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Isabel dos Santos, petrodólares e abutres

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A realidade não é a preto-e-branco. Certo. Mas em alguns momentos é tão previsível. Como esta notícia . Isabel dos Santos, a filha mais velha do presidente de Angola, tornou-se na primeira bilionária africana, segundo a revista norte-americana Forbes.

As ações de empresas cotadas em Portugal, caso do BPI e da ZON, juntamente com activos em Angola, “elevaram o valor líquido da fortuna da engenheira acima da fasquia de mil milhões de dólares, fazendo da empresária de 40 anos a primeira mulher bilionária africana”.

Formada em engenharia no King´s College de Londres, Isabel dos Santos abriu o seu primeiro negócio, em 1997 : um restaurante chamado “Miami Beach”, em Luanda.  Em menos de duas décadas tornou bilionária. E ainda dizem que não há coincidências.

Por uma dessas ironias da vida, esta notícia surge quando faz exactamente um ano que Pedro Rosa Mendes, o jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, saneado da RDP, por criticar  Angola.

Na altura escrevi que  as  palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo.

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza, é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Se isto não é obsceno, o que será?

 

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Arquivo Digital sobre as lutas coloniais

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A Fundação Mário Soares vai lançar, na sexta-feira, uma plataforma que disponibilizará na Internet documentos de arquivos públicos e privados dos países de língua portuguesa, pretendendo auxiliar principalmente os investigadores.

“Trata-se de criar uma plataforma de uma comunidade de arquivos de língua portuguesa, juntando arquivos públicos e privados, desde já alguns de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor-Leste e do Brasil”, disse à Lusa Alfredo Caldeira, administrador do arquivo e biblioteca da Fundação Mário Soares.
Os documentos (entre textos, fotos, vídeos e áudios) estão disponíveis para consulta pública no sítio eletrónico http://www.casacomum.org.

“Neste momento, já estão cerca de 1.500.000 páginas online e vai crescer, pouco a pouco, a partir do lançamento”, sublinhou Alfredo Caldeira, coordenador do projeto.  O responsável declarou que, no dia 20 de janeiro, estará disponível
um novo arquivo, sobre Amílcar Cabral — um dos principais líderes na luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde -, com cerca de 40 mil documentos. “A ideia é que um investigador, esteja em Nova Iorque ou em Bissau, possa aceder à documentação de interesse que outros arquivos disponibilizaram”, afirmou.

Os arquivos estão “bastante centrados na história das lutas de libertação e de resistência, mas também de personalidades de variados tipos que podem ser interessantes”. Os documentos são, principalmente, dos séculos XIX e XX, mas também há documentação histórica mais antiga, remontando ao século XVI.  “A Fundação produziu a plataforma informática (do sítio eletrónico na Internet). Por enquanto, somos nós que faremos a gestão, sobretudo por razões técnicas”, afirmou.

Estão disponíveis para consulta documentos, entre outros, do Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe, do Arquivo Histórico da Resistência Timorense, do Arquivo Mário Soares, do Arquivo Mário Pinto de Andrade (sobre Angola), do INEP (Bissau), e documentos de personalidades como Malangatana Valente Ngwenya, Abel Salazar e Bento de Jesus Caraça.
LUSA

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Aerograma

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Não sei se se lembram dos “bate-estradas” ou “corta-capins”, os aerogramas enviados aos e pelos soldados portugueses no Ultramar? Pedaços de papel que aquietavam ou desassossegavam corações. Chegavam sempre atrasados à vida, embora eternizassem momentos. Que não dariam eles para trazer palavras com olhos? Iluminando poentes cor de sangue. Iludindo o medo, as emboscadas, a solidão debaixo das folhas dos cajueiros. Tornando mais curtos os dias que faltavam a o final da comissão.

 Estima-se que em treze anos de guerra colonial 200 milhões de aerogramas tenham sido recebidos e enviados. Neles se testemunha o catálogo de horrores da guerra colonial, os silêncios e as lágrimas engolidas. Mas também os gritos de amor e um agarrar desesperado à bóia uma réstia de normalidade (seja a matança do porco ou a esperança que o Sporting vença o Benfica).

 O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa catalogou parte desta correspondência esquecida. Pesquisando, entre muitos aerogramas, embaciaram-se-me os olhos com um enviado de Ambrizete, Angola, para Ponta Delgada. Escrito por um filho para uma mãe. É a transcrição de um poema da angolana Alda Lara,”Toada da Menina Bela”, acompanhado da seguinte anotação: “como em Ambrizete não encontrei cartões próprios para este dia, resolvi transcrever o poema e enviá-lo com um grande beijo para o dia de hoje. Para menina bela (e sem “birras”) que é a minha mãe”.

Notas à margem: Como eu gostava de ter os aerogramas trocados entre os meus pais.

A poesia da Alda Lara lembra-me a minha mãe-negra guineense, de quem só tenho uma fotografia ( onde estou ao colo dela) e as palavras sussurradas na despedida: “quem vai embalar a menina?”.

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Princípios, guerra, pobreza: anotações à margem do Natal

1.O eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência.

Deixem-me fazer aqui um parêntesis para vos falar do F. Conheci-o no local onde costumo tomar café e ler o jornal. Cruzamos-nos muitas vezes, sem termos trocado palavras. É um velho que traz no rosto a geografia da vida e se esconde sempre por detrás de um livro. Um dia eu trazia comigo um livro sobre judeus alemães e ele pediu-me desculpa e perguntou “é judia”? Respondi-lhe que não, que estava a fazer uma investigação. Quis revelar-me um segredo.

No mais improvável lugar de todos para ter esta conversa, aquele alemão quase com noventa anos (nasceu em 1925), recuou dezenas de anos rumo ao passado. Esta conversa não vai ser fácil, apetecia-me providenciar o meu desaparecimento, mas decido ficar. F. contou-me que havia sido convocado para a Wehrmacht, já próximo do final da guerra, a família tinha sido fervorosamente pró-nazi na década de trinta. Ele vivia no terror de matar ou ser morto. Quando chegou a inevitável convocação resignou-se. “Não tive coragem de desertar, nem de resistir. Fui um cobarde”. Desceu ao Inferno. Disparou vezes sem conta, para não morrer teve de ser ele a matar, tiro à vista, o ódio no branco dos olhos. Quase morreu de frio. Memórias difíceis de serem ditas. Acabou prisioneiro de guerra na Rússia. Ensombra-se-lhe o olhar. Arrepio-me. Sinto-me gelada por dentro. Comove-me aquele velho, quebrado, que espera o impossível, que lhe perdoe, eu, interposta pessoa, em nome às vítimas de uma ideologia demente. Repugna-me o jovem nazi que foi. Um dilema terrível.

Disse-me que depois da guerra estudou Literatura, que as palavras de autores judeus, que demorou anos até conseguir ler, foram o passaporte para entender o seu crime, o crime, a ignomínia da Alemanha. ” O que é terrível procuramos a verdade é quando a encontramos”. “Há um limite. Não me perdoo não ter resistido. Não é verdade que tudo passe. Carreguei toda a vida a vergonha e o pesadelo. Estou quase a morrer. Os sobreviventes estão a desaparecer. Mas o horror, esse lugar que ninguém admitir existiu. Existe. Obrigada por me ter ouvido” .

F. levantou-se e deixou-me com a minha angústia em frente a uma chávena de cappucino frio.

Esta conversa sobre o território vasto do horror fez-me admirar ainda mais aqueles que tiveram a coragem de resistir, de contrariar o eterno destino dos princípios.

2. Este longo parêntesis serve de prelúdio para um ensaio, “Portugal, Finis Terrae”, publicado na Lettre International alemã, onde entre muitos outros aspectos se fala da relação entre Portugal e Angola.

“Angola é hoje Circus Maximus da nova exploração colonial num projecto de capitalismo de rapina sob a égide de um regime de origem e carácter estalinista”. Este binómio, Lisboa-Luanda, inverteu-se no entanto, numa espécie de vingança histórica. “Hoje são os filhos e os netos dos colonialistas portugueses que trabalham nos estaleiros, pedreiras e na construção civil como semi-escravos dos antigos “nativos” e “assimilados” da “Província Ultramarina” que era o orgulho de Salazar”. Sem Angola, escreve Pedro Rosa Mendes,”Portugal seria incapaz de sobreviver. O que coloca a questão, como nos anos setenta, da soberania, não de Angola, mas a nossa”.

“A nação portuguesa ( de nove séculos!!) confronta os seus mitos com a realidade da sua existência periférica e recicla na “lusofonia” o discurso do excepcionalismo português cozinhado a partir do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A pobreza enfim volta a ser condição normal do cidadão português médio. Resignação, rancor e inveja social – marcas ancestrais de uma população que poucas vezes teve a coragem de ser povo para mudar o seu destino – formam o código operativo de sobrevivência individual”.

Embora não concorde com tudo o que Pedro Rosa Mendes escreve neste ensaio, um retrato feroz do país onde o prestigio social do “Schein” (parecer) é muito mais forte do que o do “Sein” (ser), considero a sua leitura indispensável. “Há uma geração os portugueses viviam abaixo das suas possibilidades, o cidadão médio consumia um copo de leite por dia, um pedaço pequeno de carne por semana, três ovos por mês e um frango por ano”. O país não andará muito longe de regressar a este passado, muito por culpa dos cúmplices de Salazar: as nossas “elites” . “Exemplo mais grotesco? O ministro Miguel Relvas” ( e mais não traduzo, ide ler, ide).

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Anjos

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Correm as horas. Vorazes. Dizemos que não temos tempo, quando nunca fomos tão livres para escolher o que fazer com ele. Vivemos num palco de extraordinárias expectativas, inatingíveis. Quantas vidas vivemos por procuração? Ou quanto medo temos de ser sentimentais, num mundo asséptico de sentimentos?

 Mas há, na era do individualismo e da indiferença quem nos devolva candura, quem nos encha o firmamento de pontos de luz, quem se recusa a ver no sofrimento uma abstracção e age.

Hoje chegaram-me duas histórias reais. A de um jovem polícia nova-iorquino que ao ver um sem-abrigo sem botas, entrou numa loja, comprou um par de meias grossas e umas botas. Um gesto sem preço, bem mais valioso que os 75 dólares que gastou. “Eu tinha dois pares de meias e ainda tinha os pés frios”. Ser-se sem abrigo nos Estados Unidos é uma abominação. É quase uma condenação. À solidão, à doença, à miséria e à injustiça. Um sem-abrigo é invisível aos olhos insensíveis da sociedade. O gesto do polícia foi registado por telemóvel e comoveu milhões de americanos. Às vezes a solidariedade precisa de um abanão.

A segunda história aconteceu aqui na Alemanha, sobriamente, sem holofotes. Duas mulheres fizeram muitos quilómetros de estrada para visitar um menino angolano de onze anos – vítima de uma mina anti-pessoal e que irá ser operado num hospital da antiga RDA – e para ler à pobre criança apavorada histórias infantis em português. Um verdadeiro conto de Natal.

Estes anjos, e felizmente ainda há tantos, não precisam do meu agradecimento, mas faço-o “em nome dos que dormem ao relento/Numa cama de chuva com lençóis de vento/O sono da miséria, terrível e profundo”. O Natal? São eles. O eu pelo outro.

PS – Já agora deixo aqui um apelo:

“Há crianças doentes em Berlim, sozinhas num quarto de hospital, que só precisam de quem fale português com elas – ajude-nos a ajudá-las!

Em Berlim e arredores há várias crianças angolanas internadas em hospitais para tratamentos muitas vezes demorados, e que não falam alemão nem têm nenhum contacto social para além dos médicos e enfermeiras. Ficam na Alemanha, longe dos seus familiares, semanas e muitas vezes até vários meses, antes de terminarem os tratamentos e poderem regressar ao seu país de origem.

A sua vinda para a Alemanha é assegurada por organizações de ajuda humanitária que possibilitam a essas crianças tratamentos e curas hospitalares às quais de outra maneira nunca teriam acesso.

Elas precisam antes de tudo de conversar em português, de alguém que traduza os seus medos e as suas necessidades às equipas dos hospitais, e também quem lhes traduza a elas quais os procedimentos, operações e tratamentos que lhes vão ser aplicados.

Algumas crianças nem sabem que estão na Alemanha. Sabem que estão num lugar estranho, longe dos pais, doentes, com muitas dores, „presas“ a uma cama e sem conseguirem comunicar.

As equipas dos hospitais são regra geral extremamente competentes e estão empenhadas em proporcionar às crianças o melhor tratamento possível. Mas sem compreenderem a língua, estas crianças têm medo do que lhes vão fazer, não entendem o que está a acontecer e passam o dia sozinhas.

O magazine Berlinda.org apela a todos os falantes de português que dêm um pouco do seu tempo para aliviar a vida destas crianças.”

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O mundo é um T0

“Meme” (Grande mãe) Helen. Gostava que acompanhasse hoje uma reportagem importante. É aqui perto. E é muito importante”. Não havia como recusar o pedido da directora da NBC Oshiwanyama.

Perguntei qual era o tema: o início (simbólico porque estamos em época de chuvas) da construcão de uma estrada de gravilha, com a presença do ministro do Trabalho e Transportes. Num país novo como a Namíbia, onde faltam infraestruturas para ultrapassar o isolamento das populações, um grande acontecimento. O “aqui perto” era lá onde acaba a estrada, a mais de 350 quilómetros de Oshakati, num lugar encostado à fronteira com Angola tão remoto que nem consta no mapa. Areia até ao fim do olhar em qualquer direcção. Três tendas brancas montadas para a ocasião.Novembro é mês de chuvas e ventos.

A hospitalidade namibiana concedeu-me um lugar na tenda, em frente ao pódio erguido para os discursos, com uma alcatifa cinza a cobrir a areia e o luxo de cadeiras de plástico forradas de tecido branco. Quando deixei de observar fascinada os trajes coloridos das mulheres, o fato cor de caramelo do governador da região combinado com uma camisa vermelho viva saída de um filme do anos setenta, e contar os cães magros que corriam pela areia, acabaram os discursos. As mulheres levantaram-se e entoaram cantares tradicionais. Imaginem o que é estar num lugar que nem vem no mapa e ouvir a dada altura: “Viva SWAPO ( o partido da independência namíbiana). A luta continua. A vitória é certa.” Em português.

Quando cheguei a Oshakati, vinda de Windhoek, a primeira imagem que retive desta cidade em terras de fim de mundo foi a mais improvável de todas: a Torre de Belém. Eu explico à entrada da cidade fica o Hotel Rocha’s que ostenta uma enorme bandeira portuguesa e outra angolana ( tenho de ir “investigar”) cujo logotipo é a Torre de Belém. Okuti kwa dala ( bem vindo a casa depois de uma longa viagem).

O mundo sempre me pareceu um T0 (a pedido do Rui Zink eu explico: “tzero”).

PS- As recomendações do meu amigo são todas verdade. Não provei os Mopani.

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Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

- “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

- “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

- “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

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Consegue Eduardo dos Santos dormir descansado?

Luanda tem uma das mais belas baías do mundo, uma beleza de cartão-postal, mas não é isso que me impressiona. O que me impressiona é a cacofonia, o som confuso, caótico, milhões enlatados num espaço que não foi pensado para tantos. Pujança e pobreza. Felicidade e infelicidade. Ostentação e luta pela sobrevivência. A melodia de Luanda é o som colectivo da desordem da Humanidade. Há quem lhe seja insensível.

No dia do aniversário do Presidente angolano, 28 de Agosto, a filha, Isabel dos Santos, deu uma uma entrevista à televisão pública TPA. Bem vestida, bem penteada.A empresária, uma das mulheres mais ricas e poderosas de África, descreveu o pai como alguém “inteligente” e um avô “excepcional”, com muito “afecto pelos netos”. Não dúvido. Como qualquer pai ou mãe, ou qualquer avô, o Presidente deseja a felicidade dos filhos, dos netos.

Das janelas dos palácios do clã presidencial, onde o ar condicionado regula a temperatura e tudo está preparado para evitar surpresas “desagradáveis” como a destituição, o olhar não se alarga até Bengo, Kwanza-Sul, Benguela, Huíla, Namibe, Cunene, Moxico, Bié, Huambo e Zaire. Aí, os milhões do petróleo não chegam e dúvida-se do futuro grandioso de Angola. Quem tem a barriga vazia em que pode acreditar? Aí, denunciam as Nações Unidas, mais de meio milhão de crianças com menos de cinco anos sofrem de grave desnutrição, vidas adiadas antes de começarem. Aí, entre 20 a 22 mil meninos e meninas podem morrer de fome este ano.

O Presidente assiste a isto e chama natural? Como pode dormir descansado e brincar com os netos? E nós quantas vezes ficaremos em silêncio perante a atrocidade? A atrocidade da fome com a máculada crueldade repetida. Amar o outro é ter a capacidade de olhar para o já visto, e nos incomoda, para o já nomeado, e arquivado nos esconsos da memória, como se não o conhecêssemos. Desviar o olhar mata.

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Ligações perigosas

Lembrei-me hoje do retrato de Maquiavel, no Palazzo Vecchio, em Florença. Nessa pintura o aristocrata florentino tem um sorriso enigmático, de Giocconda, os lábios cerrados refreiam a emoção, reforçam a impenetrabilidade, e o olhar parece zombar da cupidez dos homens.

Maquiavel, tido como o pai da ciência política, adoptou o realismo político, sem ilusões e justificar todas as perfídias como meios para alcançar um fim. Para ele política significava não ter medo de sujar as mãos, mesmo de sangue.

Lembrei-me de Maquiavel a propósito de um país “especial”, declinado em volume de negócios e novas vias de internacionalização. Mas sem estatísticas para o sofrimento, para a dor, para os náufragos da guerra. E para o exército de excluídos.

“Quando se escrever a história de Angola dos últimos 20 anos, de guerra e paz, a corrupção e os poderes extraordinários de figuras estrangeiras junto do Presidente José Eduardo dos Santos, na tomada de decisões estratégicas e soberanas, revelar-se-ão como instrumentais”, escreve o activista do direitos humanos Rafael Marques.

“Durante a guerra pós-eleitoral, duas figuras estrangeiras tornaram-se sinónimo de poder presidencial em Angola: o russo-israelita Arkady Gaydamak e o franco-brasileiro Pierre Falcone, ambos traficantes de armas”.

O  negócio de armas expandiu-se para o sector dos diamantes e a família presidencial, por via de Isabel dos Santos, foi das principais beneficiárias. As revelações constam de vários documentos submetidos a um tribunal de Londres, onde Arkady Gaydamak apresentou queixa contra o seu ex-companheiro de negócios em Angola, Lev Leviev, e cuja sentença foi proferida a 26 de Junho de 2012.

PS- Quem se interesse pelo tema pode ler na íntegra aqui.

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Tudo tão previsível…

Como actores num clássico bem ensaiado, os políticos portugueses, a União Europeia e as Nações Unidas têm repetido o catecismo do regresso “à ordem constitucional na Guiné-Bissau”. Não podia estar mais de acordo. O que eu ainda não ouvi ainda ninguém dizer é até onde se está disposto a ir para que tal suceda.

Houvesse a mais leve intenção de resolver a crise guineense há uma coisa evidente que se podia fazer: estacionar um contingente das Nações Unidas no país, com um mandato robusto e deter todos os envolvidos -  militares, políticos, civis, jagunços -  nos golpes e violências dos últimos anos. Numa frase: pôr fim à impunidade.

Estarrecedor é que, uma vez mais, aos olhos de todos se formou a tempestade perfeita em Bissau, sem que ninguém se tenha detido a analisar a sua seriedade e consequências. A sublevação militar em Bissau era evidente, estavam lá os sinais todos, os serviços de inteligência alertaram, Luanda, sabia, Lisboa sabia, Paris sabia, as Nações Unidas sabiam, até o próprio Carlos Gomes Júnior, o primeiro-ministro deposto e candidato presidencial, reconheceu numa entrevista dada ao DN que tinha conhecimento que um golpe de Estado estaria a ser forjado.

Pergunto-me porque é que a CPLP se mostrou, é um déjà vu, impotente para a agir a tempo e com a determinação suficiente quer para travar o golpe, quer para evitar esse absurdo que é o “governo de transição” legitimado pela CEDEAO, sob a batuta da Nigéria, país com um registo de violações dos direitos humanos mais tóxico do que o delta do Níger?

Assistimos à surreal situação da Guiné-Bissau ser, desde esta semana, um país com dois Governos. Um de jure, legítimo, eleito, e no exterior do país, outro, no interior, “de transição”. A pergunta que se impõe e a que ainda ninguém respondeu é “transição” para quê? E as tropas da CEDEAO que já chegaram ao país vão incumbidas de que missão? Reformar as Forças Armadas? Deixem-me rir. Garantir a segurança e estabilidade no país? Não é preciso perder mais do que alguns minutos no Gooogle para se descobrir relatos de abusos cometidos por militares oriundos de países da CEDEAO. Para tornar a situação ainda mais complexa a MISSANG ainda não se retirou do país. Angola e Nigéria enfrentam-se na Guiné pela influência na região da África Ocidental.

Em Bissau avolumam-se os rumores, tão comuns como os abutres, que um contra-golpe, organizado pelo PAIGC possa estar a estar preparado. Não quero ser Cassandra, mas a acontecer seria um banho de sangue.

A actual crise que se vive na Guiné, não obstante o discurso do regresso “normalidade”, é gravíssima. Quem se interessa um pouco por história africana sabe que as Libérias do continente se fizeram de uma combinação de ingredientes: anarquia, etnicidade, impunidade, crime organizado. Estão lá todos.

Que Deus  e os irans protejam a minha Guiné.

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Brincar à roleta russa na Guiné-Bissau

O que se vive na Guiné-Bissau, apesar da aparente reposição da ordem democrática, depois do golpe de Estado de 1 de Abril de 2010 e do golpe falhado de 26 de Dezembro de 2011, é tudo menos normalidade. Olhando para as páginas da imprensa portuguesa, de onde o país desapareceu, ninguém parece dar por isso. Adiante.

Coincidindo com a visita do ministro angolano dos Negócios Estrangeiros, Georges Chicoti, a Bissau, as Forças Armadas guineenses convocaram hoje uma conferência de imprensa anunciando a retirada da MISSANG, a missão militar angolana na Guiné-Bissau. Declarações que não foram confirmadas por Luanda* até ao momento e que contrariam as feitas pelo governo guineense na quarta-feira passada (04.04).

Na semana passada o executivo guineense afirmou a sua “firme determinação” não só em manter a MISSANG no país, como também em reforçá-la. Garantiu ainda que a presença da missão militar reflecte a vontade dos executivos guineense e angolano. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, Mamadu Saliu Djaló Pires, seria “grave” se a missão angolana chegasse ao fim.

Embora sejam conhecidas as razões formais por detrás desta tomada de posição dos militares guineenses – o armamento detido pelos militares angolanos na Guiné, que as FA guineenses sentem, por um lado, como uma ameaça e, por outro, gostariam de vir a receber, e uma eventual ofensa ao chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai. O embaixador angolano em Bissau, general Feliciano dos Santos, ter-lhe-á perguntado se estaria a forjar um golpe de Estado, visto Angola ter informações nesse sentido – não foram apresentadas razões substantivas.

A confirmar-se o afastamento dos militares angolanos, que apesar de inúmeras críticas que lhe podem ser feitas têm sido o garante de alguma estabilidade no país, a Guiné mergulharia numa nova espiral de incerteza. Carlos Gomes Júnior escapou ileso à mais recente tentativa de golpe de Estado em Dezembro de 2011 graças à protecção angolana. Sem a guarda pretoriana angolana por perto são muitos os que na Guiné acreditam que o líder do PAIGC vive no fio da navalha. Pode Carlos Gomes Júnior, com grande probabilidade o próximo Presidente, coabitar com  António Indjai, um homem que o ameaçou de morte? Quem mais beneficia com a fragmentação e instabilidade da Guiné-Bissau? Divide et impera. A resposta parece-me óbvia.

Os militares tomaram definitivamente o Estado guineense como refém? Até hoje, nenhum presidente da Guiné-Bissau completou o seu mandato constitucional de 5 anos. E em 9 anos, 3 chefes de Estado Maior foram assassinados. Os motivos exactos dos assassinatos de Março de 2009  – Nino e  Tagmé – e de Junho de 2009- Baciro Dabó e Hélder Proença –   e os respectivos culpados  continuam por identificar, o que reflecte a incapacidade do sistema judicial e a impunidade generalizada que grassa na Guiné-Bissau.

Como se este braço de ferro entre políticos e militares não fosse suficiente, no plano político mantém-se o impasse. Este fim-de-semana o Supremo Tribunal de Justiça indeferiu o pedido de nulidade das presidenciais apresentado por cinco candidatos às presidenciais. As queixas foram apresentadas pelos candidatos Serifo Nhamadjo, Kumba Ialá, Henrique Rosa, Afonso Té e Serifo Baldé, que não reconhecem os resultados que deram a vitória a Carlos Gomes Júnior. Kumba Ialá, que ficou em segundo lugar, recusa-se a ir à segunda volta das presidenciais.

Adenda:* Luanda entretanto confirmou a saída da Missang da Guiné-Bissau

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Hoje não houve chocos

Busto de Amílcar Cabral, Bissau 2012

Quero contar-vos uma história africana. Se as histórias têm princípio esta começa no busto de Cabral. Não o Pedro, mas o Amílcar. O primeiro procurava a Índia e fugindo dos ventos alísios, por puro acaso, descobriu o Brasil. Erro fecundo. O segundo procurava um país, cujo nome paterno não fosse Escravo e criou uma ficção. Erro trágico.

Poucas visões serão tão fantásticas e premonitórias, como a do busto mal-tratado, empoeirado, de Amílcar Cabral, de costas voltadas para a Avenida que traz o seu nome, em Bissau. Amílcar e a Guiné? Um casal irreconciliável. Sucessivos políticos e militares, não há nada mais volátil que heróis quando acaba a guerra, traíram Cabral e os guineenses. Um povo amável, generoso e extraordinariamente calmo, a quem os cínicos chamariam apático.

Pode-se andar a pé com descontracção por Bissau. Perguntam-lhe com delicadeza se quer comprar bananas, mangas, mancarra ou crédito para o telefone e aceitam com facilidade um não. Difícil de repetir, a dignidade da pobreza em Bissau. Difícil andar assim noutras cidades africanas. Os guineenses são bon sapatu pe jingidu (sapato bom em pé torto). Equivocaram-se de país.

Se fosse um romance a Guiné-Bissau seria um romance negro, obsessivo, cheio de figuras sinistras, golpes de Estado, execuções, impunidade, traições, conspirações, violência brutal. De tal forma que o leitor, a dado momento, pensaria que o escritor entrou  em modo contínuo, repetindo a trama, capitulo após capítulo. Sintetizemos o pleonasmo: Amílcar Cabral foi assassinado, Nino afastou Luís Cabral, Ansumane Mané expulsou Nino para o exílio, Kumba Ialá permitiu que os militares balantas eliminassem Ansumane, os militares afastaram Kumba e mataram mais tarde, o líder do golpe, o general Veríssimo Seabra. Tagme na Waie foi assassinado, horas depois os militares matariam Nino Vieira. Zamora Induta foi afastado da chefia das Forças Armadas por António Indjai. Na noite deste domingo um novo assassinato, o do ex-chefe da secreta militar, Samba Djaló, que terá morto ou estado envolvido na morte de Baciro Dabó. A lista de cabeças a prémio parece não se ter esgotado ainda.

Domingo levantei-me bem cedo. Céu azul de Verão. Podia dizer que cantavam os galos, mas eles cantam com tanta frequência nas ruas de Bissau. Mais numerosos que eles só os abutres. Deixei a ilha que é a Residencial Coimbra, subi a Amílcar Cabral e assisti à abertura de uma mesa de voto. Falar em abertura é quase redundante quando a mesa de voto é ao ar livre, em pleno passeio. Às sete da manhã já havia fila para votar, numa cabine de papelão. Comove-me sempre esta não desistência, impressiona-me este acreditar. Si bu misti kume fruta, bu ten ku régua (se quer comer fruta, tem de regar a planta).

Eram oito e dez quando entrei na Catedral. “A que horas é a missa?”, perguntei. “Às oito”. Os vinte minutos que se seguiram permitiram-me conhecer a Clemência, uma menina de idade indefinida, que mal me viu encostou o braço ao meu, depois tocou-me no cabelo. “Gosto de ti mamã. És esquisita”. E sorriu-me. Instantes como estes justificam todas as incomodidades.

Sai da Catedral e palmilhei o centro de Bissau, quase de ponta a ponta. Fotografei a barbearia Chiado e as casas em ruínas de Bissau velho. Vi o candidato favorito, Carlos Gomes Júnior, votar a trinta centímetros, senão menos, de distância, espetei-lhe o microfone no nariz, porque esfera de distância pessoal é algo desconhecido pelos colegas guineenses. Em Roma se sê romano.

Pouco tempo depois da “festa da democracia” assisti a uma tentativa de silenciamento, na Comissão Nacional de Eleições guineense, de um jornalista cabo-verdiano, por parte do adido de imprensa da embaixada angolana. A influência descarada de Angola na Guiné não parece fazer pruridos a ninguém. Ingenuamente, ou talvez não, um colega simpático de um órgão estatal angolano, disse-me: “agora é mais fácil pedires o visto de jornalista, nós [Angola] temos quem trate disso e que pode acompanhar-te em Angola”.

Sai da Comissão de Nacional de Eleições e fotografei Amílcar. Pensei no meu pai que aos vinte anos combateu em nome de um crime chamado colonialismo e de um ditador bafiento e provinciano. Deixou no mato a juventude e os sonhos. As cicatrizes da guerra fizeram dele um ausente, não passou pela vida, a vida passou por ele. A minha Guiné, escrita a sangue em Boé e em Pindjiguity, livre, independente, privou-me de pai. Trair Cabral, é trair os guineenses, mas também, desculpem o egoísmo, atraiçoar-me a mim.

Acabei o dia a jantar, no quarto, ananás comprado na berma da estrada, em vez de chocos grelhados nesse improvável restaurante ao ar livre , o Porto, situado em frente à Coimbra, que serve pratos inesperados como cozido à portuguesa ou dobrada. Serviram-me à sobremesa um assassinato. Eu não disse que a Guiné é uma ficção?

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(Mais) uma boa razão para ler o Público

“ Angola, os mitos e a realidade em discurso directo pelos emigrantes portugueses”, é o título de um excelente trabalho jornalístico do Público. A ler para quem não quer andar às cegas. Trata-se de um ensaio sobre a nova vaga migratória portuguesa, comparável à dos anos 1960, sobre os riscos profissionais que se correm, sobre a corrupção endémica, sobre um país onde o bafo dos serviços secretos se sente de perto, e que, apesar do crescimento económico de dois dígitos, aparece no lugar 148 (em 187 países) no último relatório das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano.

Eu pertenço aqueles que ainda acreditam a imprensa escrita contribui para a formação da capacidade crítica de pessoas livres. Tem, ou pode ter, uma espessura e densidade analítica que ultrapassa a espuma dos acontecimentos. É mais de que um apontamento rápido num blogue, duas linhas no facebook ou no twitter.

Não sei se vos inquieta, mas a mim sim: porque será que em Portugal se gasta 30 euro numa garrafa de vinho ao jantar e não investe menos de dois euros por dia num jornal?

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Coisas de espantar (ou talvez não)

Há em Portugal, muita gente, jornalistas incluídos, que é alérgica ao Pedro Rosa Mendes. Por motivos variados.  Não andarei muito longe da verdade ao presumir alguma invejazinha por detrás da “alergia”. Adiante.

Recentemente o i noticiava o suposto pedido de desculpa de Pedro Rosa Mendes ao presidente angolano. Artigo que rapidamente se espalhou pelos murais do Facebook.

Na prosa em causa, Aldemiro da Conceição, antigo porta-voz do presidente angolano, garantiu ao jornal que o escritor “foi em 2002 ao Palácio Presidencial, em Luanda, pedir desculpa a José Eduardo dos Santos por causa das reportagens publicadas no “Público” em 1999”, onde eram denunciados a corrupção generalizada, os orçamentos paralelos, o tráfico de armas, os negócios à margem do Estado, as ligações ao submundo internacional. No centro desta teia: o Futungo de Belas e os Generais.

Segundo o padrinho de casamento de Isabel dos Santos, o jornalista nunca se encontrou “presencialmente com o presidente, mas entregou-me o pedido de desculpas a mim”. O artigo do i prosseguia com as declarações de Pedro Rosa Mendes que confirmava a presença no palácio presidencial em 2002  onde que ficou “uma hora dentro de uma sala a olhar par um quadro de proporções norte-coreanas do presidente de Angola”. Findo esse tempo o jornalista deixou o palácio. Em nenhum momento desse artigo se escreveu de forma clara e categórica que Pedro Rosa Mendes desmente ter feito qualquer pedido de desculpas.

 Tendo em conta que de um lado temos a palavra de um regime corrupto, sem escrúpulos, nem remorsos, rodeado de servos medíocres e de outro a palavra de Pedro Rosa Mendes, espanta-me que o título não tenha sido outro. Não acredito que a escolha tenha sido inocente  e talvez não me devesse espantar  com ela, porque a única das virtudes do “caso Rosa Mendes” é pôr preto no branco o que se passa nos  bastidores nos órgãos de comunicação social. Seja a teia de cumplicidades entre os poderosos – da política, da economia, do futebol, da justiça – e as redacções, ou parte delas ( porque tenho para mim que  muitos jornalistas portugueses, seja de meios públicos ou privados, são íntegros e a sua actuação se pauta pelo respeito da ética). Seja as pressões e interferências directas ou indirectas (que não são novas, nem exclusivas deste Governo) ou seja a precarização da profissão de jornalista, que leva muitos a pautar-se pela “lógica alimentar”, autocensurando-se para manter o lugar.

“Vindo da parte de Luanda, esse tipo de acusações apenas me fazem rebolar a rir”, disse-me  Pedro Rosa Mendes em entrevista. “Repetidas por gente em Portugal como têm sido é um insulto. É um insulto porque o meu percurso de jornalista fala por mim. Sou bastante intolerante não só na qualidade da escrita, que tem sido premiada tanto em Portugal como fora, mas também e sobretudo numa baliza ética e deontológica que é quase fundamentalista. Tenho a certeza de que quando peco, peco por excesso e que ninguém me pode apontar nada em 25 anos de jornalismo a esse nível. Esse tipo de acusações é típico de uma situação de desespero de quem já não tem nada. É uma acusação que, na última década, os vários porta-vozes oficiais e oficiosos da presidência angolana e dos seus círculos, incluindo alguns círculos intelectuais, têm repetido. Uma das versões mais delirantes que me chegou é que existe uma célebre gravação do Pedro Rosa Mendes ajoelhado diante do Presidente, a chorar e a pedir desculpa. Adorava que essa gravação fosse posta no YouTube para fazer um sucesso planetário”.

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Inquietações

“Angola inverteu, através do sistema financeiro, a relação colonial: Portugal foi colonizado através da finança, banca, energia e telecomunicações. São sectores vitais que hoje controlam indirectamente o que se pode ou não dizer na imprensa portuguesa. Quem não vir isso é ingénuo. Há uma vaca sagrada que é Angola, não se toca. Se se chama a vaca pelo nome, as coisas dão para o torto – aconteceu há dez anos, acontece agora outra vez.”

Pedro Rosa Mendes em entrevista ao Público de 25.1.2012

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A crónica da polémica

“Em directo de Luanda, a RTP serviu nesta segunda-feira aos portugueses e ao mundo – eu vi aqui em Paris – uma emissão a que chamou ‘Reencontro’ e na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários e comentadores de Portugal  e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local.

O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão para tudo, mas o Reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti. Há até propaganda comestível, quando feita com inteligência, mas nem sequer essa bitola foi conseguida, foi permitida, à emissão. A nossa televisão, a televisão paga por todos e que, de certo modo, é um pouco de cada um de nós, afectiva mas também politicamente,  foi a Luanda socializar com os apparatchik do regime, nos quais deveríamos reencontrar uma Angola irmã, uma Angola feliz, uma Angola nova.

Aconteceu o contrário. Reencontrei nesta emissão a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz. Não no conteúdo, mas no tom, seguro, simpático, veladamente sobranceiro. Aquela gente –  as divas, os engravatados, os socialites – são. ao mesmo tempo, a couraça e as lantejoulas de uma clique produzida pela história recente de um país que combinou uma guerra de 30 anos e uma riqueza concentrada, basicamente, no petróleo.

Oleocracia, chamou-lhe a socióloga francesa Christine Messiant, falecida faz agora anos, e que identificou como ninguém a natureza do poder de José Eduardo dos Santos, do MPLA, da Grande Família e das suas clientelas. Em poucas linhas, a clique angolana, em torno do Presidente, privatizou o Estado, numa teia de clientes da ‘economia política’ angolana e num aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, as contas vitais da República, como a do petróleo, dos diamantes, do Banco Nacional e do Tesouro.

Os generais e barões da economia política fizeram ganhos astronómicos nas comissões dos contratos de armamento, do petróleo, da manutenção militar, por aí fora, e depois usaram esses recursos  em todos os negócios sensíveis, estratrégicos – as empresas de segurança, as companhias de aviação, os sectores das empresas públicas colocados em leasing, as companhias ligadas às forças armadas e à polícia. Um lucro incalculável e, o melhor, legal!

Como bem explicou Christine Messiant, o controlo da economia pelo topo do poder político (juntando as altas patentes e o politburo informal do Partido) usou e geriu a concorrência internacional, beneficiando a conivência, a colaboração ou a assistência de grupos estrangeiros na banca, no sector energético.

É esta, resumindo, a face verdadeira da nova Angola: o novo poder económico é apenas a nova máscara do velho poder político. Uma maquilhagem sofisticada mas óbvia, o bâton da ditadura, parafraseando o grande jornalista Rafael Marques.

Num reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências, teria havido por exemplo Rafael Marques, ou alguém que chamasse à corrupção, corrupçlão, e não, quase a medo, numa única pergunta, ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira.

Quem se encontra com a realidade de Angola, encontra a violência brutal nas Lundas diamantíferas, os despojos da guerra civil no tecido social e produtivo, a conflitualidade social latente entre quem tem o mundo e quem não é sequer dono da sua vida, ou a pobreza dos musseques de Luanda, que não desaparecem com o cair do cetim vermelho de um banco como na publicidade que embrulhou a emissão da RTP. Já agora, gostaria de ter reencontrado outros portugueses: os milhares que vão para Angola em fuga de um país sem esperança, o nosso, como se ia nos anos 50, e, como então, enfiados como semi-escravos e semi-reféns à mercê dos seus patrões – agora angolanos – num estaleiro, numa pedreira ou numa fazenda algures fora do alcance das visitas oficiais que chegam a Luanda.

Nesta emissão, enfim, Portugal confirmou que, como antes os nossos colonos, apenas temos a subserviência quando a situação não nos permite o abuso. É no que estamos. ‘Qual o objectivo do investimento angolano no estrangeiro?’, perguntava a jornalista. A resposta foi dada pela própria emissão: respeitabilidade. Luanda apenas compra aquilo que sabe que não tem.”

Pedro Rosa Mendes

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O Pedro

Disclaimer: O Pedro Rosa Mendes é meu amigo e um dos jornalistas que mais admiro em Portugal. Pela verticalidade, pela seriedade, pelo talento e maestria com que usa as palavras e sobretudo pela Independência.

Trocámos várias mensagens durante a emissão o “Reencontro” na RTP 1 e numa delas o Pedro disse-me “vou escrever uma crónica sobre isto. Nem que seja a última”.

As palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo. O jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, “saneado”. Se isto não é um escândalo, o que será?

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza ,é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Enquanto os políticos angolanos se continuarem a comportar como abutres e os petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” e os “mutilados” servidos pelo Natal a apelar à lágrima. Os angolanos merecem mais, muito mais que isto. Nós portugueses também. E pessoas com a coragem do Pedro merecem uma profunda vénia.

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Occupy África

Não cabe no script. Dirão alguns que este não será o melhor momento para se falar sobre pobreza em África. Com as câmaras atrás dos despojados europeias e os holofotes apontados para os caixotes do lixo gregos. Discordo. Este é seguramente um dos melhores momentos para se olhar para a pobreza extrema. Para os milhões que vivem com menos de dólares por dia e ano sem saber o que é uma casa, uma escola, um hospital, nem água potável ou saneamento básico.

Em demasiados países africanos pude observar o cinismo da política de interesses ocidentais – e dos BRIC, basta ver o que o Brasil, o de Lula e o da Dilma,  anda a fazer por Moçambique –  e que a herança colonialista sobreviveu à(s) independência(s). Achille Mbembe, um dos mais brilhantes teóricos dos estudos pós-coloniais, é acutilante na sua crítica:  “nós [os africanos] somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra”.

 Muito se tem escrito acerca da ascensão dos BRIC e sobre o “deslizamento” a oriente do poder económico. Contudo, a sucess story económica da primeira década deste século é africana. Dos dez países que mais cresceram entre 2001 e 2010 seis foram africanos, com Angola no topo da tabela e Moçambique em oitavo lugar. Segundo a The Economist nos próximos cinco anos as economias africanas deverão continuar a crescer ultrapassando as asiáticas.

Só que a cornucópia da riqueza é restrita a alguns: mais de metade da população destes países vive na mais abjecta pobreza. A explicação em “economês” é a simples: “ as políticas de redução da pobreza centradas apenas no crescimento económico terão um impacto mais limitado nos casos em que os níveis iniciais de desigualdade são elevados e persistentes”.

Traduzindo: enquanto os políticos africanos se continuarem a comportar como abutres e os  petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” servidos pelo Natal a apelar à lágrima das sociedades confortáveis. Os africanos merecem mais, muito mais que isto.

 

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Sustos…

 1. Em Berlim vive-se uma situação deveras curiosa. Um “não-partido” de geeks, chamado os   Piratas, que ganhou os seus galões a defender a liberalização das drogas leves, a privatização da religião, a proibição da videovigilância policial e o fim dos direitos autorais tomou de assalto a Rotes Rathaus. Foi o verdadeiro vencedor da noite eleitoral e colocou todos os membros da sua lista, 15, no Parlamento regional. Metade deles tem menos de trinta anos e apesar de saber mexer bem num computador e não tem a menor noção de política, de finanças ou de economia.

Constato apenas que há um efeito útil neste voto de protesto dos eleitores berlinenses: o de acordar os restantes partidos ditos “estabelecidos”. Para a chanceler e particularmente para o cadáver em que se tornou o partido liberal a noite foi calamitosa o que nada de bom augura na coligação governamental, que aliás entrou em processo suicidário… A Europa que vá pondo as barbas de molho.

 2. Sabe qual é o segundo país no mundo, a seguir ao Afeganistão, onde se regista, segundo dados do Banco Mundial, a maior taxa de mortalidade infantil entre crianças com menos de cinco anos? Dou-lhe uma pista: começa por “a” e a língua oficial é o português… Deixemo-nos de meias palavras ou de pudores politicamente correctos: este índice é uma tragédia vergonhosa. Diria mesmo obscena. Ofende-me que para garantir negócios ou as “relações bilaterais” com Angola seja preciso ser-se conivente a solidão e olhar devastado daqueles meninos.

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A Lunda-Norte ali tão longe, aqui tão perto

São eternos. Quase tão perene como eles é o horror que perpetuam. O brilho de cada diamante angolano é sujo. Encerra um inferno de exploração, humilhação, abuso, tortura, crime e corrupção.

Em “Diamantes de Sangue – Corrupção e Tortura em Angola”, lançado hoje em Lisboa, o jornalista angolano, Rafael Marques – distinguido internacionalmente pelo seu trabalho em defesa dos direitos humanos – denuncia as condições de escravatura sob as quais se exploram as pedras preciosas angolanas. Com a conivência dos Generais, do MPLA e do Estado português (através da sua participação na Endiama, a Empresa Nacional de Diamante de Angola). “Portugal é um dos países que mais apoia e legitima a corrupção em Angola”.

Vale muito a pena ouvir a entrevista de Rafael Marques à DW e ler a entrevista dada ao Público.

Os líderes autoritários temem a sua própria sombra mais do que ninguém. Para se manter 32 anos no poder naquela estrutura cometem-se crimes e são esses crimes, é a ideia do que foi necessário fazer para manter o poder, que os atormenta, não é tanto a população. É como Khadafi. Quando os líbios saíram à rua, e até propuseram negociar com ele, se o tivesse feito, eventualmente tê-lo-iam deixado na sua tenda. É esse elemento que é difícil equacionar no raciocínio dos líderes autoritários: quando dizer basta e largar o poder de forma a que se possam sentir seguros.

E há um outro aspecto importante: os parceiros estrangeiros, que normalmente até alimentam estes regimes. Por exemplo, a saída de José Eduardo dos Santos é vista por muitos portugueses como negativa – estou a falar de grandes grupos económicos, que fizeram investimentos ou absorveram investimentos angolanos por via da grande corrupção e receiam ficar expostos a que toda esta informação venha ao de cima, se o indivíduo que facilita essas engenharias acaba por sair do poder.

Há um grupo muito poderoso de forças económicas e políticas, a nível interno como externo, que o aconselham a ficar, já não tanto porque acreditam nas suas políticas, mas como forma de preservarem os seus negócios, os seus próprios interesses. Ele agora passa a ser refém dos interesses externos e daqueles que o rodeiam.

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O palco é para ele, e só para ele. Até quando?

Alguns apocalipses estão prometidos em África. Inquieta-me pensar que Angola possa ser um deles. Os sinais estão todos lá. Se o olhar não se deixar ofuscar pelo brilho de Luanda ou embaciar pelos petrodólares constata que o rei vai nu. E que o chefe, que não tolera rivais nem sucessores,  começa a vacilar. A violência com que foi reprimida a manifestação deste sábado em Luanda, a intimidação e repressão de jornalistas e activistas é reflexo da fobia do cerco, do medo de perder o poder.

 (Lusa) — O ativista angolano Rafael Marques condenou a resposta governamental contra os jovens que se manifestaram no sábado em Luanda e alertou o Governo para “não precipitar uma situação que eventualmente possa escapar ao seu próprio controlo”. 

 Em declarações à Agência Lusa, Rafael Marques considerou que a “resposta autoritária” de sábado contra um grupo de manifestantes que exigia a “destituição do Presidente José Eduardo dos Santos” na capital angolana “colocou apenas o próprio regime numa situação muito mais delicada”. 

  “A reação da Polícia Nacional e da Presidência da República demonstra que não estão a aprender com o exemplo do Egito, da Tunísia e de outros países, onde a repressão só agravou a situação”, vincou o ativista e jornalista angolano. 

 Rafael Marques enalteceu a “coragem dos jovens”, que avisaram previamente as autoridades da sua intenção, e lembrou que o direito a manifestar-se de “forma pacífica” está consagrado na Constituição angolana e faz “parte do processo de democratização da sociedade”. 

 O fundamental neste momento, segundo Marques, é que o Governo de José Eduardo dos Santos compreenda que o “modo como tem gerido o país – de forma autoritária – está a chegar ao fim” e que “precisa de começar a encontrar vias para evitar esse tipo de manifestações e dialogar com as pessoas”.

 Isto para que se consiga “uma transição pacífica para um modelo verdadeiramentedemocrático em que as pessoas utilizem as eleições para escolher os seus governantes”, sustentou. 

 “O que o Governo deve fazer nesta altura é começar a criar canais de diálogo com os vários setores da sociedade, porque este processo de transformação e de fadiga contra os regimes autoritários não vai parar”, frisou Rafael Marques, salientando que Angola “também não será indiferente a isso”.  “É preciso que o Governo não precipite uma situação que eventualmente possa escapar ao seu próprio controlo e atiçar ainda mais os ânimos da população”, vincou. 

  Marques salientou igualmente a necessidade de a polícia “agir com maior transparência”, designadamente dizendo “onde estão as pessoas que foram presas, apresentar uma lista dos detidos e garantir que as suas famílias os possam visitar e que estes tenham acesso a advogados”. 

Entre 24 – segundo a polícia – e 50 pessoas – segundo fontes próximas  dos manifestantes – terão sido detidas na sequência de confrontos durante a manifestação de sábado.  Rafael Marques também aconselhou os jovens que no futuro decidam “manifestar-se pacificamente” pela democratização de Angola a terem “sempre uma lista dos participantes para evitar desaparecimentos ou fatalidades”.  

 “Estamos a lidar com um regime que tem grande capacidade em fazer desaparecer pessoas ou pelo menos escondê-las por tempo indeterminado”, frisou.  por isso “fundamental”, defendeu, que os jovens “coordenem melhor as suas ações, apelem sempre para que se faça tudo dentro da lei” e “que não dêem pretextos à polícia de arranjar justificações para a repressão”. 

 Marques tem sido um dos principais responsáveis pela denúncia de esquemas de corrupção que, alegadamente, envolvem as mais altas esferas do poder em Angola, bem como empresas e entidades estrangeiras que com ele negoceiam.

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Surprise, surprise

Luanda é a cidade mais cara do mundo para expatriados e isto pelo segundo ano consecutivo. Esta é  uma das  conclusões de um estudo  realizado pela Mercer.

Tóquio permanece na segunda posição e N’Djamena, no Chade, na terceira. Segue-se Moscovo, na quarta posição, Genebra na quinta e Osaka na sexta. Zurique sobe um lugar, ocupando a sétima posição, e Hong Kong desce para a nona. Lisboa (86) desceu quatro lugares em relação a 2010 e está entre as 100 cidades com um custo de vida mais caro para expatriados.

O inquérito abrange 214 cidades em 5 continentes e mede o custo comparativo de mais de 200 produtos em cada local, incluindo alojamento, transporte, comida, vestuário, artigos domésticos e lazer. Trata-se do inquérito sobre custo de vida mais abrangente a nível mundial e foi concebido para ajudar as empresas multinacionais e governos a determinar os pacotes de remuneração para os seus colaboradores expatriados. Nova Iorque é considerada a cidade de referência, com a qual todas as cidades são comparadas. Os movimentos da moeda são medidos face ao dólar norte-americano. O custo do alojamento – frequentemente a maior despesa para os expatriados – desempenha um papel importante para determinar a classificação das cidades.

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Merkel em Angola

LUSA- O desenvolvimento das relações económicas entre a Alemanha e Angola, praticamente inexistente até ao fim da guerra civil angolana, tem tido na última década uma dinâmica crescente, interrompida, porém, pela crise económica e financeira internacional.

A visita oficial da chanceler Angela Merkel a Angola, na terça-feira e na quarta-feira, destina-se, por isso, a tentar impulsionar de novo o comércio entre Berlim e Luanda, segundo fonte diplomática contactada pela Lusa.

Desde o fim da guerra civil angolana, em 2002, as exportações alemãs para Angola subiram de 56 milhões de euros por ano para 384 milhões, no prazo de seis anos, até 2008.

Quanto às exportações de Angola para a Alemanha, também aumentaram consideravelmente, atingindo os 469 milhões de euros em 2008.

A crise financeira, porém, levou ao recuo das vendas de produtos alemães a Angola, que em 2010 recuaram para 263 milhões de euros, segundo o Instituto Federal de Estatística germânico.

O volume das exportações angolanas para a Alemanha, muito dependente do preço do petróleo nos mercados internacionais, chegou aos 228 milhões de euros, no ano passado, registando também quebra considerável devido às turbulências económico-financeiras a nível internacional.

Enquanto as importações alemãs são quase exclusivamente de petróleo e gás natural, três quartos das exportações para Angola são veículos e equipamentos industriais.

Entretanto, Angola tornou-se o terceiro parceiro comercial da Alemanha na África subsaariana, a seguir à África do Sul e à Nigéria.

Os industriais alemães mostram cada vez mais interesse em investir em Angola, embora a língua e a cultura de negócios “constituam o principal problema, a par da dificuldade de estabelecer relações pessoais” com empresários locais, sublinhou Romy Rösner, da Afrikaverein (Associação Empresarial Germano-Africana), em recente entrevista à Deutsche Welle.

Em 2007, foi criada uma iniciativa germano-angolana (DAWI) para promover a participação de empresas alemãs na reconstrução de infraestruturas em Angola.

Desde a primeira visita oficial do Presidente José Eduardo dos Santos à Alemanha, em fevereiro de 2009, passaram também a realizar-se fóruns anuais de empresários e responsáveis políticos de ambos os países, alternadamente na Alemanha e em Angola, o último dos quais em junho deste ano, em Munique.

O acordo de proteção de investimentos assinado entre Luanda e Berlim, em 2007, e a abertura de uma segunda linha aérea da Lufthansa para Luanda, em junho de 2009, foram outros aspetos assinaláveis das relações económicas bilaterais.

Além disso, Angola beneficia da ajuda ao desenvolvimento alemã desde 1992, ano em que foram criados três projetos, um dos quais relacionado com a integração de ex-militares na vida civil.

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O passado é um pais distante

Dentro de um mês a chanceler alemã visita Angola, país onde tudo se comercia, do petróleo às obras públicas, dos diamantes à dignidade. Angola é um mundo em confronto. Só não se confronta com a própria história. Na linguagem enxuta da diplomacia durante a visita “serão assinados acordos bilaterais de cooperação” e um “acordo no âmbito cultural”,what ever it means.

Para os alemães, tal como para os portugueses, Angola é um país “especial”, reduz-se a números, volume de negócios e novas vias de internacionalização. Mas não há estatísticas para o sofrimento, para a dor, para os náufragos da guerra, para as vítimas dos massacres. O brilho de Luanda ofusca os anos de chumbo e a desigualdade de um país onde se sonhou uma “sociedade sem classes e os amanhãs que cantam”.

Indigno-me. Porque a memória é um dever, porque as atrocidades não prescrevem, porque a desculpa ” foi há 30 anos, em África em contexto pós-revolucionário, no auge da guerra fria”, é obscena. Indigno-me para que o silêncio não seja a regra. Porque quando se esquecem os mortos, matamo-los outra vez.

Se eu pudesse alguma coisa recomendaria a Angela Merkel a leitura de três livros sobre Angola. O de Dalila e Augusto Mateus sobre os acontecimentos ocorridos após o 27 de Maio de 1977 – a barbárie da Angola de Agostinho Neto fazem parecer Pinochet um menino de coro, se bem que as prisões de Angola não ficaram cheias só depois do 27 de Maio – o de Leonor Figueiredo , onde se reconstruiu o percurso de Sita Valles, a mulher duplamente traída pelo PCP português e pelo MPLA angolano, e Holocausto em Angola de Américo Cardoso Botelho.

Como sustenta exemplarmente António Barreto muitos dos responsáveis pelo derrame de sangue em Angola “estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá [em Portugal]. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro[ Holocausto em Angola] é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam”.

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Se isto é um país

Em Angola trocam-se favores sexuais nas prisões por comida. A liberdade de imprensa dilui-se a gosto. Os impunes estão cada vez impunes e mais ricos. Escandalosamente ricos. Vista dos vidros fumados, dos condomínios fechados de Luanda, a fome na berma do país não tem cor. É transparente. Não vem no Bilhete de Identidade. O destino do país e do chefe é o confundem-se. O chefe gosta de ser adulado. Incensado. Deixa que a sua corte de espelhos adivinhe o que lhe agrada. Isso deixa uma margem grande de erro para os que o rodeiam.  Equivalente à margem de controlo que o chefe pode ter sobre eles.

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A nova ordem por vir

Desde a independência que Angola se move numa espiral que hipoteca o seu desenvolvimento. A não-manifestação de 7 de Março é o espelho do país. Reflecte a asfixia. E o medo. Porque é  irrisório falar-se de democracia em Angola. 

No entanto os angolanos não saíram à rua, porquê?

Há explicações várias para a não inscrição no protesto. Os angolanos calam-se porque são frescas e escritas a sangue as memórias da guerra civil. É uma estratégia de sobrevivência, não destabilizar a vida que têm. Miserável, mas vida.

Deter o olhar sobre os números também ajuda a entender o silêncio. Apenas vinte por cento dos homens e trinta e cinco por cento das mulheres sabe ler e escrever. Quantos saberão usar o twitter ou colocar status no Facebook?

“A hora de Angola ainda não chegou” sustenta Vasco Martins, numa sagaz análise intitulada “ Empty words of revolution in Angola”.

Eu que sou parcial acrescento: infelizmente.

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Reconstrução angolana made in China

É um clássico angolano. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Façamos uma cronologia breve. Inaugurou-se há quatro anos e trata-se do primeiro hospital público construído em Angola desde a independência do país em 1975. Um cicio da promessa joseeduardista de reconstrução nacional após 37 anos de guerra civil.

Em Junho de 2010, o Hospital Central de Luanda, evacuou os pacientes e o pessoal médico devido às fissuras que o edifício apresentava e ao iminente risco de colapso. Desde essa altura o hospital é um provisório. Funciona em tendas. O Hospital Público de Luanda foi construído pela China Overseas Engineering Group Co e custou oito milhões de dólares.  Dez vezes mais foi investido numa clínica privada (construída por portuguesas e paga pela Sonangol) onde se trata a elite política, petrolífera e os que singraram na vida. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Do mesmo modo que Angola outsourced os seus assuntos de Defesa aos compañeros de Cuba, entre 1975 até 1989, agora cabe à  China reconstruir Angola e dotá-la de infraestruturas, o novo “abre-te Sésamo” da redenção nacional. Troca-se “desenvolvimento” por direitos humanos e liberdades civis. Angola não podia ter escolhido melhor professor. Desesperemos.

Neste triste país rico, que só se sobressalta quando, de repente, pousa o olhar no Facebook e descobre ( pasme-se!) que há alguns que consideram que trinta dois  anos é muito tempo,  ainda há vozes livres, sensatas e certeiras como a de Rafael Marques. Num artigo publicado no World Affairs Journal ele denuncia o novo imperialismo chinês e as promessas incumpridas do Presidente. Vozes como a dele dão-nos esperança que os dias dos nossos ditadores “confortáveis” estejam contados. E se a múmia de Lenine em Moscovo pode ser em breve enterrada, também poder dos Josés Eduardos desta vida pode esboroar-se. Como o Hospital Central de Luanda.

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Voam pelas ruas tão leves como penas

Fotografia de Helena Ferro de Gouveia, Guiné-Bissau, 2009

A Guiné-Bissau é um país especial. O Estado entrou em queda livre depois do conflito de 1998-1999. A última década foi de crises cíclicas, as quais resultaram na degradação progressiva do funcionamento do aparelho estatal e das condições de vida das populações, o que também afectou espírito guineense. Muitos daqueles jovens africanos que se metem em pirogas no mar aberto para alcançarem a Europa, ou atravessam o deserto para que libertos do Norte de África alcancem essa miragem de destino melhor (e só ouvimos falar quando os seus corpos aparecem sem vida nas areias das praias norte do Mediterrâneo), muitos deles são guineenses.

Na Guiné, tal como em muitos países africanos, os jovens têm poucas perspectivas. Há uma música de José Carlos Schwarz que faz referência aos primeiros anos depois da independência e descreve como as pessoas, por já não saberem qual o melhor caminho a seguir, voam pelas ruas tão leves como penas. Três décadas depois da independência, os jovens ainda continuam a querer voar para mais longe do que as ruas de Bissau. No entanto, começam a surgir sinais positivos; muitos jovens formados na Inglaterra, Estados Unidos, Portugal, etc., estão a regressar. Será necessário integrá-los.

No passado recente, com a agudização dos problemas, houve apelos para que a comunidade internacional não abandonasse o país. A contrapartida era que as autoridades nacionais assumissem o interesse maior da nação em beneficio da estabilidade do país para que a população possa finalmente conhecer algum progresso socioeconómico. Ultimamente, a nível bilateral, Angola tem-se sobressaído no seu apoio à Guiné-Bissau, apostando no desenvolvimento económico e reforma das forças armadas. (…)

 A herança de 30 anos de descapitalização em termos educacionais, dinâmicas sociopolíticas de implantação da impunidade, o alastramento do tráfico de drogas, a necessidade urgente de reestruturação do papel das forças armadas auguram um processo longo de consolidação do Estado na Guiné. O papel da comunidade internacional é sempre dependente do posicionamento dos vários interesses a nível internacional, regional e local, em que nem sempre se comungam os mesmos objectivos. Na Guiné-Bissau, com uma população relativamente pequena de 1.5 milhão, é possível que os esforços de organizações não-governamentais a nível local tenham um maior efeito em termos de beneficiar directamente as comunidades face às dificuldades do Estado em se afirmar. O mais positivo (…)na Guiné-Bissau é a generosidade, humildade e a bênção do sorriso guineense, apesar de tantos avanços e recuos.

Aida Gomes, escritora, em entrevista à Buala

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Never ending story…

O longo folhetim do caso Angolagate  estará próximo de um desenlace ? O caso conhecido na justiça francesa como Angolagate recomeça na quarta-feira, em Paris, com o julgamento em recurso do empresário Pierre Falcone, acusado de tráfico de armas, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

O empresário francês, que tem também nacionalidade angolana e que em 2003 foi nomeado pelo governo de Luanda como representante de Angola junto da UNESCO (a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura), foi condenado a seis anos de prisão, incluindo quatro de prisão efetiva, a 27 de outubro de 2009. O tribunal de recurso de Paris reduziu, em dezembro de 2010, a pena de Pierre Falcone para dois anos e meio de prisão efetiva, mantendo-o detido.

Pierre Falcone, juntamente com o empresário de origem russa Arcadi Gaydamak, é um dos protagonistas de um processo polémico cuja instrução começou há mais de uma década e que tem, desde então, envenenado as relações entre Paris e Luanda, mesmo depois de uma visita oficial à capital angolana, em 2008, em que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tentou “desfazer os mal-entendidos do passado” com o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos.

Quando chegou ao Eliseu, Sarkozy elegeu como uma das prioridades da sua política externa a resolução de casos judiciais que Paris acumulou em África e que colocaram entraves à diplomacia francesa – no Djibuti, no Ruanda, na Costa do Marfim, e entre os mais importantes, o Angolagate em Angola. Nos últimos anos, as relações entre os dois países ficaram marcadas por avanços e recuos, muito ao ritmo do processo, que a justiça francesa não abandonou, apesar das pressões de Luanda nesse sentido.

O caso levou ao banco dos réus, em 2009, uma paleta de figuras do primeiro plano da política francesa, incluindo o antigo ministro do Interior, senador e candidato presidencial Charles Pasqua, o filho do antigo presidente François Mitterrand, Jean-Christophe Mitterrand, e um antigo conselheiro presidencial, Jacques Attali, além do prefeito e homem político influente Jean-Charles Marchiani e do escritor e consultor Paul-Loup Sulitzer, entre mais de 30 arguidos.

O Angolagate provocou também sucessivos episódios de crispação entre a magistratura e o governo e a presidência da República franceses, com episódios como a carta do então ministro da Defesa, Hervé Morin, aos juízes e ao Ministério Público, considerando que não havia motivo para a acusação, uma vez que as armas que estiveram na origem do processo não transitaram por território francês. No centro deste processo está o negócio de fornecimento de armas nos anos 90 ao governo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), então em guerra com os rebeldes da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) de Jonas Savimbi, através da empresa Brenco International, que associava Pierre Falcone e Arcadi Gaydamak. Na acusação inicial, resumida em 468 páginas, os arguidos foram acusados de vender armas no valor de 790 milhões de dólares (mais de 570 milhões de euros) ao governo angolano, sem o aval do Ministério da Defesa francês, conforme exigido por uma lei de 1939, o que torna o negócio ilegal.

Os sessenta advogados de defesa no Angolagate, sublinhando uma posição repetida ao longo dos anos pela diplomacia angolana, contrapõem que o negócio foi legal e que o fornecimento de armas ajudou, em última análise, um governo legítimo a combater uma rebelião armada. Os contornos delicados do processo ficaram de novo evidentes, como salientou a imprensa francesa, com a substituição recente do juiz do processo, Christian Pers, presidente do Tribunal de Recurso de Paris, promovido de surpresa para uma posição superior. No seu lugar, o juiz Allain Guillou ficou com escassas semanas para se inteirar de um processo de 60 volumes.

“Este nunca será um processo normal”, escrevia esta semana o jornal francês Le Monde, a propósito dos últimos episódios de um caso sensível. “O Estado francês não quer melindrar as autoridades angolanas, das quais Pierre Falcone é próximo. É um problema estratégico, uma vez que Angola é uma das maiores reservas petrolíferas de África”.

Fonte: Lusa

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Meninos de ninguém

 

Nenhum outro continente tem sido tão usado, explorado e mal interpretado. Marionete das vontades e  avidez de outros, do colonialismo ao teatro  da  guerra-fria, até ao actual capitalismo selvagem de matriz africana. Perceber a África é compreender o mundo  cínico e egoísta no qual vivemos.

Em cidades africanas, como Luanda,  coabitam o brilho metálico das torres e decadendentismo do iates,  com aqueles que diariamente procuram uma sombra, àgua para beber e milho para comer. O Eldorado é para uns poucos, para outros sobra a promessa. Enquanto a “princesa” Isabel (e o clan dos Santos) enriquece diariamente,  as  crianças em Angola são exploradas das piores formas, como se escreve no  relatório, hoje publicado, “2009 Finding on the Worst Forms of Child Labor”, elaborado pelo departamento norte-americano do Trabalho. Crianças de desprovidas de tudo num país escandalosamente rico.

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