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Isabel dos Santos, petrodólares e abutres

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A realidade não é a preto-e-branco. Certo. Mas em alguns momentos é tão previsível. Como esta notícia . Isabel dos Santos, a filha mais velha do presidente de Angola, tornou-se na primeira bilionária africana, segundo a revista norte-americana Forbes.

As ações de empresas cotadas em Portugal, caso do BPI e da ZON, juntamente com activos em Angola, “elevaram o valor líquido da fortuna da engenheira acima da fasquia de mil milhões de dólares, fazendo da empresária de 40 anos a primeira mulher bilionária africana”.

Formada em engenharia no King´s College de Londres, Isabel dos Santos abriu o seu primeiro negócio, em 1997 : um restaurante chamado “Miami Beach”, em Luanda.  Em menos de duas décadas tornou bilionária. E ainda dizem que não há coincidências.

Por uma dessas ironias da vida, esta notícia surge quando faz exactamente um ano que Pedro Rosa Mendes, o jornalista incómodo foi, num trejeito de autoritarismo que Abril não apagou, saneado da RDP, por criticar  Angola.

Na altura escrevi que  as  palavras de Pedro Rosa Mendes aos microfones da Antena 1 – um retrato em que ninguém fica bem ao espelho, nem a elite portuguesa, nem os engravatados angolanos – incomodaram o “baton da ditadura” e alguns serviçais lusos que vendem princípios a preço de saldo.

A verdade sobre a “oleocracia” angolana, país onde a cornucópia da riqueza é restrita a alguns e mais de metade da população vive na mais abjecta pobreza, é uma fronteira que não se atravessa. É um toque de lepra.

Se isto não é obsceno, o que será?

 

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Arquivo Digital sobre as lutas coloniais

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A Fundação Mário Soares vai lançar, na sexta-feira, uma plataforma que disponibilizará na Internet documentos de arquivos públicos e privados dos países de língua portuguesa, pretendendo auxiliar principalmente os investigadores.

“Trata-se de criar uma plataforma de uma comunidade de arquivos de língua portuguesa, juntando arquivos públicos e privados, desde já alguns de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor-Leste e do Brasil”, disse à Lusa Alfredo Caldeira, administrador do arquivo e biblioteca da Fundação Mário Soares.
Os documentos (entre textos, fotos, vídeos e áudios) estão disponíveis para consulta pública no sítio eletrónico http://www.casacomum.org.

“Neste momento, já estão cerca de 1.500.000 páginas online e vai crescer, pouco a pouco, a partir do lançamento”, sublinhou Alfredo Caldeira, coordenador do projeto.  O responsável declarou que, no dia 20 de janeiro, estará disponível
um novo arquivo, sobre Amílcar Cabral — um dos principais líderes na luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde -, com cerca de 40 mil documentos. “A ideia é que um investigador, esteja em Nova Iorque ou em Bissau, possa aceder à documentação de interesse que outros arquivos disponibilizaram”, afirmou.

Os arquivos estão “bastante centrados na história das lutas de libertação e de resistência, mas também de personalidades de variados tipos que podem ser interessantes”. Os documentos são, principalmente, dos séculos XIX e XX, mas também há documentação histórica mais antiga, remontando ao século XVI.  “A Fundação produziu a plataforma informática (do sítio eletrónico na Internet). Por enquanto, somos nós que faremos a gestão, sobretudo por razões técnicas”, afirmou.

Estão disponíveis para consulta documentos, entre outros, do Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe, do Arquivo Histórico da Resistência Timorense, do Arquivo Mário Soares, do Arquivo Mário Pinto de Andrade (sobre Angola), do INEP (Bissau), e documentos de personalidades como Malangatana Valente Ngwenya, Abel Salazar e Bento de Jesus Caraça.
LUSA

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Aerograma

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Não sei se se lembram dos “bate-estradas” ou “corta-capins”, os aerogramas enviados aos e pelos soldados portugueses no Ultramar? Pedaços de papel que aquietavam ou desassossegavam corações. Chegavam sempre atrasados à vida, embora eternizassem momentos. Que não dariam eles para trazer palavras com olhos? Iluminando poentes cor de sangue. Iludindo o medo, as emboscadas, a solidão debaixo das folhas dos cajueiros. Tornando mais curtos os dias que faltavam a o final da comissão.

 Estima-se que em treze anos de guerra colonial 200 milhões de aerogramas tenham sido recebidos e enviados. Neles se testemunha o catálogo de horrores da guerra colonial, os silêncios e as lágrimas engolidas. Mas também os gritos de amor e um agarrar desesperado à bóia uma réstia de normalidade (seja a matança do porco ou a esperança que o Sporting vença o Benfica).

 O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa catalogou parte desta correspondência esquecida. Pesquisando, entre muitos aerogramas, embaciaram-se-me os olhos com um enviado de Ambrizete, Angola, para Ponta Delgada. Escrito por um filho para uma mãe. É a transcrição de um poema da angolana Alda Lara,”Toada da Menina Bela”, acompanhado da seguinte anotação: “como em Ambrizete não encontrei cartões próprios para este dia, resolvi transcrever o poema e enviá-lo com um grande beijo para o dia de hoje. Para menina bela (e sem “birras”) que é a minha mãe”.

Notas à margem: Como eu gostava de ter os aerogramas trocados entre os meus pais.

A poesia da Alda Lara lembra-me a minha mãe-negra guineense, de quem só tenho uma fotografia ( onde estou ao colo dela) e as palavras sussurradas na despedida: “quem vai embalar a menina?”.

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Princípios, guerra, pobreza: anotações à margem do Natal

1.O eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência.

Deixem-me fazer aqui um parêntesis para vos falar do F. Conheci-o no local onde costumo tomar café e ler o jornal. Cruzamos-nos muitas vezes, sem termos trocado palavras. É um velho que traz no rosto a geografia da vida e se esconde sempre por detrás de um livro. Um dia eu trazia comigo um livro sobre judeus alemães e ele pediu-me desculpa e perguntou “é judia”? Respondi-lhe que não, que estava a fazer uma investigação. Quis revelar-me um segredo.

No mais improvável lugar de todos para ter esta conversa, aquele alemão quase com noventa anos (nasceu em 1925), recuou dezenas de anos rumo ao passado. Esta conversa não vai ser fácil, apetecia-me providenciar o meu desaparecimento, mas decido ficar. F. contou-me que havia sido convocado para a Wehrmacht, já próximo do final da guerra, a família tinha sido fervorosamente pró-nazi na década de trinta. Ele vivia no terror de matar ou ser morto. Quando chegou a inevitável convocação resignou-se. “Não tive coragem de desertar, nem de resistir. Fui um cobarde”. Desceu ao Inferno. Disparou vezes sem conta, para não morrer teve de ser ele a matar, tiro à vista, o ódio no branco dos olhos. Quase morreu de frio. Memórias difíceis de serem ditas. Acabou prisioneiro de guerra na Rússia. Ensombra-se-lhe o olhar. Arrepio-me. Sinto-me gelada por dentro. Comove-me aquele velho, quebrado, que espera o impossível, que lhe perdoe, eu, interposta pessoa, em nome às vítimas de uma ideologia demente. Repugna-me o jovem nazi que foi. Um dilema terrível.

Disse-me que depois da guerra estudou Literatura, que as palavras de autores judeus, que demorou anos até conseguir ler, foram o passaporte para entender o seu crime, o crime, a ignomínia da Alemanha. ” O que é terrível procuramos a verdade é quando a encontramos”. “Há um limite. Não me perdoo não ter resistido. Não é verdade que tudo passe. Carreguei toda a vida a vergonha e o pesadelo. Estou quase a morrer. Os sobreviventes estão a desaparecer. Mas o horror, esse lugar que ninguém admitir existiu. Existe. Obrigada por me ter ouvido” .

F. levantou-se e deixou-me com a minha angústia em frente a uma chávena de cappucino frio.

Esta conversa sobre o território vasto do horror fez-me admirar ainda mais aqueles que tiveram a coragem de resistir, de contrariar o eterno destino dos princípios.

2. Este longo parêntesis serve de prelúdio para um ensaio, “Portugal, Finis Terrae”, publicado na Lettre International alemã, onde entre muitos outros aspectos se fala da relação entre Portugal e Angola.

“Angola é hoje Circus Maximus da nova exploração colonial num projecto de capitalismo de rapina sob a égide de um regime de origem e carácter estalinista”. Este binómio, Lisboa-Luanda, inverteu-se no entanto, numa espécie de vingança histórica. “Hoje são os filhos e os netos dos colonialistas portugueses que trabalham nos estaleiros, pedreiras e na construção civil como semi-escravos dos antigos “nativos” e “assimilados” da “Província Ultramarina” que era o orgulho de Salazar”. Sem Angola, escreve Pedro Rosa Mendes,”Portugal seria incapaz de sobreviver. O que coloca a questão, como nos anos setenta, da soberania, não de Angola, mas a nossa”.

“A nação portuguesa ( de nove séculos!!) confronta os seus mitos com a realidade da sua existência periférica e recicla na “lusofonia” o discurso do excepcionalismo português cozinhado a partir do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A pobreza enfim volta a ser condição normal do cidadão português médio. Resignação, rancor e inveja social – marcas ancestrais de uma população que poucas vezes teve a coragem de ser povo para mudar o seu destino – formam o código operativo de sobrevivência individual”.

Embora não concorde com tudo o que Pedro Rosa Mendes escreve neste ensaio, um retrato feroz do país onde o prestigio social do “Schein” (parecer) é muito mais forte do que o do “Sein” (ser), considero a sua leitura indispensável. “Há uma geração os portugueses viviam abaixo das suas possibilidades, o cidadão médio consumia um copo de leite por dia, um pedaço pequeno de carne por semana, três ovos por mês e um frango por ano”. O país não andará muito longe de regressar a este passado, muito por culpa dos cúmplices de Salazar: as nossas “elites” . “Exemplo mais grotesco? O ministro Miguel Relvas” ( e mais não traduzo, ide ler, ide).

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Anjos

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Correm as horas. Vorazes. Dizemos que não temos tempo, quando nunca fomos tão livres para escolher o que fazer com ele. Vivemos num palco de extraordinárias expectativas, inatingíveis. Quantas vidas vivemos por procuração? Ou quanto medo temos de ser sentimentais, num mundo asséptico de sentimentos?

 Mas há, na era do individualismo e da indiferença quem nos devolva candura, quem nos encha o firmamento de pontos de luz, quem se recusa a ver no sofrimento uma abstracção e age.

Hoje chegaram-me duas histórias reais. A de um jovem polícia nova-iorquino que ao ver um sem-abrigo sem botas, entrou numa loja, comprou um par de meias grossas e umas botas. Um gesto sem preço, bem mais valioso que os 75 dólares que gastou. “Eu tinha dois pares de meias e ainda tinha os pés frios”. Ser-se sem abrigo nos Estados Unidos é uma abominação. É quase uma condenação. À solidão, à doença, à miséria e à injustiça. Um sem-abrigo é invisível aos olhos insensíveis da sociedade. O gesto do polícia foi registado por telemóvel e comoveu milhões de americanos. Às vezes a solidariedade precisa de um abanão.

A segunda história aconteceu aqui na Alemanha, sobriamente, sem holofotes. Duas mulheres fizeram muitos quilómetros de estrada para visitar um menino angolano de onze anos – vítima de uma mina anti-pessoal e que irá ser operado num hospital da antiga RDA – e para ler à pobre criança apavorada histórias infantis em português. Um verdadeiro conto de Natal.

Estes anjos, e felizmente ainda há tantos, não precisam do meu agradecimento, mas faço-o “em nome dos que dormem ao relento/Numa cama de chuva com lençóis de vento/O sono da miséria, terrível e profundo”. O Natal? São eles. O eu pelo outro.

PS – Já agora deixo aqui um apelo:

“Há crianças doentes em Berlim, sozinhas num quarto de hospital, que só precisam de quem fale português com elas – ajude-nos a ajudá-las!

Em Berlim e arredores há várias crianças angolanas internadas em hospitais para tratamentos muitas vezes demorados, e que não falam alemão nem têm nenhum contacto social para além dos médicos e enfermeiras. Ficam na Alemanha, longe dos seus familiares, semanas e muitas vezes até vários meses, antes de terminarem os tratamentos e poderem regressar ao seu país de origem.

A sua vinda para a Alemanha é assegurada por organizações de ajuda humanitária que possibilitam a essas crianças tratamentos e curas hospitalares às quais de outra maneira nunca teriam acesso.

Elas precisam antes de tudo de conversar em português, de alguém que traduza os seus medos e as suas necessidades às equipas dos hospitais, e também quem lhes traduza a elas quais os procedimentos, operações e tratamentos que lhes vão ser aplicados.

Algumas crianças nem sabem que estão na Alemanha. Sabem que estão num lugar estranho, longe dos pais, doentes, com muitas dores, „presas“ a uma cama e sem conseguirem comunicar.

As equipas dos hospitais são regra geral extremamente competentes e estão empenhadas em proporcionar às crianças o melhor tratamento possível. Mas sem compreenderem a língua, estas crianças têm medo do que lhes vão fazer, não entendem o que está a acontecer e passam o dia sozinhas.

O magazine Berlinda.org apela a todos os falantes de português que dêm um pouco do seu tempo para aliviar a vida destas crianças.”

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O mundo é um T0

“Meme” (Grande mãe) Helen. Gostava que acompanhasse hoje uma reportagem importante. É aqui perto. E é muito importante”. Não havia como recusar o pedido da directora da NBC Oshiwanyama.

Perguntei qual era o tema: o início (simbólico porque estamos em época de chuvas) da construcão de uma estrada de gravilha, com a presença do ministro do Trabalho e Transportes. Num país novo como a Namíbia, onde faltam infraestruturas para ultrapassar o isolamento das populações, um grande acontecimento. O “aqui perto” era lá onde acaba a estrada, a mais de 350 quilómetros de Oshakati, num lugar encostado à fronteira com Angola tão remoto que nem consta no mapa. Areia até ao fim do olhar em qualquer direcção. Três tendas brancas montadas para a ocasião.Novembro é mês de chuvas e ventos.

A hospitalidade namibiana concedeu-me um lugar na tenda, em frente ao pódio erguido para os discursos, com uma alcatifa cinza a cobrir a areia e o luxo de cadeiras de plástico forradas de tecido branco. Quando deixei de observar fascinada os trajes coloridos das mulheres, o fato cor de caramelo do governador da região combinado com uma camisa vermelho viva saída de um filme do anos setenta, e contar os cães magros que corriam pela areia, acabaram os discursos. As mulheres levantaram-se e entoaram cantares tradicionais. Imaginem o que é estar num lugar que nem vem no mapa e ouvir a dada altura: “Viva SWAPO ( o partido da independência namíbiana). A luta continua. A vitória é certa.” Em português.

Quando cheguei a Oshakati, vinda de Windhoek, a primeira imagem que retive desta cidade em terras de fim de mundo foi a mais improvável de todas: a Torre de Belém. Eu explico à entrada da cidade fica o Hotel Rocha’s que ostenta uma enorme bandeira portuguesa e outra angolana ( tenho de ir “investigar”) cujo logotipo é a Torre de Belém. Okuti kwa dala ( bem vindo a casa depois de uma longa viagem).

O mundo sempre me pareceu um T0 (a pedido do Rui Zink eu explico: “tzero”).

PS- As recomendações do meu amigo são todas verdade. Não provei os Mopani.

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Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

- “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

- “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

- “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

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