De volta mas non troppo

Leves como o vento do Sul passaram os dias de férias. As tertúlias com os amigos transportaram-me ao tempo suspenso dos melhores anos da nossa juventude partilhada. Dissemo-nos a mentira doce de quem vê com o filtro de gostar: “estás na mesma”. E rimos como crianças apanhadas em flagrante, com os dedos lambuzados de doce de abóbora.

Como os amigos – verdadeiros anjos da guarda nesses dias breves e que me dão a convicção inabalável de ser uma sortuda – Lisboa não me desertou. A largura do Tejo, o Oceano lá ao fundo, o vermelho desbotado da ponte que traz o nome da revolução, o céu, a extraordinária luz e a caverna de Ali Baba que são as livrarias ( saio sempre delas a dizer upsss como vou por tudo isto na mala).

Na primeira tarde em Lisboa fui espreitar o Mosteiro dos Jerónimos, passar pelos jardins da minha meninez, deliciei-me com uma bica e pastéis de Belém. Antes de subir a calçada da Ajuda parei um instante, a dar tempo para acalmar dentro de mim a emoção que me tomava. Nestas ruas da cidade passeei, amei, sonhei com viagens, cresci. Preciso desta cidade como do ar que respiro. Mesmo que seja por breves instantes. Faço-lhe ( faço-me) a promessa de um dia regressar. Ou ir regressando.

A semana de trabalho que antecedeu as férias foi plena. Trouxe-me a Lisboa uma reportagem – sobre a passagem de judeus alemães por Lisboa durante a Segunda Guerra- e as “estórias” dentro da História. Desconhecia, por exemplo, que a bola de Berlim da minha praia, da minha infância, chegou a Portugal com os refugiados judeus, assim como o iogurte ou os colchões de molas. Ao preparar este trabalho lembrei-me tantas vezes desta frase de Mia Couto: ” a dor é uma estrada: você anda por ela, no adiante da sua lonjura, para chegar a um outro lado. E esse lado é uma parte de nós que não conhecemos”.

De Lisboa segui para a Madeira.
Mimar as miúdas, reencontrar a família, mergulhar no azul liquido e deixar escorrer as horas por entre os dedos, longe do computador e de livro( livros, muitos e bons livros) na mão, este é o breve resumo de duas semanas que passaram tão rápido que só me apetece perguntar que urgência era aquela. A vida e as suas rotinas (mesmo que as minhas “rotinas” estejam nos antípodas do rotineiro) apanharam-me na sua roda.
Deixei para traz, a contragosto, filhas e marido (com férias mais longas)e ancorei de novo em Bona. Por pouco tempo é certo.
A primeira coisa que fiz quando cheguei foi pegar no carro e ir buscar a cadela ao melhor hotel de cães do mundo – o hotel Magalhães, que nenhum dinheiro paga – na Bélgica. Cobriu-me de mimos e lambidelas a parva da cadela, com aquele amor único, incondicional e estupidamente feliz de que só os cães são capazes. E eu correspondi em festas. Confesso. Fazia-me falta aquela presença tranquila deitada ao meu lado quando leio. Agora com a casa vazia fico mais dependente da adoração inabalável da Klecks, creio que até já lhe perdoei o ter roído os meus sapatos novos.

No regresso ao trabalho um amigo pergunta-me meio a sério, meio a brincar: ” o quê vais ficar uma semana inteira em Bona?” Pois. Balsas e Cruzeiro do Sul na Amazónia são os meus próximos azimutes. Life is so fair.
Portanto olá e até breve.

PS- 1.Um beijo aos melhores amigos do mundo. Os meus.

2. Mil beijos às filhas mais doces do universo e me que fazem agradecer todos os dias a benção de ser mãe.

3. Há momentos que penso que tenho a melhor profissão do mundo.

4. Obrigada aos leitores fieis do Domadora que foram escrevendo ( e queixando-se da ausência de posts). Aos que conheço pessoalmente e aos virtuais um enorme abraço. Agora vou deixar o iPhone e ir dormir antes que isto pareça a lista de agradecimentos dos Óscares.

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