O Pacto

Uma das coisas essenciais para um debate sereno, e não histérico, sobre a crise da dívida e o papel da Alemanha é começar por conhecer a única potência europeia actual. Só que muitos se recusam a faze-lo, por motivos vários. Há a barreira da língua, da cultura, há um desinteresse estrutural – basta ver que, com excepção da agência LUSA, nenhum órgão de comunicação social português tem correspondente em Berlim – e há o preconceito que agrilhoa a Alemanha a seu passado nacional-socialista, ao horror do Holocausto, aos Lager. Como se a Alemanha não tivesse feito um longo, intenso, doloroso e exemplar percurso de confronto com o seu passado. Confronto que se foi intensificando à medida que os 12 anos do III Reich se foram distanciando e que se acentuou com a reunificação do país em 1990.

Ler algumas colunas de opinião da imprensa portuguesa é um exercício masoquista para um germanófilo. A crise da dívida europeia fez regressar velhas clivagens e incompreensões Voltaram argumentos cavernícolas, as teorias da conspiração e vieram de tona os ódios de sempre uma vez estalado o verniz civilizacional.

Numa excelente análise publicada no blog da Helena Araújo dá-se um exemplo concreto – referindo-se ao “Pacto de Redenção” (a que o jornal i chamou uma “humilhação”) –  dos disparates a que o preconceito ou a ignorância  conduzem. “Debalde tentei encontrar o tal “pacto de redenção” em alemão. Só encontro “Tilgungspakt”. Tilgung é a palavra usada nos créditos bancários para designar a amortização da dívida. Como terá sido possível passar da “amortização” alemã para a “redenção” portuguesa? Para responder a esta questão, o melhor é procurar o culpado entre os suspeitos habituais: se não forem os jornalistas, são os tradutores. Provavelmente passou-se isto: Tilgung foi traduzido para “debt redemption” em inglês, e abreviado para “redemption”: European Redemption Pact. “Redemption”, em inglês, tanto pode significar “redenção” como “amortização”, mas o tradutor de português deve ter faltado às aulas de inglês comercial e financeiro para ir à missinha, e traduziu como lhe ocorreu sem pensar muito”.

Pois é, a linguagem é o primeiro instrumento de todas as trocas e muitos conflitos e desacordos têm origem em problemas de linguagem.

Este episódio da “redenção” ganha especial significado porque numa penada se associou a uma ideia que está a ser debatida internamente na Alemanha  –  note-se o que  pacto de amortização da dívida conta com o apoio  da esquerda, tanto de sociais-democratas e  como dos verdes,  que torce o nariz aos Eurobonds pelos mesmos motivo que  do que a chanceler – a uma divisão Panzer prestes a avançar Europa fora. Pode-se argumentar que a Alemanha tem falta de visão, que é egoísta, que o seu modelo económico não se adequa a todos os países da zona euro, agora pintar um bigode de Hitler na cara de Angela Merkel, e fazer de todos alemães alegres portadores de suásticas é de baixa, baixíssima costura.

 PS – Será que os portugueses se gostariam de ver retratados ad nauseam, na imprensa alemã – o que não acontece, mas poderia acontecer –  como exploradores esclavagistas e opressores colonianistas? Mueda, Kassanje, Wiriyamu, Sambassilate, Pidjiguiti, dizem-lhe alguma coisa?

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2 Comentários

Filed under Alemanha, África, Portugal

2 responses to “O Pacto

  1. Gostei muito deste artigo.
    Costumo dizer a alguns amigos portugueses que ainda há muitas mentalidades fomatadas pelos livros do “Major Alvega” (material inglês propagandístico do pós-guerra).
    Às vezes é aflitivo olhar os jornais online porque parece que estão mais “preocupados” com o que diz a senhora Merkel ou o que se passa na Alemanha, do que com as coisas que realmente interessam em Portugal. E no fundo não conhecem a Alemanha e os alemães.
    Também li essa notícia da “redenção da dívida” e cheirou-me logo a má tradução, mas a explicação que a Helena indica faz todo o sentido.
    Saudações

  2. Helena Araújo

    Obrigada pelo “excelente análise”.
    Quanto a Wiriamu e todas essas tragédias: ah, isso não foram os portugueses, foram uns rapazolas. Os portugueses, como todos sabem, são o único povo amado no mundo inteiro. Nada que se compare com os colonizadores espanhóis, por exemplo.

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