Paciência e atalhos

Sobre o que é mesmo que eu ia escrever? Esperem um bocadinho…Calma. Já sei. Sobre paciência. Mas antes disso uma pergunta: sabe, como se chama à falta de memória no Brasil ? Manifestação do “alemão”. Só mesmo os brasileiros para conseguirem fazer humor com algo tão sério como o Alzheimer. Se eu fosse Deus também escolhia ser brasileiro. Adiante.

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa paciente – até hoje tenho colado no escritório o agradecimento feito por uma estagiária da rádio à minha “paciência elegante”. Fiquei sereníssima quando o pai das minhas filhas me anunciou, pelo Facebook, que ia viajar para um país asiático onde decorre um golpe militar, “fica aqui ao lado e as passagens estão com preços excelentes”.

Ora bem, ainda sobre o efeito do jet lag e a ressacar a falta de futebol, uma destas noites, eu que habitualmente durmo tão profundamente a múmia de Tutankamon, fiquei a “conversar” com amigos e conhecidos no chat do Facebook. Permitam-me um parênteses para explicar a profundidade do meu sono. Há três anos o alarme de incêndio do hotel onde me encontrava, em San Diego, disparou durante a noite. E eu? Nada. Ouvia um ruído ao distante e pensava. “Bolas que o frigorífico faz uma barulheira”. Acordei com uma lanterna apontada aos meus olhos estremunhados e um xerife de meia idade, de chapéu e estrelinha no peito como nos filmes, a dizer-me: “Mammmmm, temos de evacuar de imediato o Hotel. Eu disse de imediato”.

Onde é que eu ia? No chat do Facebook. Durante a minha insónia, uma amiga insistia que eu devia fazer a minha carta astral e dizia-me “os escorpiões são seres inspiradores” (vá-lá não sermos aspiradores). Eu que acredito tanto em astrologia como em gremlins fui-a “escutando”, pacientemente (não sei quem escreveu as “características” das mulheres do meu signo, mas quem o fez é um publicitário exímio). “Vês o escorpião é um ser profundo, além de bom sexo, procura um sentido para vida, foi por isso que estiveste aqui a aturar-me”. Paciência 1 – Sono 0.

Noutra caixa de mensagens, outro amigo, deprimido e com problemas na sua relação amorosa lá foi desabafando. Ofereço-lhe o ombro. Respondo com uns conselhos, umas frases de consolo, entre uma gracinha ou outra. Pu-lo em sossego e o sossego é um estado de bonança. “Onde foste buscar essa serenidade toda?”. Paciência 2 – Sono 0.

Ainda noutra caixa de mensagens pedem-me informações sobre uma cidade que visitei e eu exploro o rio grande da memória. Cedo ao prazer de reencontrar as ruas e as casas coloridas, a praça onde se toma um aperitivo à luz coada do qcrepúsculo e se observam os namorados abraçados como estátuas, os músicos de rua, o mimo que improvisa. Paciência 3 – Sono 0.

Não preciso de explicar as vantagens de aceitar que o tempo não é tão longo como o imaginamos. Aos quarenta anos a minha maior conquista foi precisamente a serenidade. Cada gazela tem o seu leão. Encontrei o meu na hora em que me apercebi que o prazo de validade da vida é um sopro.

Por a vida ser curta o tempo não deve ser desbaratado. Fazendo uma analogia com o futebol, desperdiçar tempo é como num jogo empatado ir trocando a bola, ou passá-la ao guarda-redes ou jogar para pênaltis ao estilo holandês, sem procurar o golo redentor. A partir de uma certa idade é bom procurar atalhos e ir directo ao assunto, com excepção das coisas de alcova onde a devida lentidão e paciência são de bom tom.

Quer fazer uma viagem? Não fique a efabular, marque-a. Alguém o tratou mal? Tire essa pessoa da sua vida. Está com vontade de saltar de parapente? Salte. O grisalho com quem anda a sair não toma a iniciativa ? Beije-o você. Atreva-se. Tome atalhos. Seja o autor da sua existência.

Guarde a paciência para as coisas verdadeiramente importantes.

PS- Hoje nem me aproximo do Facebook. Ohmmmmmm.

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Escravaturas

Estes são os factos:  a baiana Lília de Souza esperou sete horas na unidade da Polícia Federal do Salvador Shopping, para poder tirar a fotografia necessária à renovação do seu passaporte que expirava em Agosto. Quando finalmente chegou a sua vez, em vez de um profundo suspiro de alívio, um enorme constrangimento. Lília teve de amarrar a sua magnífica cabeleira afro porque o sistema não aceitava a fotografia. “O problema é o seu cabelo”. Achei muito estranho ouvir isso”, conta no Facebook, “estava chateada, mas disse “se não tem jeito, tá”. Aí peguei um elástico de borracha para prender o cabelo. Tenho uma relação muito forte com a minha identidade negra. Eu gosto do meu cabelo e, naquela foto, fiquei terrível”.

Episódios destes são recorrentes no Brasil e dizem muito acerca de um país onde a grande maioria negra e mestiça continua a ser discriminada, mesmo no futebol. O autor pernambucano Mário Filho escreveu que “Pelé completou a obra da Princesa Isabel (responsável pela abolição da escravatura no Brasil), porém a realidade contradiz o escritor a abolição ainda não se completou no Brasil. E pior, a maioria “adere” ao sistema.

O estereótipo contemporâneo preconiza: “cabelo esticado é sinónimo de classe”. Andando pelas ruas do Rio, de São Paulo –  e também pelas de Lisboa ou Maputo –  é cada vez mais raro vez uma mulher negra, mestiça ou branca, assumir os seus cachos, como se diz no Brasil, ou caracóis como se diz em Portugal. Algumas até morrem intoxicadas pela utilização de formol no processo de alisamento dos cabelos. Será isto casual? Acredito que não, mas que diz tudo sobre um imaginário em que a mulher é magra, peituda, bumbumzuda, depilada no hemisfério sul como rabinho de bebé e de cabelo liso e escorrido como as nórdicas.

Talvez não saibam o que fazem, mas não estará na hora de subverter a narrativa e acabar com os grilhões internos?

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Diário da Copa – o regresso

A última vez que andei de montanha russa foi em 2012, por insistência da minha filha, na Giant Deeper, no Boardwalk da praia de Santa Cruz. Saí de lá despenteada, sem voz, com a impressão que aqueles segundos de cabeça para baixo duraram no mínimo um século e com uma forte convicção: para montanha russa já basta a vida.

Vejamos. Quer ter a sensação que a cabeça irá explodir a qualquer momento? Entre num avião da Lufthansa no percurso São Paulo-Frankfurt depois da Alemanha ter sido campeã na Copa. Verá adultos, habitualmente circunspectos ou sisudos, mascarados de torcedores, hospedeiras de bordo com unhas pintadas de negro, amarelo e vermelho, de colares havaianos ao pescoço e um nível de decibeis superior ao do Maracanã.

Não costumo ser chata, menos ainda com os homens por quem tenho uma condescendência até suspeita. Porém, qualquer pessoa que viva na Alemanha sabe que quando Deus criou o mundo, criou o silêncio e que sem ele a civilização é impossível. É verdade que levamos algum tempo para nos habituarmos a locais públicos tão animados como o Dorotheenstädter Friedhof (cemitério onde se encontram Hegel e Brecht). Agora imagine que está sentado na última fila do maior avião da Lufthansa, quer rever Casablanca, uma vez que não consegue dormir, nem ler, e a torcida toda veio fazer a festa, literalmente, atrás do seu assento. Pior, dá por si a trautear mentalmente “mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador” e não “moonlight and love songs never out of date,/hearts full of passion, jealousy, and hate;/ woman needs man and man must have his mate,/ that no one can deny”. O futebol é um vírus.Contagioso.

Quer desvios vertiginosos? Experimente tentar ir à casa de banho por entre a torcida, é mais difícil do que meter um golo ao Neuer.

Quer sobe e desce? Nada como as habituais turbulências sobre o Atlântico (bem abençoadas sejam que silenciaram os ruidensis-homo-futebolensis).

Quer o coração quase a sair pela boca? Basta o abraço da Joana – perdoem-me a inconfidência, que veio esperar a Mami um ramo de rosas tão épico como os sete a um no Mineirão – e a parva da cadela a saltar para o porta-bagagens de trela na boca, com um olhar tão meigo como o David Luiz.

Para sofrer, ter emoções fortes e divertir-me basta-me a vida (leram bem isto filhotas queridas?).

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Diário da Copa – Dói, Dói , Dói …schland*

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Day after no Brasil. Depois de descobrir dolorosamente que “Adeus é brasileiro” e a que a “eficiência alemã” não é uma mera figura de retórica.

* título roubado à minha amiga querida Arlete.

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09/07/2014 · 3:32 PM

Diário da Copa – Xikunahity (Futebol de cabeça)

“Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade”, escreveu o Drummond de Andrade numa genial crónica sobre futebol, publicada em 1974 no Jornal do Brasil, que nada perdeu em actualidade quarenta anos depois.

Às 17 horas de Brasília o país pára, de Boa Vista a Blumenau, rói as unhas, abraça a bandeira e invoca todos os santos, orixás, bruxos, e feiticeiros. É difícil descrever para quem não está no Brasil o que se sente, como se vivem as últimas horas antes do jogo “mata-mata” com a Alemanha.

“Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura”. Os adeptos na sua impotência jogam mais que os onze em campo.

“Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo”. Falemos de outra coisa.

Recorda-de do espetacular golo de cabeça de Robin Van Persie contra a campeã do mundo Espanha? E se eu lhe dissesse que nos cafundós do Brasil não há um, mas vários Van Persie.

Muito antes de Charles Miller importar o futebol para o Brasil, já vários povos indígenas brasileiros praticavam há séculos desportos de equipa usando bolas. Um desses desportos é o Xikunahity, um avó do futebol, em que a bola só pode ser tocada pela cabeça. Usualmente num mergulho.

Praticado tradicionalmente pelos povos Paresis, Salumãs, Irántxes, Mamaidês e Enawenê-Nawês, de Mato Grosso, o Xikunahity é jogado por duas equipes que podem ter oito, dez ou mais atletas e um capitão. Joga-se num terreiro de areia para que a bola possa ganhar mais impulso.

No Xikunahity não existem golos. As equipes pontuam quando os adversários não conseguem cabecear a bola para o campo do adversário. A bola é fabricada de látex extraído da seiva da mangabeira, árvore típica do cerrado brasileiro. Alguns jogos chegam a demorar mais de meia hora antes que alguma das equipas marque o primeiro ponto.

“Eles se divertem p’ra caramba”, disse-me uma menininha que assistia ao meu lado a um filme no MAR ( Museu de Arte do Rio) dedicado ao Xikunahity. É isso aí: “se divertir para caramba” e (tentar) não esquecer que as meias-finais são apenas um jogo, porque o futebol, o verdadeiro, se joga na alma. E se ama por antecipação.

Note to self: hoje serás como a Suíça, neutra. Assistir a um jogo entre a Alemanha e o Brasil na Embaixada da Alemanha em Brasília vai ser um testes a todos os meus dotes diplomáticos. Ohmmmm.

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Diário da Copa – Formas de voltar a casa

Da minha janela observo os aviões que levantam no aeroporto internacional de Brasília. Nada mais apropriado nesta cidade monumento a céu-aberto desenhada em forma de avião em plena solidão do descampado. “No príncipio era o ermo/Eram antigas solidões sem mágoa./O altiplano, o infinito descampado”, escreve o Vinicius.

Fiquei a observar os aviões  e perdi o sono.

O sinal de cabo do Hotel tem a RTP Internacional e a DW. A televisão portuguesa transmite o noticiário da Madeira e este fragmento da minha vida parece um daqueles cães a correr atrás da própria cauda em círculos cada vez mais apertados. Não é justo dizer que a a vida, ou pelo menos a minha, é “candango”. Candango, em quimbundo, Kingundu (ruim, ordinário, vilão) a palavra usada pelos escravos pelos africanos para designar os portugueses , e que aqui em Brasília designa os trabalhadores (quase escravos) que a construíram.

Como se diz no Brasil gosto de pegar na vida à unha. Assumir o protagonismo nela. Nem sempre escrevo o roteiro ou tantas vezes como gostaria. A vida é algo que se procura e quase sempre nos escapa. E é essa busca que nos faz existir, essa capacidade de nos reinventarmos, de olharmos para dentro e não vermos vísceras, mas horizonte.

Sinto o peso das escolhas. Ainda que o coração de carne bata em  perfeita sincronia o peito entra em combustão instantânea, numa dor cava. Funda. Há um mês que não vejo as minhas filhas, com excepção das reticências na saudade que é o Skype. A minha mãe continua internada.

Outro avião levanta.

A textura da vida é um cristal. Magnífico, feérico, frágil. Tão frágil.

O "H"do Niemeyer.

O “H”do Niemeyer.

 

 

PS – O facto de ter estado a ler documentos das Nações  Unidas com nacos de prosa como estes: “the UN’s High-Level Panel of Eminent Persons”, de ir ver o jogo da Alemanha contra o Brasil, em Brasília, em terreno diplomático, e de o Hotel só ter um restaurante de sushi contribuem para a minha depressão. Ohmmmm

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Diário da Copa – Postais do Rio

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