fora, defende diariamente a mensagem de mudança pacífica a partir de uma varanda da Praça Venceslau, para multidões de 300.000 pessoas. Subitamente, alguns estudantes apresentam botões na lapela a dizer “Havel à Presidência”. São feitos, dizem-me, na Hungria. Delicadamente, envergonhadamente, Havel pede se pode ter um. Em breve a multidão na praça começa a cantar “Havel na Hrad”, que quer dizer “Havel para o Castelo de Praga”, a residência do Presidente.”É uma ideia disparatada”, diz Olga. Vaclav concorda. Mas qual é a alternativa? É não só toda a lógica do seu compromisso com a democracia mas também o seu próprio instinto, um fascínio com a política mas também um repúdio, que o leva da casa de campo para o Castelo, de Hradecek para Hrad. Diz que é como um crítico literário subitamente obrigado a escrever um romance. Mas não são a maior parte dos críticos tentados a escrever?Entretanto, há champanhe cor-de-rosa no palco da Lanterna Mágica, e sinais de V de vitória, e uma versão checa de “We Shall Overcome”. É a melhor hora de Havel. É também o momento em que é catapultado para um filme que já não pode dirigir nem controlar. Caminha com a História, como dizem, ou é a História que salta por cima de si?A partir de uma varanda sobre a Praça da Cidade Velha, o Presidente Havel fala ao povo de Praga sobre as suas recentes conversações com o Presidente George H. W. Bush. Diz esperar que possa ser um mensageiro entre os extremos ao dizer “Ahoj!”, o equivalente checo de “Ciao!” ou “Cheers!”.De caminho até ao Castelo, ele mostra-me a vasta, medonha e quadrada poltrona deixada para si pelo seu antecessor comunista como Presidente, marcando a enorme distância entre eles na animosidade fraternal da mobília. Impetuoso, a uma velocidade digna de Chaplin, descemos um dos longos e atraentes corredores, a caminho de uma conferência de imprensa, quando pára para me mostrar uma grande e pesada porta. Por detrás, diz-me, era a câmara de tortura do castelo. Devemos vir a usá-la para negociações. O humor permanece assim como a intimidade.

Neste primeiro ano da sua presidência, ele concretizou alguns dos seus maiores discursos: persistentes reflexões sobre o legado do comunismo, defendendo a necessidade de renovação moral, e reflectindo sobre a Europa. Mas percebe-se já como a grande formalidade do Castelo, a atmosfera de um tribunal, os inumeráveis problemas da transição e a total pressão das negociações diplomáticas e políticas, a sensação de ter a vida medida por reuniões de 20 minutos, começa a engoli-lo.

Um modesto “pub” à beira rio, mais um copo de cerveja. Apenas uma mesa reservada para o Presidente, nenhuma cerimónia especial ou medidas de segurança extraordinárias. Ele ainda fala como o “outsider-insider”, o escritor em palco. Diz-me que os checos comuns falam com ele ‘como se eu fosse o seu espião na presidência'”. “Diz-lhes o que nós pensamos”, pedem as pessoas. Mas há agora uma incrustada ironia na sua própria posição. “Eles” neste caso significa o Governo de um outro Vaclav, Vaclav Klaus, um convincente e eloquente economista que o próprio Havel ajudou a tornar proeminente durante a Revolução de Veludo. Klaus representa coisas execráveis para Havel: ele é um “thatcherista”, de facto, é mais “thatcherista” que a própria [Margaret] Thatcher, defendendo que o mercado livre é solução para tudo, ao passo que Havel é um social-democrata ecologicamente orientado, profundamente preocupado com a legalidade, a justiça social e o custo humano da transição. Enquanto Havel é o homem mais educado que eu conheço, Klaus é um dos mais rudes. E é Klaus que tem agora o poder.

Depois da separação da República Checa com a Eslováquia, a que Havel se opôs, os poderes do Presidente foram bastante reduzidos. Como se numa peça de Havel, numa ameaça surreal e Pinteriana, Václav fosse agora perseguido pelo seu violento e exuberante duplo, Václav II.Por alguma forma estranha, inesperada e indesejada, o Presidente tornou-se novamente um dissidente, um dissidente do seu próprio Governo. “Digo o que penso”, diz-me. Ele tem uma visão diferente do que deveriam significar as terras checas na Europa. Insiste na possibilidade de continuar a ser um intelectual ao mesmo tempo que um político. “Antes escrevia ensaios, agora escrevo discursos.” Sou céptico, penso que a sua posição e a sua batalha com Klaus, constrangem radicalmente a sua capacidade de, como o próprio diria, numa frase marcada pela sua natureza de dissidente, “viver na verdade”. Ele também fala da necessidade de uma “visão mais lata” nas políticas europeias, de homens e mulheres de Estado, como De Gaulle, Adenauer e Churchill. E isso ele tem definitivamente em relação aos seu país e à Europa. Quem mais para o comparar? Kohl? Mitterrand? John Major! Como os grandes líderes do pós-1945 emergiram da severidade da guerra, assim os grandes líderes do pós-1989 emergiram da provação da resistência anticomunista e da revolução. É Havel que continua a exigir que algo seja feito para parar o genocídio na Bósnia, ao mesmo tempo que os líderes da Europa Ocidental se retorcem e desviam. É Havel que nos recorda que a Europa é mais do que circulação de dinheiro e alcatrão. E foi Havel, acima de todos, que convenceu os americanos de que a Europa Central devia entrar na NATO.Por isso acolheu uma cimeira da NATO em Praga. A sala anteriormente usada por Leonid Brejnev foi destinada ao secretário-geral da NATO, George Robertson. Brejnev deve ter dado voltas no túmulo. Encontramo-nos no centro de conferências, olhando para o Castelo de Praga, que se eleva, iluminado, imponente e encantador, por cima da cidade mais bonita da Europa Central. Mas esta noite, por cima do próprio castelo há um coração enorme, carmesim, de néon, a pulsar devagar. O coração é o símbolo que Havel coloca nas cartas a amigos e este é o seu gesto de despedida. Alguns checos resmungam, dizendo que é kitsch e pouco dignificante, especialmente porque na República checa um coração de néon vermelho é normalmente o sinal de um bordel.

Mas Havel não se importa, e eu penso que ele tem razão. Com o céu da noite como fundo, o coração parece mágico.Ele tem hoje 66 anos e é um homem doente, mais duro, mais forte, mais vagaroso, mais formal do que o electrificante dramaturgo dissidente que conheci em 1984. A sua voz ressonante é interrompida por ruídos ásperos de tosse. Passou por muito, e isso nota-se.”Mais discursos não!”, exclama ele quando lhe pergunto o que vai fazer durante a sua reforma. Então discutimos, como fazíamos antes, como ele poderá reflectir, enquanto escritor, a sua experiência na alta política. Mas no dia seguinte, ele faz mais um discurso notável. Fala dos valores partilhados entre a Europa e a América, como o alargamento a leste da comunidade euroatlântica tem de continuar para incluir todas as novas democracias da Europa, e a tensão entre o imperativo de resistir ao mal e o valor da soberania. “Precisamos de pesar pela mais fina das escalas”, diz ele, se a guerra no Iraque vai libertar pessoas de um regime criminoso, como fizemos no Kosovo, e proteger a humanidade contra as suas armas, ou se é só outro exemplo do tipo de “ajuda fraterna” que Brejnev deu à Checoslováquia quando as tropas soviéticas marcharam sobre Praga em 1968. Muito incisivo para um Presidente que acolhe ma cimeira da NATO. O moralista e o dissidente ainda brilham. Durante este fim-de-semana, o coração carmesim vai acabar por ser desligado. Havel irá provavelmente para a sua casa no Algarve, onde o clima é melhor para os seus pulmões, para recuperar e reflectir. Muitos checos ficaram entretanto fartos das suas reflexões morais “Diz ans, c’est assez” cantaram estudantes franceses a De Gaulle em 1968, e 13 anos de presidência é mais do que suficiente. Grandes homens saem de cena muitas vezes de modo ingrato.

O tom das despedidas em Praga é respeitoso, não reverencial. Mas um dia os checos vão compreender que grande serviço prestou Havel ao seu país e à Europa. Sem ele não teriam tido aquela transição pacificamente mágica, entre a tirania e a liberdade. Sem ele, a divisão da Checoslováquia poderia ter sido mais confusa e mais dolorosa. Sem ele, toda a Europa Central poderia agora não gozar da segurança sem precedentes da NATO e da hipótese iminente de se juntar à União Europeia. Ele é a única figura da transição que ficou durante todo o percurso. E durante esse tempo ele manteve-se não sempre, mas mesmo assim as vezes suficientes, a voz distinta e inquiridora de um grande escritor político. Quando os checos acordarem e virem isso, começarão a planear a sua estátua. Ele será retratado, certamente com um sorriso calmo com um copo de cerveja na sua delicada mão direita.

Este é um dos melhores textos que li sobre Vaclav Havel, foi escrito em Fevereiro de 2003

 

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Notas breves da Polónia II

A Polónia fascina-me. Talvez por ser agreste. Talvez pela overdose de história e simbolismo. Talvez por ser triste e belíssima em simultâneo. Talvez por não ser óbvia.  Talvez porque me ajuda a lembrar o que é verdadeiramente importante. A pôr tudo na proporção.

No momento em que escrevo estas notas soltas passam na televisão polaca as imagens da Líbia, vejo a história a escrever-se na retina e não consigo deixar de pensar que Gdansk, que 1989 foi ontem.

Como escrevia recentemente o “Der Standard”, pensar que a democracia constitui “um risco é uma objecção tão velha como a aspiração à liberdade. É sempre formulada por quem tem estabilidade. Se os nossos antepassados lhes tivessem dado ouvidos, viveríamos ainda como servos, sob a alçada do clero e o chicote dos príncipes”.

 

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O doce perfume da liberdade

É oficial: o faraó caiu.

O Egipto viveu hoje um dia de emoções. O último dia em que os egípcios tiveram as suas vidas governadas por Hosni Mubarak foi de festa. Hoje é o dia por que todos lutaram, o dia porque muitos morreram. Hoje tivemos o privilégio de assistir à mudança do curso da História.

 Nunca mais ninguém pode dizer que “não sabia”, analisa Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e Nobel da Paz. No “New York Times”  Wiesel escreveu “Por causa do progresso na tecnologia, especialmente no campo da comunicação, ninguém tem já desculpa para dizer: ‘não sei, não sabia, não tinha noção’.” Um dos heróis  maiores desta revolução é Marc Zuckerberg.

 

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Egipto e o sabor doce a liberdade

 

“Vamos ficar aqui dias, meses se for preciso”, diz um homem já rouco de tanto gritar. Ao seu lado está outro em silêncio, com um ar triste, sentado no chão, com um cartaz que diz: “Tenho fome. Só peço justiça.” É um mendigo. Vários rapazes puxam os jornalistas até ele, para o fotografarem, como se fosse um símbolo. Já estava ali antes da insurreição. Agora a súplica dele é a exigência de todos.

 Paulo Moura, in Público 31.01.11

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A tirania do silêncio

Cinco anos após  a publicação das doze caricaturas de Maomé o diário dinamarquês “Jyllands-Posten” reeditou-as ontem em livro. “Tavshedens tyranni” (“Tirania do Silêncio”) é uma obra provocadora que lança uma lancinante interrogação  sobre a liberdade de expressão e o perigo de ceder a liberdade intelectual e política a troco de um apaziguamento nesta espécie de Cruzadas ao contrário que vivemos.

A comunicação imediata alterou as regras da geopolítica . Uma caricatura em Copenhaga é uma manifestação em Jacarta. Vivemos num mundo em que coexistem “sociedades não contemporâneas” ou, na expressão de Jean Lacouture, “na mesma rua e no mesmo momento convivem, lado a lado, Nova Iorque e Tombouctou, estamos ao mesmo tempo no séc. VII e no séc. XXI”, mas com acesso à internet.

Violência, ameaças e intimidação tornaram-se argumentos no debate público. Uma realidade pouco compatível com os valores das sociedades democráticas. Há quem entre nós  escolha iludir o problema, há muitos que acobardados obedecem à ditadura  politicamente correcto ou do pronto-a-pensar, há alguns, poucos, que esgrimem contra o “fundamentalismo da ofensa”.

Por mais voltas que se dê ao assunto a “guerra” despoletada pela publicação das caricaturas de Maomé é apenas um pretexto usado por alguns no mundo islâmico para reagir ao que os incomoda. E o que é os incomoda? A modernidade ou democracia secular, ou na maioria dos casos ambas. Tem razão José Cutileiro quando escreveu que “ a Europa está ameaçada e de duas uma: ou temos juntos a coragem das nossas convicções e as defendemos ou continuamos medrosos e divididos à espera de mais pancada”.

 

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Dia mundial da liberdade de imprensa

 Desde o ínicio do ano foram mortos 9 jornalistas.168 permanecem detidos assim como 120 netizens.

Neste dia mundial da Liberdade de Imprensa a ONG Repórteres sem Fronteiras, RSF, actualiza a sua lista de 40 “predadores”: dirigentes políticos, religiosos ou organizações terrorristas, criminosas ou mafiosas que têm como alvo preferencial os jornalistas.  “Poderosos, perigosos, violentos, eles estão acima da lei”, sublinha a RSF. Nada mais nada menos que 17 chefes de Estado e numerosos chefes de Governo figuram na lista. Entre eles os “susppeitos do costume” : líderes da China, da Coreia do Norte, do Zimbabwe e de Cuba.

Outro dos “predadores” denunciados pela RSF é o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que aspira ver o seu país tornar-se  membro pleno da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde  já tem o estatuto de observador.

Para ler a lista toda passe pela RSF em www.rsf.org

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Herzlichen Glückwunsch Helmut Kohl !

 

Konrad Adenauer e Helmut Kohl

Estou aqui sentada a pensar no que hei-de escrever sobre Helmut Kohl, que no próximo dia 3 de Abril completa oitenta anos. Não é nada fácil. Escrevo sobre o herói? Ou sobre o vilão?

Vamos por partes.

A minha paixão pela Alemanha começou com Kant, foi alimentada por Heinrich Böll, Günter Grass , Hannah Arendt,  pela mão magistral de John Le Carré e por Helmut Kohl.

Tinha 18 anos quando caiu o Muro de Berlim, acabava de entrar para a Faculdade e começava a despertar para a política. Em Portugal vivia-se um período – desinteressante para uma adolescente em transição para a idade adulta – de coabitação relativamente pacífica entre o primeiro-ministro Cavaco Silva e o presidente Mário Soares, fruto da maioria absoluta do “nós somos um rio” – PSD.

As fugas espectaculares ensaiadas pelos alemães da RDA, a marcha da História a Leste, o fim da fractura que partiu em dois um país e um continente, o sopro da liberdade da Glasnost e da Perestroika, incendiavam a minha imaginação.

Nunca tinha ido à Alemanha, sabia que foi no mesmo país em que nasceu Beethoven que se planeou Auschwitz, e que enquanto se exterminavam judeus no Lager, a orquestra de Auschwitz, composta por músicos também eles judeus, tocava todas as manhãs, todos os fins de tarde perto dos portões do campo Schumann, Dvorak, árias de Puccini, Verdi. E tinha de estar disponível para tocar a qualquer hora para os SS com vontade de descontraír ao som de música depois de um dia passado a decidir quem iria ser mandado para as câmaras de gás.

Conhecia a singularidade do Holocausto e os temores que uma Alemanha unida suscitava. Por isso quis perceber o que fazia mover Helmut Kohl, o gigante alemão, a quem os de fora chamavam chanceler da Europa e os dentro durante muitos anos alcunharam “Birne” (pêra).

 Quando decidi emigrar para a Alemanha Kohl cruzou-se no meu caminho. Uma das primeiras reportagens que fiz para o “Público” foi o comício de encerramento da campanha eleitoral da CDU em 1998. Na cidade onde havia começado a sua carreira política, Mainz, Helmut Kohl, que já pressentia que sua hora de abandonar o poder havia chegado, fez um discurso admirável, comovente. No final os milhares de militantes que enchiam a Praça da Catedral puseram a mão no peito e cantaram o hino nacional, algo que na Alemanha de então não era “normal”. Despediam-se do patriota, homenageavam o homem que cumpriu o desígnio da reunificação alemã . Uma Alemanha em paz com os seus vizinhos e ancorada na Europa.

Dois dias mais tarde em Bona, a 27 de Setembro de 1998. Silêncio na Konrad-Adenauer-Haus. Um monumento político desce lentamente as escadas. O “chanceler da reunificação” e da Europa, Helmut Kohl, foi derrubado por um promissor político social-democrata, Gerhard Schroeder. A geração de 68 chega ao poder com a promessa de resolver a “Reformstau”, o engarrafamento de reformas, agilizar a economia, modernizar o país e reduzir drasticamente o desemprego. Da promessa restam o abandono da energia nuclear, a primeira lei de imigração na Alemanha  e a reforma do mercado de trabalho. Schroeder e Fischer são agora consultores  milionários.

Desde que Helmut Kohl deixou a chancelaria federal muita coisa se alterou na Alemanha e também na relação difícil que o país tem com um dos seus políticos maiores.

Se a Alemanha do pós-guerra se definisse num número seria o três: Konrad Adenauer, Willy Brandt e Helmut Kohl.

Helmut (Couve) Kohl

A distância temporal torna os julgamentos menos amargos. Um exemplo?

Décadas a fio o influente semanário alemão “Die Zeit” cultivou uma aversão. Nas mãos da nobreza prussiana, de intelectuais protestantes e da fina-flor da finança hanseática, que lhe conferia uma espécie de tripla aristocracia, o semanário de Hamburgo não suportava o político provinciano, católico e pequeno burguês Helmut Couve ( Kohl). Com o artigo “ Ele, a história e nós”, publicado na sua edição da semana passada, o semanário retrata-se. Reconhece a sua arrogância, a luta de classes. “Mesmo que nos doa muito escrever isto. Helmut Kohl é um grande alemão”. Grande nas virtudes e nas fraquezas.

 O seu inultrapassável instinto político e os ideais de toda a vida – o “Nie Wieder”, nacional-socialismo nunca mais, que o acompanhou no seu percurso político – levaram-no a saber sempre distinguir o acessório do fundamental. E Kohl nunca contemporizou no fundamental. “A essência da questão alemã é a liberdade”, disse-o horas depois da queda do Muro. E, é por isso que os alemães lhe perdoaram tudo: o silêncio mantido até hoje sobre os doadores secretos, o sistema de vassalagem e intrigas instalado no partido.

( mais aqui num texto que escrevi para a Visão).Kohl

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