O passado é um pais distante

Dentro de um mês a chanceler alemã visita Angola, país onde tudo se comercia, do petróleo às obras públicas, dos diamantes à dignidade. Angola é um mundo em confronto. Só não se confronta com a própria história. Na linguagem enxuta da diplomacia durante a visita “serão assinados acordos bilaterais de cooperação” e um “acordo no âmbito cultural”,what ever it means.

Para os alemães, tal como para os portugueses, Angola é um país “especial”, reduz-se a números, volume de negócios e novas vias de internacionalização. Mas não há estatísticas para o sofrimento, para a dor, para os náufragos da guerra, para as vítimas dos massacres. O brilho de Luanda ofusca os anos de chumbo e a desigualdade de um país onde se sonhou uma “sociedade sem classes e os amanhãs que cantam”.

Indigno-me. Porque a memória é um dever, porque as atrocidades não prescrevem, porque a desculpa ” foi há 30 anos, em África em contexto pós-revolucionário, no auge da guerra fria”, é obscena. Indigno-me para que o silêncio não seja a regra. Porque quando se esquecem os mortos, matamo-los outra vez.

Se eu pudesse alguma coisa recomendaria a Angela Merkel a leitura de três livros sobre Angola. O de Dalila e Augusto Mateus sobre os acontecimentos ocorridos após o 27 de Maio de 1977 – a barbárie da Angola de Agostinho Neto fazem parecer Pinochet um menino de coro, se bem que as prisões de Angola não ficaram cheias só depois do 27 de Maio – o de Leonor Figueiredo , onde se reconstruiu o percurso de Sita Valles, a mulher duplamente traída pelo PCP português e pelo MPLA angolano, e Holocausto em Angola de Américo Cardoso Botelho.

Como sustenta exemplarmente António Barreto muitos dos responsáveis pelo derrame de sangue em Angola “estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá [em Portugal]. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro[ Holocausto em Angola] é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam”.

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1 Comentário

Filed under Alemanha, Angola, Portugal

One response to “O passado é um pais distante

  1. Quem acreditar que se escreveram 600 páginas de memórias em maços de tabaco, dado não haver papel na prisão onde esteve Américo Cardoso Botelho, mas existirem canetas(!!!), cuja tinta durou 30 anos (e não escreveu antes o livro, por falta de …”tempo”), ou é parvo, ou está metido neste negócio que é um verdadeiro “diamante”. Quem é que se convence que um ex-presidiário, volta a Portugal em 1980 e ainda faz uma vasta fortuna, com honestidade e com o suor do seu trabalho, já com 62 anos?
    Nesta, nem os FINNS acreditam…só os parvos de alguns portugueses dos brandos costumes! Deixemos-nos de histórias da “Bela Adormecida”!
    Antes de falarmos de Angola, falemos deste país corrupto!

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