A Beira

Quem procure não apenas a história, mas os bastidores onde a história e as estórias individuais se desenlaçam, encontra aqui pano para muitas mangas.

Esta cidade, a segunda maior de Moçambique,  a cidade rebelde,  “onde ibéricas heranças de fados e broas se africanizaram”, provoca acrobacias da emoção. Inventariemos. Prédios, imensos, esventrados, erguem-se altivos, bem acima da copa dos jacarandás e das figueiras da Índia. Ruínas, com varandas de onde escorre água suja, abrigando, em tempo de paz, os desalojados da guerra.

As ruas formigam de vida. Mulheres com bebés amarrados nas costas vendem caju. Homens de bidons amarelos compram água no beiral de uma porta. Uma menina com talvez sete, oito anos transporta um bebé, aconchegado numa capulana com o rosto do edil Daviz Simango. Na cabeça equilibra um cesto pleno de bananas.

Estranha-se o cheiro intenso, o lixo, a fome terrível, os vultos silenciosos vestindo trapos e as crianças de pés descalços, condenados ao movimento perpétuo e circular da pobreza. A “ponte dos cegos”,  junto ao Hotel Moçambique, é lixeira a céu aberto e cemitério de plásticos durante o dia. Quando desce a noite e o passeio se esvazia de  “calamidades”, roupa enviada dos países ricos e trocada por um punhado de meticais, a ponte metamorfoseia-se em cama.

Estranha-se o shopping center construído ao lado da prisão. Edifício belíssimo, que deixa adivinhar sobrelotação e, desconcertantemente, nos permite olhar nos olhos os presos que acenam à janela.

Nada disto impede que pelas frestas da narrativa do desamparo possam emergir instantes suspensos de pura serenidade. A Beira, playground  da  arquitectura portuguesa que nela explorou, na década de cinquenta e sessenta o modernismo tropical, revela-se fascinante. Avenidas amplas, praças espaçosas, o Índico à distância de um olhar.Vários edifícios coloniais foram restaurados, acolhem bancos ou sedes de empresas. O Hotel Tivoli foi renovado, o Hotel da Beira rebaptizado em VipInn Beira. Sinais de um futuro que se anuncia. Basta escutar a babel de línguas na cidade e passar pelo porto.

About these ads

4 Comentários

Filed under Mocambique

4 responses to “A Beira

  1. Gostei particularmente deste seu post. Obrigada pelo prazer de a ler.

  2. Bom seria que o futuro fosse mais amparador… e que varresse todo o lixo, literalmente e não só.

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s