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Isabel dos Santos, petrodólares e abutres

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A realidade não é a preto-e-branco. Certo. Mas em alguns momentos é tão previsível. Como esta notícia . Isabel dos Santos, a filha mais velha do presidente de Angola, tornou-se na primeira bilionária africana, segundo a revista norte-americana Forbes.

As ações de empresas cotadas em Portugal, caso do BPI e da ZON, juntamente com activos em Angola, “elevaram o valor líquido da fortuna da engenheira acima da fasquia de mil milhões de dólares, fazendo da empresária de 40 anos a primeira mulher bilionária africana”.

Formada em engenharia no King´s College de Londres, Isabel dos Santos abriu o seu primeiro negócio, em 1997 : um restaurante chamado “Miami Beach”, em Luanda.  Em menos de duas décadas tornou bilionária. E ainda dizem que não há coincidências.

Por uma dessas ironias da vida, esta notícia surge quando faz exactamente um ano que Pedro Rosa Mendes, o jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, saneado da RDP, por criticar  Angola.

Na altura escrevi que  as  palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo.

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza, é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Se isto não é obsceno, o que será?

 

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Arquivo Digital sobre as lutas coloniais

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A Fundação Mário Soares vai lançar, na sexta-feira, uma plataforma que disponibilizará na Internet documentos de arquivos públicos e privados dos países de língua portuguesa, pretendendo auxiliar principalmente os investigadores.

“Trata-se de criar uma plataforma de uma comunidade de arquivos de língua portuguesa, juntando arquivos públicos e privados, desde já alguns de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor-Leste e do Brasil”, disse à Lusa Alfredo Caldeira, administrador do arquivo e biblioteca da Fundação Mário Soares.
Os documentos (entre textos, fotos, vídeos e áudios) estão disponíveis para consulta pública no sítio eletrónico http://www.casacomum.org.

“Neste momento, já estão cerca de 1.500.000 páginas online e vai crescer, pouco a pouco, a partir do lançamento”, sublinhou Alfredo Caldeira, coordenador do projeto.  O responsável declarou que, no dia 20 de janeiro, estará disponível
um novo arquivo, sobre Amílcar Cabral — um dos principais líderes na luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde -, com cerca de 40 mil documentos. “A ideia é que um investigador, esteja em Nova Iorque ou em Bissau, possa aceder à documentação de interesse que outros arquivos disponibilizaram”, afirmou.

Os arquivos estão “bastante centrados na história das lutas de libertação e de resistência, mas também de personalidades de variados tipos que podem ser interessantes”. Os documentos são, principalmente, dos séculos XIX e XX, mas também há documentação histórica mais antiga, remontando ao século XVI.  “A Fundação produziu a plataforma informática (do sítio eletrónico na Internet). Por enquanto, somos nós que faremos a gestão, sobretudo por razões técnicas”, afirmou.

Estão disponíveis para consulta documentos, entre outros, do Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe, do Arquivo Histórico da Resistência Timorense, do Arquivo Mário Soares, do Arquivo Mário Pinto de Andrade (sobre Angola), do INEP (Bissau), e documentos de personalidades como Malangatana Valente Ngwenya, Abel Salazar e Bento de Jesus Caraça.
LUSA

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Aerograma

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Não sei se se lembram dos “bate-estradas” ou “corta-capins”, os aerogramas enviados aos e pelos soldados portugueses no Ultramar? Pedaços de papel que aquietavam ou desassossegavam corações. Chegavam sempre atrasados à vida, embora eternizassem momentos. Que não dariam eles para trazer palavras com olhos? Iluminando poentes cor de sangue. Iludindo o medo, as emboscadas, a solidão debaixo das folhas dos cajueiros. Tornando mais curtos os dias que faltavam a o final da comissão.

 Estima-se que em treze anos de guerra colonial 200 milhões de aerogramas tenham sido recebidos e enviados. Neles se testemunha o catálogo de horrores da guerra colonial, os silêncios e as lágrimas engolidas. Mas também os gritos de amor e um agarrar desesperado à bóia uma réstia de normalidade (seja a matança do porco ou a esperança que o Sporting vença o Benfica).

 O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa catalogou parte desta correspondência esquecida. Pesquisando, entre muitos aerogramas, embaciaram-se-me os olhos com um enviado de Ambrizete, Angola, para Ponta Delgada. Escrito por um filho para uma mãe. É a transcrição de um poema da angolana Alda Lara,”Toada da Menina Bela”, acompanhado da seguinte anotação: “como em Ambrizete não encontrei cartões próprios para este dia, resolvi transcrever o poema e enviá-lo com um grande beijo para o dia de hoje. Para menina bela (e sem “birras”) que é a minha mãe”.

Notas à margem: Como eu gostava de ter os aerogramas trocados entre os meus pais.

A poesia da Alda Lara lembra-me a minha mãe-negra guineense, de quem só tenho uma fotografia ( onde estou ao colo dela) e as palavras sussurradas na despedida: “quem vai embalar a menina?”.

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Princípios, guerra, pobreza: anotações à margem do Natal

1.O eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência.

Deixem-me fazer aqui um parêntesis para vos falar do F. Conheci-o no local onde costumo tomar café e ler o jornal. Cruzamos-nos muitas vezes, sem termos trocado palavras. É um velho que traz no rosto a geografia da vida e se esconde sempre por detrás de um livro. Um dia eu trazia comigo um livro sobre judeus alemães e ele pediu-me desculpa e perguntou “é judia”? Respondi-lhe que não, que estava a fazer uma investigação. Quis revelar-me um segredo.

No mais improvável lugar de todos para ter esta conversa, aquele alemão quase com noventa anos (nasceu em 1925), recuou dezenas de anos rumo ao passado. Esta conversa não vai ser fácil, apetecia-me providenciar o meu desaparecimento, mas decido ficar. F. contou-me que havia sido convocado para a Wehrmacht, já próximo do final da guerra, a família tinha sido fervorosamente pró-nazi na década de trinta. Ele vivia no terror de matar ou ser morto. Quando chegou a inevitável convocação resignou-se. “Não tive coragem de desertar, nem de resistir. Fui um cobarde”. Desceu ao Inferno. Disparou vezes sem conta, para não morrer teve de ser ele a matar, tiro à vista, o ódio no branco dos olhos. Quase morreu de frio. Memórias difíceis de serem ditas. Acabou prisioneiro de guerra na Rússia. Ensombra-se-lhe o olhar. Arrepio-me. Sinto-me gelada por dentro. Comove-me aquele velho, quebrado, que espera o impossível, que lhe perdoe, eu, interposta pessoa, em nome às vítimas de uma ideologia demente. Repugna-me o jovem nazi que foi. Um dilema terrível.

Disse-me que depois da guerra estudou Literatura, que as palavras de autores judeus, que demorou anos até conseguir ler, foram o passaporte para entender o seu crime, o crime, a ignomínia da Alemanha. ” O que é terrível procuramos a verdade é quando a encontramos”. “Há um limite. Não me perdoo não ter resistido. Não é verdade que tudo passe. Carreguei toda a vida a vergonha e o pesadelo. Estou quase a morrer. Os sobreviventes estão a desaparecer. Mas o horror, esse lugar que ninguém admitir existiu. Existe. Obrigada por me ter ouvido” .

F. levantou-se e deixou-me com a minha angústia em frente a uma chávena de cappucino frio.

Esta conversa sobre o território vasto do horror fez-me admirar ainda mais aqueles que tiveram a coragem de resistir, de contrariar o eterno destino dos princípios.

2. Este longo parêntesis serve de prelúdio para um ensaio, “Portugal, Finis Terrae”, publicado na Lettre International alemã, onde entre muitos outros aspectos se fala da relação entre Portugal e Angola.

“Angola é hoje Circus Maximus da nova exploração colonial num projecto de capitalismo de rapina sob a égide de um regime de origem e carácter estalinista”. Este binómio, Lisboa-Luanda, inverteu-se no entanto, numa espécie de vingança histórica. “Hoje são os filhos e os netos dos colonialistas portugueses que trabalham nos estaleiros, pedreiras e na construção civil como semi-escravos dos antigos “nativos” e “assimilados” da “Província Ultramarina” que era o orgulho de Salazar”. Sem Angola, escreve Pedro Rosa Mendes,”Portugal seria incapaz de sobreviver. O que coloca a questão, como nos anos setenta, da soberania, não de Angola, mas a nossa”.

“A nação portuguesa ( de nove séculos!!) confronta os seus mitos com a realidade da sua existência periférica e recicla na “lusofonia” o discurso do excepcionalismo português cozinhado a partir do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A pobreza enfim volta a ser condição normal do cidadão português médio. Resignação, rancor e inveja social – marcas ancestrais de uma população que poucas vezes teve a coragem de ser povo para mudar o seu destino – formam o código operativo de sobrevivência individual”.

Embora não concorde com tudo o que Pedro Rosa Mendes escreve neste ensaio, um retrato feroz do país onde o prestigio social do “Schein” (parecer) é muito mais forte do que o do “Sein” (ser), considero a sua leitura indispensável. “Há uma geração os portugueses viviam abaixo das suas possibilidades, o cidadão médio consumia um copo de leite por dia, um pedaço pequeno de carne por semana, três ovos por mês e um frango por ano”. O país não andará muito longe de regressar a este passado, muito por culpa dos cúmplices de Salazar: as nossas “elites” . “Exemplo mais grotesco? O ministro Miguel Relvas” ( e mais não traduzo, ide ler, ide).

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Anjos

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Correm as horas. Vorazes. Dizemos que não temos tempo, quando nunca fomos tão livres para escolher o que fazer com ele. Vivemos num palco de extraordinárias expectativas, inatingíveis. Quantas vidas vivemos por procuração? Ou quanto medo temos de ser sentimentais, num mundo asséptico de sentimentos?

 Mas há, na era do individualismo e da indiferença quem nos devolva candura, quem nos encha o firmamento de pontos de luz, quem se recusa a ver no sofrimento uma abstracção e age.

Hoje chegaram-me duas histórias reais. A de um jovem polícia nova-iorquino que ao ver um sem-abrigo sem botas, entrou numa loja, comprou um par de meias grossas e umas botas. Um gesto sem preço, bem mais valioso que os 75 dólares que gastou. “Eu tinha dois pares de meias e ainda tinha os pés frios”. Ser-se sem abrigo nos Estados Unidos é uma abominação. É quase uma condenação. À solidão, à doença, à miséria e à injustiça. Um sem-abrigo é invisível aos olhos insensíveis da sociedade. O gesto do polícia foi registado por telemóvel e comoveu milhões de americanos. Às vezes a solidariedade precisa de um abanão.

A segunda história aconteceu aqui na Alemanha, sobriamente, sem holofotes. Duas mulheres fizeram muitos quilómetros de estrada para visitar um menino angolano de onze anos – vítima de uma mina anti-pessoal e que irá ser operado num hospital da antiga RDA – e para ler à pobre criança apavorada histórias infantis em português. Um verdadeiro conto de Natal.

Estes anjos, e felizmente ainda há tantos, não precisam do meu agradecimento, mas faço-o “em nome dos que dormem ao relento/Numa cama de chuva com lençóis de vento/O sono da miséria, terrível e profundo”. O Natal? São eles. O eu pelo outro.

PS – Já agora deixo aqui um apelo:

“Há crianças doentes em Berlim, sozinhas num quarto de hospital, que só precisam de quem fale português com elas – ajude-nos a ajudá-las!

Em Berlim e arredores há várias crianças angolanas internadas em hospitais para tratamentos muitas vezes demorados, e que não falam alemão nem têm nenhum contacto social para além dos médicos e enfermeiras. Ficam na Alemanha, longe dos seus familiares, semanas e muitas vezes até vários meses, antes de terminarem os tratamentos e poderem regressar ao seu país de origem.

A sua vinda para a Alemanha é assegurada por organizações de ajuda humanitária que possibilitam a essas crianças tratamentos e curas hospitalares às quais de outra maneira nunca teriam acesso.

Elas precisam antes de tudo de conversar em português, de alguém que traduza os seus medos e as suas necessidades às equipas dos hospitais, e também quem lhes traduza a elas quais os procedimentos, operações e tratamentos que lhes vão ser aplicados.

Algumas crianças nem sabem que estão na Alemanha. Sabem que estão num lugar estranho, longe dos pais, doentes, com muitas dores, „presas“ a uma cama e sem conseguirem comunicar.

As equipas dos hospitais são regra geral extremamente competentes e estão empenhadas em proporcionar às crianças o melhor tratamento possível. Mas sem compreenderem a língua, estas crianças têm medo do que lhes vão fazer, não entendem o que está a acontecer e passam o dia sozinhas.

O magazine Berlinda.org apela a todos os falantes de português que dêm um pouco do seu tempo para aliviar a vida destas crianças.”

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O mundo é um T0

“Meme” (Grande mãe) Helen. Gostava que acompanhasse hoje uma reportagem importante. É aqui perto. E é muito importante”. Não havia como recusar o pedido da directora da NBC Oshiwanyama.

Perguntei qual era o tema: o início (simbólico porque estamos em época de chuvas) da construcão de uma estrada de gravilha, com a presença do ministro do Trabalho e Transportes. Num país novo como a Namíbia, onde faltam infraestruturas para ultrapassar o isolamento das populações, um grande acontecimento. O “aqui perto” era lá onde acaba a estrada, a mais de 350 quilómetros de Oshakati, num lugar encostado à fronteira com Angola tão remoto que nem consta no mapa. Areia até ao fim do olhar em qualquer direcção. Três tendas brancas montadas para a ocasião.Novembro é mês de chuvas e ventos.

A hospitalidade namibiana concedeu-me um lugar na tenda, em frente ao pódio erguido para os discursos, com uma alcatifa cinza a cobrir a areia e o luxo de cadeiras de plástico forradas de tecido branco. Quando deixei de observar fascinada os trajes coloridos das mulheres, o fato cor de caramelo do governador da região combinado com uma camisa vermelho viva saída de um filme do anos setenta, e contar os cães magros que corriam pela areia, acabaram os discursos. As mulheres levantaram-se e entoaram cantares tradicionais. Imaginem o que é estar num lugar que nem vem no mapa e ouvir a dada altura: “Viva SWAPO ( o partido da independência namíbiana). A luta continua. A vitória é certa.” Em português.

Quando cheguei a Oshakati, vinda de Windhoek, a primeira imagem que retive desta cidade em terras de fim de mundo foi a mais improvável de todas: a Torre de Belém. Eu explico à entrada da cidade fica o Hotel Rocha’s que ostenta uma enorme bandeira portuguesa e outra angolana ( tenho de ir “investigar”) cujo logotipo é a Torre de Belém. Okuti kwa dala ( bem vindo a casa depois de uma longa viagem).

O mundo sempre me pareceu um T0 (a pedido do Rui Zink eu explico: “tzero”).

PS- As recomendações do meu amigo são todas verdade. Não provei os Mopani.

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Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

- “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

- “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

- “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

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Consegue Eduardo dos Santos dormir descansado?

Luanda tem uma das mais belas baías do mundo, uma beleza de cartão-postal, mas não é isso que me impressiona. O que me impressiona é a cacofonia, o som confuso, caótico, milhões enlatados num espaço que não foi pensado para tantos. Pujança e pobreza. Felicidade e infelicidade. Ostentação e luta pela sobrevivência. A melodia de Luanda é o som colectivo da desordem da Humanidade. Há quem lhe seja insensível.

No dia do aniversário do Presidente angolano, 28 de Agosto, a filha, Isabel dos Santos, deu uma uma entrevista à televisão pública TPA. Bem vestida, bem penteada.A empresária, uma das mulheres mais ricas e poderosas de África, descreveu o pai como alguém “inteligente” e um avô “excepcional”, com muito “afecto pelos netos”. Não dúvido. Como qualquer pai ou mãe, ou qualquer avô, o Presidente deseja a felicidade dos filhos, dos netos.

Das janelas dos palácios do clã presidencial, onde o ar condicionado regula a temperatura e tudo está preparado para evitar surpresas “desagradáveis” como a destituição, o olhar não se alarga até Bengo, Kwanza-Sul, Benguela, Huíla, Namibe, Cunene, Moxico, Bié, Huambo e Zaire. Aí, os milhões do petróleo não chegam e dúvida-se do futuro grandioso de Angola. Quem tem a barriga vazia em que pode acreditar? Aí, denunciam as Nações Unidas, mais de meio milhão de crianças com menos de cinco anos sofrem de grave desnutrição, vidas adiadas antes de começarem. Aí, entre 20 a 22 mil meninos e meninas podem morrer de fome este ano.

O Presidente assiste a isto e chama natural? Como pode dormir descansado e brincar com os netos? E nós quantas vezes ficaremos em silêncio perante a atrocidade? A atrocidade da fome com a máculada crueldade repetida. Amar o outro é ter a capacidade de olhar para o já visto, e nos incomoda, para o já nomeado, e arquivado nos esconsos da memória, como se não o conhecêssemos. Desviar o olhar mata.

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Ligações perigosas

Lembrei-me hoje do retrato de Maquiavel, no Palazzo Vecchio, em Florença. Nessa pintura o aristocrata florentino tem um sorriso enigmático, de Giocconda, os lábios cerrados refreiam a emoção, reforçam a impenetrabilidade, e o olhar parece zombar da cupidez dos homens.

Maquiavel, tido como o pai da ciência política, adoptou o realismo político, sem ilusões e justificar todas as perfídias como meios para alcançar um fim. Para ele política significava não ter medo de sujar as mãos, mesmo de sangue.

Lembrei-me de Maquiavel a propósito de um país “especial”, declinado em volume de negócios e novas vias de internacionalização. Mas sem estatísticas para o sofrimento, para a dor, para os náufragos da guerra. E para o exército de excluídos.

“Quando se escrever a história de Angola dos últimos 20 anos, de guerra e paz, a corrupção e os poderes extraordinários de figuras estrangeiras junto do Presidente José Eduardo dos Santos, na tomada de decisões estratégicas e soberanas, revelar-se-ão como instrumentais”, escreve o activista do direitos humanos Rafael Marques.

“Durante a guerra pós-eleitoral, duas figuras estrangeiras tornaram-se sinónimo de poder presidencial em Angola: o russo-israelita Arkady Gaydamak e o franco-brasileiro Pierre Falcone, ambos traficantes de armas”.

O  negócio de armas expandiu-se para o sector dos diamantes e a família presidencial, por via de Isabel dos Santos, foi das principais beneficiárias. As revelações constam de vários documentos submetidos a um tribunal de Londres, onde Arkady Gaydamak apresentou queixa contra o seu ex-companheiro de negócios em Angola, Lev Leviev, e cuja sentença foi proferida a 26 de Junho de 2012.

PS- Quem se interesse pelo tema pode ler na íntegra aqui.

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Tudo tão previsível…

Como actores num clássico bem ensaiado, os políticos portugueses, a União Europeia e as Nações Unidas têm repetido o catecismo do regresso “à ordem constitucional na Guiné-Bissau”. Não podia estar mais de acordo. O que eu ainda não ouvi ainda ninguém dizer é até onde se está disposto a ir para que tal suceda.

Houvesse a mais leve intenção de resolver a crise guineense há uma coisa evidente que se podia fazer: estacionar um contingente das Nações Unidas no país, com um mandato robusto e deter todos os envolvidos -  militares, políticos, civis, jagunços -  nos golpes e violências dos últimos anos. Numa frase: pôr fim à impunidade.

Estarrecedor é que, uma vez mais, aos olhos de todos se formou a tempestade perfeita em Bissau, sem que ninguém se tenha detido a analisar a sua seriedade e consequências. A sublevação militar em Bissau era evidente, estavam lá os sinais todos, os serviços de inteligência alertaram, Luanda, sabia, Lisboa sabia, Paris sabia, as Nações Unidas sabiam, até o próprio Carlos Gomes Júnior, o primeiro-ministro deposto e candidato presidencial, reconheceu numa entrevista dada ao DN que tinha conhecimento que um golpe de Estado estaria a ser forjado.

Pergunto-me porque é que a CPLP se mostrou, é um déjà vu, impotente para a agir a tempo e com a determinação suficiente quer para travar o golpe, quer para evitar esse absurdo que é o “governo de transição” legitimado pela CEDEAO, sob a batuta da Nigéria, país com um registo de violações dos direitos humanos mais tóxico do que o delta do Níger?

Assistimos à surreal situação da Guiné-Bissau ser, desde esta semana, um país com dois Governos. Um de jure, legítimo, eleito, e no exterior do país, outro, no interior, “de transição”. A pergunta que se impõe e a que ainda ninguém respondeu é “transição” para quê? E as tropas da CEDEAO que já chegaram ao país vão incumbidas de que missão? Reformar as Forças Armadas? Deixem-me rir. Garantir a segurança e estabilidade no país? Não é preciso perder mais do que alguns minutos no Gooogle para se descobrir relatos de abusos cometidos por militares oriundos de países da CEDEAO. Para tornar a situação ainda mais complexa a MISSANG ainda não se retirou do país. Angola e Nigéria enfrentam-se na Guiné pela influência na região da África Ocidental.

Em Bissau avolumam-se os rumores, tão comuns como os abutres, que um contra-golpe, organizado pelo PAIGC possa estar a estar preparado. Não quero ser Cassandra, mas a acontecer seria um banho de sangue.

A actual crise que se vive na Guiné, não obstante o discurso do regresso “normalidade”, é gravíssima. Quem se interessa um pouco por história africana sabe que as Libérias do continente se fizeram de uma combinação de ingredientes: anarquia, etnicidade, impunidade, crime organizado. Estão lá todos.

Que Deus  e os irans protejam a minha Guiné.

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Brincar à roleta russa na Guiné-Bissau

O que se vive na Guiné-Bissau, apesar da aparente reposição da ordem democrática, depois do golpe de Estado de 1 de Abril de 2010 e do golpe falhado de 26 de Dezembro de 2011, é tudo menos normalidade. Olhando para as páginas da imprensa portuguesa, de onde o país desapareceu, ninguém parece dar por isso. Adiante.

Coincidindo com a visita do ministro angolano dos Negócios Estrangeiros, Georges Chicoti, a Bissau, as Forças Armadas guineenses convocaram hoje uma conferência de imprensa anunciando a retirada da MISSANG, a missão militar angolana na Guiné-Bissau. Declarações que não foram confirmadas por Luanda* até ao momento e que contrariam as feitas pelo governo guineense na quarta-feira passada (04.04).

Na semana passada o executivo guineense afirmou a sua “firme determinação” não só em manter a MISSANG no país, como também em reforçá-la. Garantiu ainda que a presença da missão militar reflecte a vontade dos executivos guineense e angolano. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, Mamadu Saliu Djaló Pires, seria “grave” se a missão angolana chegasse ao fim.

Embora sejam conhecidas as razões formais por detrás desta tomada de posição dos militares guineenses – o armamento detido pelos militares angolanos na Guiné, que as FA guineenses sentem, por um lado, como uma ameaça e, por outro, gostariam de vir a receber, e uma eventual ofensa ao chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai. O embaixador angolano em Bissau, general Feliciano dos Santos, ter-lhe-á perguntado se estaria a forjar um golpe de Estado, visto Angola ter informações nesse sentido – não foram apresentadas razões substantivas.

A confirmar-se o afastamento dos militares angolanos, que apesar de inúmeras críticas que lhe podem ser feitas têm sido o garante de alguma estabilidade no país, a Guiné mergulharia numa nova espiral de incerteza. Carlos Gomes Júnior escapou ileso à mais recente tentativa de golpe de Estado em Dezembro de 2011 graças à protecção angolana. Sem a guarda pretoriana angolana por perto são muitos os que na Guiné acreditam que o líder do PAIGC vive no fio da navalha. Pode Carlos Gomes Júnior, com grande probabilidade o próximo Presidente, coabitar com  António Indjai, um homem que o ameaçou de morte? Quem mais beneficia com a fragmentação e instabilidade da Guiné-Bissau? Divide et impera. A resposta parece-me óbvia.

Os militares tomaram definitivamente o Estado guineense como refém? Até hoje, nenhum presidente da Guiné-Bissau completou o seu mandato constitucional de 5 anos. E em 9 anos, 3 chefes de Estado Maior foram assassinados. Os motivos exactos dos assassinatos de Março de 2009  – Nino e  Tagmé – e de Junho de 2009- Baciro Dabó e Hélder Proença –   e os respectivos culpados  continuam por identificar, o que reflecte a incapacidade do sistema judicial e a impunidade generalizada que grassa na Guiné-Bissau.

Como se este braço de ferro entre políticos e militares não fosse suficiente, no plano político mantém-se o impasse. Este fim-de-semana o Supremo Tribunal de Justiça indeferiu o pedido de nulidade das presidenciais apresentado por cinco candidatos às presidenciais. As queixas foram apresentadas pelos candidatos Serifo Nhamadjo, Kumba Ialá, Henrique Rosa, Afonso Té e Serifo Baldé, que não reconhecem os resultados que deram a vitória a Carlos Gomes Júnior. Kumba Ialá, que ficou em segundo lugar, recusa-se a ir à segunda volta das presidenciais.

Adenda:* Luanda entretanto confirmou a saída da Missang da Guiné-Bissau

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Hoje não houve chocos

Busto de Amílcar Cabral, Bissau 2012

Quero contar-vos uma história africana. Se as histórias têm princípio esta começa no busto de Cabral. Não o Pedro, mas o Amílcar. O primeiro procurava a Índia e fugindo dos ventos alísios, por puro acaso, descobriu o Brasil. Erro fecundo. O segundo procurava um país, cujo nome paterno não fosse Escravo e criou uma ficção. Erro trágico.

Poucas visões serão tão fantásticas e premonitórias, como a do busto mal-tratado, empoeirado, de Amílcar Cabral, de costas voltadas para a Avenida que traz o seu nome, em Bissau. Amílcar e a Guiné? Um casal irreconciliável. Sucessivos políticos e militares, não há nada mais volátil que heróis quando acaba a guerra, traíram Cabral e os guineenses. Um povo amável, generoso e extraordinariamente calmo, a quem os cínicos chamariam apático.

Pode-se andar a pé com descontracção por Bissau. Perguntam-lhe com delicadeza se quer comprar bananas, mangas, mancarra ou crédito para o telefone e aceitam com facilidade um não. Difícil de repetir, a dignidade da pobreza em Bissau. Difícil andar assim noutras cidades africanas. Os guineenses são bon sapatu pe jingidu (sapato bom em pé torto). Equivocaram-se de país.

Se fosse um romance a Guiné-Bissau seria um romance negro, obsessivo, cheio de figuras sinistras, golpes de Estado, execuções, impunidade, traições, conspirações, violência brutal. De tal forma que o leitor, a dado momento, pensaria que o escritor entrou  em modo contínuo, repetindo a trama, capitulo após capítulo. Sintetizemos o pleonasmo: Amílcar Cabral foi assassinado, Nino afastou Luís Cabral, Ansumane Mané expulsou Nino para o exílio, Kumba Ialá permitiu que os militares balantas eliminassem Ansumane, os militares afastaram Kumba e mataram mais tarde, o líder do golpe, o general Veríssimo Seabra. Tagme na Waie foi assassinado, horas depois os militares matariam Nino Vieira. Zamora Induta foi afastado da chefia das Forças Armadas por António Indjai. Na noite deste domingo um novo assassinato, o do ex-chefe da secreta militar, Samba Djaló, que terá morto ou estado envolvido na morte de Baciro Dabó. A lista de cabeças a prémio parece não se ter esgotado ainda.

Domingo levantei-me bem cedo. Céu azul de Verão. Podia dizer que cantavam os galos, mas eles cantam com tanta frequência nas ruas de Bissau. Mais numerosos que eles só os abutres. Deixei a ilha que é a Residencial Coimbra, subi a Amílcar Cabral e assisti à abertura de uma mesa de voto. Falar em abertura é quase redundante quando a mesa de voto é ao ar livre, em pleno passeio. Às sete da manhã já havia fila para votar, numa cabine de papelão. Comove-me sempre esta não desistência, impressiona-me este acreditar. Si bu misti kume fruta, bu ten ku régua (se quer comer fruta, tem de regar a planta).

Eram oito e dez quando entrei na Catedral. “A que horas é a missa?”, perguntei. “Às oito”. Os vinte minutos que se seguiram permitiram-me conhecer a Clemência, uma menina de idade indefinida, que mal me viu encostou o braço ao meu, depois tocou-me no cabelo. “Gosto de ti mamã. És esquisita”. E sorriu-me. Instantes como estes justificam todas as incomodidades.

Sai da Catedral e palmilhei o centro de Bissau, quase de ponta a ponta. Fotografei a barbearia Chiado e as casas em ruínas de Bissau velho. Vi o candidato favorito, Carlos Gomes Júnior, votar a trinta centímetros, senão menos, de distância, espetei-lhe o microfone no nariz, porque esfera de distância pessoal é algo desconhecido pelos colegas guineenses. Em Roma se sê romano.

Pouco tempo depois da “festa da democracia” assisti a uma tentativa de silenciamento, na Comissão Nacional de Eleições guineense, de um jornalista cabo-verdiano, por parte do adido de imprensa da embaixada angolana. A influência descarada de Angola na Guiné não parece fazer pruridos a ninguém. Ingenuamente, ou talvez não, um colega simpático de um órgão estatal angolano, disse-me: “agora é mais fácil pedires o visto de jornalista, nós [Angola] temos quem trate disso e que pode acompanhar-te em Angola”.

Sai da Comissão de Nacional de Eleições e fotografei Amílcar. Pensei no meu pai que aos vinte anos combateu em nome de um crime chamado colonialismo e de um ditador bafiento e provinciano. Deixou no mato a juventude e os sonhos. As cicatrizes da guerra fizeram dele um ausente, não passou pela vida, a vida passou por ele. A minha Guiné, escrita a sangue em Boé e em Pindjiguity, livre, independente, privou-me de pai. Trair Cabral, é trair os guineenses, mas também, desculpem o egoísmo, atraiçoar-me a mim.

Acabei o dia a jantar, no quarto, ananás comprado na berma da estrada, em vez de chocos grelhados nesse improvável restaurante ao ar livre , o Porto, situado em frente à Coimbra, que serve pratos inesperados como cozido à portuguesa ou dobrada. Serviram-me à sobremesa um assassinato. Eu não disse que a Guiné é uma ficção?

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(Mais) uma boa razão para ler o Público

“ Angola, os mitos e a realidade em discurso directo pelos emigrantes portugueses”, é o título de um excelente trabalho jornalístico do Público. A ler para quem não quer andar às cegas. Trata-se de um ensaio sobre a nova vaga migratória portuguesa, comparável à dos anos 1960, sobre os riscos profissionais que se correm, sobre a corrupção endémica, sobre um país onde o bafo dos serviços secretos se sente de perto, e que, apesar do crescimento económico de dois dígitos, aparece no lugar 148 (em 187 países) no último relatório das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano.

Eu pertenço aqueles que ainda acreditam a imprensa escrita contribui para a formação da capacidade crítica de pessoas livres. Tem, ou pode ter, uma espessura e densidade analítica que ultrapassa a espuma dos acontecimentos. É mais de que um apontamento rápido num blogue, duas linhas no facebook ou no twitter.

Não sei se vos inquieta, mas a mim sim: porque será que em Portugal se gasta 30 euro numa garrafa de vinho ao jantar e não investe menos de dois euros por dia num jornal?

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Coisas de espantar (ou talvez não)

Há em Portugal, muita gente, jornalistas incluídos, que é alérgica ao Pedro Rosa Mendes. Por motivos variados.  Não andarei muito longe da verdade ao presumir alguma invejazinha por detrás da “alergia”. Adiante.

Recentemente o i noticiava o suposto pedido de desculpa de Pedro Rosa Mendes ao presidente angolano. Artigo que rapidamente se espalhou pelos murais do Facebook.

Na prosa em causa, Aldemiro da Conceição, antigo porta-voz do presidente angolano, garantiu ao jornal que o escritor “foi em 2002 ao Palácio Presidencial, em Luanda, pedir desculpa a José Eduardo dos Santos por causa das reportagens publicadas no “Público” em 1999”, onde eram denunciados a corrupção generalizada, os orçamentos paralelos, o tráfico de armas, os negócios à margem do Estado, as ligações ao submundo internacional. No centro desta teia: o Futungo de Belas e os Generais.

Segundo o padrinho de casamento de Isabel dos Santos, o jornalista nunca se encontrou “presencialmente com o presidente, mas entregou-me o pedido de desculpas a mim”. O artigo do i prosseguia com as declarações de Pedro Rosa Mendes que confirmava a presença no palácio presidencial em 2002  onde que ficou “uma hora dentro de uma sala a olhar par um quadro de proporções norte-coreanas do presidente de Angola”. Findo esse tempo o jornalista deixou o palácio. Em nenhum momento desse artigo se escreveu de forma clara e categórica que Pedro Rosa Mendes desmente ter feito qualquer pedido de desculpas.

 Tendo em conta que de um lado temos a palavra de um regime corrupto, sem escrúpulos, nem remorsos, rodeado de servos medíocres e de outro a palavra de Pedro Rosa Mendes, espanta-me que o título não tenha sido outro. Não acredito que a escolha tenha sido inocente  e talvez não me devesse espantar  com ela, porque a única das virtudes do “caso Rosa Mendes” é pôr preto no branco o que se passa nos  bastidores nos órgãos de comunicação social. Seja a teia de cumplicidades entre os poderosos – da política, da economia, do futebol, da justiça – e as redacções, ou parte delas ( porque tenho para mim que  muitos jornalistas portugueses, seja de meios públicos ou privados, são íntegros e a sua actuação se pauta pelo respeito da ética). Seja as pressões e interferências directas ou indirectas (que não são novas, nem exclusivas deste Governo) ou seja a precarização da profissão de jornalista, que leva muitos a pautar-se pela “lógica alimentar”, autocensurando-se para manter o lugar.

“Vindo da parte de Luanda, esse tipo de acusações apenas me fazem rebolar a rir”, disse-me  Pedro Rosa Mendes em entrevista. “Repetidas por gente em Portugal como têm sido é um insulto. É um insulto porque o meu percurso de jornalista fala por mim. Sou bastante intolerante não só na qualidade da escrita, que tem sido premiada tanto em Portugal como fora, mas também e sobretudo numa baliza ética e deontológica que é quase fundamentalista. Tenho a certeza de que quando peco, peco por excesso e que ninguém me pode apontar nada em 25 anos de jornalismo a esse nível. Esse tipo de acusações é típico de uma situação de desespero de quem já não tem nada. É uma acusação que, na última década, os vários porta-vozes oficiais e oficiosos da presidência angolana e dos seus círculos, incluindo alguns círculos intelectuais, têm repetido. Uma das versões mais delirantes que me chegou é que existe uma célebre gravação do Pedro Rosa Mendes ajoelhado diante do Presidente, a chorar e a pedir desculpa. Adorava que essa gravação fosse posta no YouTube para fazer um sucesso planetário”.

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Inquietações

“Angola inverteu, através do sistema financeiro, a relação colonial: Portugal foi colonizado através da finança, banca, energia e telecomunicações. São sectores vitais que hoje controlam indirectamente o que se pode ou não dizer na imprensa portuguesa. Quem não vir isso é ingénuo. Há uma vaca sagrada que é Angola, não se toca. Se se chama a vaca pelo nome, as coisas dão para o torto – aconteceu há dez anos, acontece agora outra vez.”

Pedro Rosa Mendes em entrevista ao Público de 25.1.2012

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A crónica da polémica

“Em directo de Luanda, a RTP serviu nesta segunda-feira aos portugueses e ao mundo – eu vi aqui em Paris – uma emissão a que chamou ‘Reencontro’ e na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários e comentadores de Portugal  e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local.

O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão para tudo, mas o Reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti. Há até propaganda comestível, quando feita com inteligência, mas nem sequer essa bitola foi conseguida, foi permitida, à emissão. A nossa televisão, a televisão paga por todos e que, de certo modo, é um pouco de cada um de nós, afectiva mas também politicamente,  foi a Luanda socializar com os apparatchik do regime, nos quais deveríamos reencontrar uma Angola irmã, uma Angola feliz, uma Angola nova.

Aconteceu o contrário. Reencontrei nesta emissão a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz. Não no conteúdo, mas no tom, seguro, simpático, veladamente sobranceiro. Aquela gente –  as divas, os engravatados, os socialites – são. ao mesmo tempo, a couraça e as lantejoulas de uma clique produzida pela história recente de um país que combinou uma guerra de 30 anos e uma riqueza concentrada, basicamente, no petróleo.

Oleocracia, chamou-lhe a socióloga francesa Christine Messiant, falecida faz agora anos, e que identificou como ninguém a natureza do poder de José Eduardo dos Santos, do MPLA, da Grande Família e das suas clientelas. Em poucas linhas, a clique angolana, em torno do Presidente, privatizou o Estado, numa teia de clientes da ‘economia política’ angolana e num aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, as contas vitais da República, como a do petróleo, dos diamantes, do Banco Nacional e do Tesouro.

Os generais e barões da economia política fizeram ganhos astronómicos nas comissões dos contratos de armamento, do petróleo, da manutenção militar, por aí fora, e depois usaram esses recursos  em todos os negócios sensíveis, estratrégicos – as empresas de segurança, as companhias de aviação, os sectores das empresas públicas colocados em leasing, as companhias ligadas às forças armadas e à polícia. Um lucro incalculável e, o melhor, legal!

Como bem explicou Christine Messiant, o controlo da economia pelo topo do poder político (juntando as altas patentes e o politburo informal do Partido) usou e geriu a concorrência internacional, beneficiando a conivência, a colaboração ou a assistência de grupos estrangeiros na banca, no sector energético.

É esta, resumindo, a face verdadeira da nova Angola: o novo poder económico é apenas a nova máscara do velho poder político. Uma maquilhagem sofisticada mas óbvia, o bâton da ditadura, parafraseando o grande jornalista Rafael Marques.

Num reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências, teria havido por exemplo Rafael Marques, ou alguém que chamasse à corrupção, corrupçlão, e não, quase a medo, numa única pergunta, ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira.

Quem se encontra com a realidade de Angola, encontra a violência brutal nas Lundas diamantíferas, os despojos da guerra civil no tecido social e produtivo, a conflitualidade social latente entre quem tem o mundo e quem não é sequer dono da sua vida, ou a pobreza dos musseques de Luanda, que não desaparecem com o cair do cetim vermelho de um banco como na publicidade que embrulhou a emissão da RTP. Já agora, gostaria de ter reencontrado outros portugueses: os milhares que vão para Angola em fuga de um país sem esperança, o nosso, como se ia nos anos 50, e, como então, enfiados como semi-escravos e semi-reféns à mercê dos seus patrões – agora angolanos – num estaleiro, numa pedreira ou numa fazenda algures fora do alcance das visitas oficiais que chegam a Luanda.

Nesta emissão, enfim, Portugal confirmou que, como antes os nossos colonos, apenas temos a subserviência quando a situação não nos permite o abuso. É no que estamos. ‘Qual o objectivo do investimento angolano no estrangeiro?’, perguntava a jornalista. A resposta foi dada pela própria emissão: respeitabilidade. Luanda apenas compra aquilo que sabe que não tem.”

Pedro Rosa Mendes

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O Pedro

Disclaimer: O Pedro Rosa Mendes é meu amigo e um dos jornalistas que mais admiro em Portugal. Pela verticalidade, pela seriedade, pelo talento e maestria com que usa as palavras e sobretudo pela Independência.

Trocámos várias mensagens durante a emissão o “Reencontro” na RTP 1 e numa delas o Pedro disse-me “vou escrever uma crónica sobre isto. Nem que seja a última”.

As palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo. O jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, “saneado”. Se isto não é um escândalo, o que será?

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza ,é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Enquanto os políticos angolanos se continuarem a comportar como abutres e os petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” e os “mutilados” servidos pelo Natal a apelar à lágrima. Os angolanos merecem mais, muito mais que isto. Nós portugueses também. E pessoas com a coragem do Pedro merecem uma profunda vénia.

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Occupy África

Não cabe no script. Dirão alguns que este não será o melhor momento para se falar sobre pobreza em África. Com as câmaras atrás dos despojados europeias e os holofotes apontados para os caixotes do lixo gregos. Discordo. Este é seguramente um dos melhores momentos para se olhar para a pobreza extrema. Para os milhões que vivem com menos de dólares por dia e ano sem saber o que é uma casa, uma escola, um hospital, nem água potável ou saneamento básico.

Em demasiados países africanos pude observar o cinismo da política de interesses ocidentais – e dos BRIC, basta ver o que o Brasil, o de Lula e o da Dilma,  anda a fazer por Moçambique –  e que a herança colonialista sobreviveu à(s) independência(s). Achille Mbembe, um dos mais brilhantes teóricos dos estudos pós-coloniais, é acutilante na sua crítica:  “nós [os africanos] somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra”.

 Muito se tem escrito acerca da ascensão dos BRIC e sobre o “deslizamento” a oriente do poder económico. Contudo, a sucess story económica da primeira década deste século é africana. Dos dez países que mais cresceram entre 2001 e 2010 seis foram africanos, com Angola no topo da tabela e Moçambique em oitavo lugar. Segundo a The Economist nos próximos cinco anos as economias africanas deverão continuar a crescer ultrapassando as asiáticas.

Só que a cornucópia da riqueza é restrita a alguns: mais de metade da população destes países vive na mais abjecta pobreza. A explicação em “economês” é a simples: “ as políticas de redução da pobreza centradas apenas no crescimento económico terão um impacto mais limitado nos casos em que os níveis iniciais de desigualdade são elevados e persistentes”.

Traduzindo: enquanto os políticos africanos se continuarem a comportar como abutres e os  petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” servidos pelo Natal a apelar à lágrima das sociedades confortáveis. Os africanos merecem mais, muito mais que isto.

 

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Sustos…

 1. Em Berlim vive-se uma situação deveras curiosa. Um “não-partido” de geeks, chamado os   Piratas, que ganhou os seus galões a defender a liberalização das drogas leves, a privatização da religião, a proibição da videovigilância policial e o fim dos direitos autorais tomou de assalto a Rotes Rathaus. Foi o verdadeiro vencedor da noite eleitoral e colocou todos os membros da sua lista, 15, no Parlamento regional. Metade deles tem menos de trinta anos e apesar de saber mexer bem num computador e não tem a menor noção de política, de finanças ou de economia.

Constato apenas que há um efeito útil neste voto de protesto dos eleitores berlinenses: o de acordar os restantes partidos ditos “estabelecidos”. Para a chanceler e particularmente para o cadáver em que se tornou o partido liberal a noite foi calamitosa o que nada de bom augura na coligação governamental, que aliás entrou em processo suicidário… A Europa que vá pondo as barbas de molho.

 2. Sabe qual é o segundo país no mundo, a seguir ao Afeganistão, onde se regista, segundo dados do Banco Mundial, a maior taxa de mortalidade infantil entre crianças com menos de cinco anos? Dou-lhe uma pista: começa por “a” e a língua oficial é o português… Deixemo-nos de meias palavras ou de pudores politicamente correctos: este índice é uma tragédia vergonhosa. Diria mesmo obscena. Ofende-me que para garantir negócios ou as “relações bilaterais” com Angola seja preciso ser-se conivente a solidão e olhar devastado daqueles meninos.

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A Lunda-Norte ali tão longe, aqui tão perto

São eternos. Quase tão perene como eles é o horror que perpetuam. O brilho de cada diamante angolano é sujo. Encerra um inferno de exploração, humilhação, abuso, tortura, crime e corrupção.

Em “Diamantes de Sangue – Corrupção e Tortura em Angola”, lançado hoje em Lisboa, o jornalista angolano, Rafael Marques – distinguido internacionalmente pelo seu trabalho em defesa dos direitos humanos – denuncia as condições de escravatura sob as quais se exploram as pedras preciosas angolanas. Com a conivência dos Generais, do MPLA e do Estado português (através da sua participação na Endiama, a Empresa Nacional de Diamante de Angola). “Portugal é um dos países que mais apoia e legitima a corrupção em Angola”.

Vale muito a pena ouvir a entrevista de Rafael Marques à DW e ler a entrevista dada ao Público.

Os líderes autoritários temem a sua própria sombra mais do que ninguém. Para se manter 32 anos no poder naquela estrutura cometem-se crimes e são esses crimes, é a ideia do que foi necessário fazer para manter o poder, que os atormenta, não é tanto a população. É como Khadafi. Quando os líbios saíram à rua, e até propuseram negociar com ele, se o tivesse feito, eventualmente tê-lo-iam deixado na sua tenda. É esse elemento que é difícil equacionar no raciocínio dos líderes autoritários: quando dizer basta e largar o poder de forma a que se possam sentir seguros.

E há um outro aspecto importante: os parceiros estrangeiros, que normalmente até alimentam estes regimes. Por exemplo, a saída de José Eduardo dos Santos é vista por muitos portugueses como negativa – estou a falar de grandes grupos económicos, que fizeram investimentos ou absorveram investimentos angolanos por via da grande corrupção e receiam ficar expostos a que toda esta informação venha ao de cima, se o indivíduo que facilita essas engenharias acaba por sair do poder.

Há um grupo muito poderoso de forças económicas e políticas, a nível interno como externo, que o aconselham a ficar, já não tanto porque acreditam nas suas políticas, mas como forma de preservarem os seus negócios, os seus próprios interesses. Ele agora passa a ser refém dos interesses externos e daqueles que o rodeiam.

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