Rotas

Recordo o deslumbramento que exerciam sobre mim, na  minha infância , os atlas.Traçava linhas com dedos sobre os mapas, de Antioquia a Nanquim. De Fez ao Cabo. Percorria com a ponta dos dedos as rotas que conhecia dos livros de história. Sabia de cor rios e desertos africanos. Imaginava as paisagens, os sabores, o cheiro a canela, a cravinho, pau-rosa e menta, e as gentes. Fantasiava o abraço quente da areia no Namibe, o afago da chuva forte, como num ensaio para o dilúvio. Imaginava-me repousando à sombra dos embondeiros e quase que conseguia ouvir o ruído das feras na savana.

Hoje nómada irrequieta e atenta, viajante de geografias desconcertantes, sinto às vezes saudades do meu atlas de infância. Da sua candura. O atlas-livro conservei-o com a ternura que se dedica aos amigos de longa data, as viagens imaginárias que me proporcionou estão numa gaveta da memória embrulhadas com o papel de seda reservado aos dias felizes. Graças ao meu  atlas corri a África, de costa a costa,antes de ter ido lá e nunca precisei de guia. E ainda há quem diga que as mulheres não sabem ler mapas…

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3 Comentários

Filed under Coisas do Mundo

3 responses to “Rotas

  1. “o meu atlas de infância. Da sua candura”

    É de facto cândido – e enganador – um atlas no qual a Austrália e a Gronelândia parecem ter o mesmo tamanho, quando na verdade a Austrália é 3,5 vezes maior (em superfície) que a Gronelândia.

  2. Luís,

    como os mapas são representações planas de algo que possui volume ( a Terra), é inevitável a existência de distorções, significando que todas as projeções apresentam deformações de distância, áreas ou ângulos…

  3. jaa

    Também gosto de atlas. Mas não é que as mulheres não saibam ler mapas, Helena. Especialmente mapas genéricos. O que as mulheres não conseguem (com excepções, claro, que certamente incluem todas as leitoras deste blogue*) é usar um (em particular um daqueles que têm emaranhados de estradas, avenidas, ruas, travessas e becos) para de ir de A a B.

    * Nem assim vou conseguir safar-me, pois não?

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