Balanço de aniversário

Gosto de aniversários. Para mim as rugas são a geografia da vida e um dos seus mais belos atlas. Com os quarenta e três a abrirem-se em fade in posso dar-me ao luxo de perder tempo. E ganhá-lo de outra forma. A meio da vida faz-se a contabilidade dos ontens e questionam-se os amanhãs. O luxo dos meus amanhãs será viajar mais, ler mais, doar-me mais.
Exijo passar pela vida e não que ela passe por mim. Impossible is Nothing.

Quando me debruço à varanda do ano vejo dias luminosos – os dezoito anos da minha filha mais velha, que, como num passe de mágica deixou de ser tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório de mãe – outros que desafiaram a rosa dos ventos, me desalisaram a rotina, e o dia mais triste da minha vida, aquele em que o meu pai partiu. E perdi-o sem nunca o ter tido, há muitos anos que a Guiné mo raptou, e sem nunca ter conseguido ultrapassar o muro do seu silêncio.

Neste ano de vida tive pude visitar vários continentes, dormir no coração da Amazónia como hóspede de uma tribo indígena, acampar em África para observar elefantes, abraçar projectos fascinantes, passar toda a Copa no Brasil, fazer amigos, reencontrar outros. Os novos e os de sempre instalaram-se nos recantos da minha vida, habitam todos dentro de mim. Mesmo os que decepcionaram, me traíram ou que eu desiludi. Nunca as palavras serão bastantes para lhes agradecer os sorrisos cúmplices, as noites passadas a conversar, os conselhos, o carinho, os cappuccinos e brigadeiros compartilhados, as mensagens no Facebook. O mimo e o amor. Os meus amigos colocam tudo em perspectiva e a gratidão é um dos mais nobres sentimentos, daqueles que nunca passa de moda.

Também os leitores fiéis deste blog, alguns dos quais se tornaram meus amigos reais outros virtuais, fizeram destes 365 dias, dias mais leves. “No fim tu hás-de ver que as coisas mais leves são as únicas/que o vento não conseguiu levar:/um estribilho antigo/um carinho no momento preciso/o folhear de um livro de poemas/o cheiro que tinha um dia o próprio vento…”

E não preciso de escrever o que a minha família significa: somos lua e maré.

Uma vez em Maputo entregaram-me na rua um cartão. Tinha escrito “somos a solução para os teus problemas”. Really? Continuei a ler. Na minha mão um certo “Prof.” maltratava a gramática portuguesa e colocava nesse pedaço de papel as dimensões da vida. Curava “despesas do coração”, prometia um “kamasutra” diário em vez de afectos distraídos, resolvia “problemas de dinheiro”, solucionava “problemas com mulheres”. Ergui prontamente a sobrancelha, como solucionar o insolucionável? Ironia à parte, a solução para os nossos problemas somos nós e aquilo que damos.
A vida será sempre pouca. E eu ainda sou uma miúda, de quarenta e três anos, à espreitar pela escotilha e com curiosidade de saborear o mundo. Já vos disse que adoro fazer anos?

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Eu, instruções de uso

Eu, instruções de uso:

Deixa-me conduzir o carro e escolher o vinho.
Não sejas meu pai, nem meu filho. Sê o meu melhor amigo. Conta-me os teus segredos.
Tem vida própria e deixa-me sozinha quando te pedir.
Leva-me à Ópera e a dançar marrabenta. Dorme comigo numa rede na selva. Dispenso o luxo, troco-o pelo (teu) tempo.
Faz-me rir. Fica ao meu lado (calado) quando eu chorar. Aceita que o Sporting é um amor antigo (e o iPhone o homem da minha vida).
Contraria-me (mas não exageres). Chama-me princesa. Rapta-me da rotina.
Gosta dos meus livros, do Caetano, do Drummond e de sexo. Lê comigo na cama.
Abraça-me pela manhã, abraça-me pela tarde, abraça-me à noite. Toca-me com suavidade (e mente-me dizendo que estou linda quando acordo com olheiras). Enlouquece-me. Enraivece-me. Faz-me cócegas (para podermos reconciliar-nos).
Deixa-me ser o teu porto seguro, massajar-te os ombros quando estás cansado, cozinhar para ti, sussurrar-te poesia ao ouvido, afagar-te os cabelos como a um menino.
Amar-te-ei sem defesas, mesmo nos dias em que acordo de mau humor (e acordo muitas vezes).

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Peque sem culpa

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Feche os olhos. Deixe um quadradinho de chocolate negro derreter-se contra o céu da boca, enlaçar-se na língua.  Peque sem sentir culpa. A ciência absolve-o.

Segundo uma investigação da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, os flavonoides, compostos presentes no cacau, principal componente do chocolate, podem reverter danos na  memória visual que ocorrem naturalmente com o envelhecimento. Deve ser por isso que tenho uma memória de elefante.

Quando viajo e por algum motivo sinto medo ou ansiedade concentro-o todo nesse pedaço de chocolate, que me dá o conforto, a segurança de casa. Quero reduzir a dor  da ausência? Chocolate. Expressar afectos? Chocolate. Só conheço dois prazeres  comparáveis (bem, três se contarmos os beijinhos no pescoço) : um cappuccino italiano – com a espuma na consistência certa, sem demasiado leite e com um bom café de base,  sem ser ao pequeno almoço – e  um livro.

Naqueles dias  madrasta, quando estou parada no trânsito e  cogito planos para fugir para paraísos quentes (está quase), desligar o iPhone para sempre, atirar às urtigas a política de desenvolvimento e converter-me ao budismo,  vale-me o porta-luvas e a sua reserva secreta de chocolate negro. Que seria de mim sem estes pequenos prazeres?Vita Brevis. Claro que,  como em quase tudo na vida os pormenores, são a substância. Abismos separam um Kit-Kat de um Godiva ou um Bounty de um Valrohna.

Voltando à ciência. Uma das mais impressionantes relações do chocolate com a melhoria da cognição foi pesquisada pelo cardiologista suíço Franz H. Messerli, que associou a ingestão de chocolate à conquista do prémio Nobel, num artigo  publicado no New England Journal of Medicin. De acordo com esta investigação existe uma ligação entre o consumo de chocolate e o índice de prémios Nobel per capita. “Está provado que o consumo de chocolate melhora as funções cognitivas. O chocolate cria um terreno fértil para o surgimento de indivíduos que possam chegar a ganhar um prémio Nobel. Foi possível observar uma correlação expressiva entre o consumo de chocolate  por pessoa em cada país e o número de premiados com o Nobel, por cada dez milhões de pessoas, num total de 23 países”. Fascinante.

Façam-me o favor de pecar.

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Ébola e histeria

Vivemos dias de verdadeiro circo político nos Estados Unidos. Bem sei que esta é a época dos circos montarem as suas tendas, mas ao menos que tragam trapezistas, acrobatas e malabaristas, e não o palhaço triste da  histeria. Eu explico.

Kaci Hickox é uma das heroínas na luta contra o Ébola. A enfermeira do Maine foi como voluntária  da organização “Médicos Sem Fronteiras” para a Serra Leoa. Na sua última noite na África Ocidental, confiaram-lhe uma criança que ela viu morrer dolorosamente. Completamente esgotada, física e psicologicamente, a enfermeira de 33 anos de idade regressou aos Estados Unidos.

Porém a sua recepção à chegada foi bem diferente da devido a uma mulher de coragem. Após uma viagem de quase de dois dias – e quem viaja pelo continente africano sabe bem as  incomodidades que isso significa – , mal pôs os pés no aeroporto de Newark, em New Jersey, conduziram-na uma pequena sala lateral, onde foi interrogada “como uma criminosa”. Posteriormente  Kaci  foi transportada de ambulância para o Hospital Universitário de Newark onde passará os próximos 21 dias numa tenda aquecida em quarentena forçada. Importa dizer que os seus testes ao sangue deram duas vezes negativo. Este tipo de procedimento, a quarentena forçada, já foi implementado em quatro estados norte-americanos: New Jersey, New York, Florida e Illinois.

Não é preciso ser-se Anthony Fauci, o imunologista chefe do CDC, Centro de Controlo de Doenças norte-americano, para se ficar estupefacto. “Este tipo de medidas dracónicas sabotam a luta conta o Ébola, porque tornam muito difícil que haja voluntários a viajar para África. A melhor forma de nos protegermos é travar a epidemia em África”. Óbvio não é?

Esta triste história é sintomática das relações do “primeiro mundo” com África de há décadas para cá: os governos dos países “ricos” e não necessariamente só do hemisfério norte (leia-se aqui países como o Brasil e a China também) atiram umas migalhas de ajuda ao desenvolvimento e, em contrapartida, dão guia de marcha às multinacionais que extraem tudo o que podem extrair e enchem as contas bancárias de muitos governantes africanos nos vários paraísos fiscais.

A histeria norte-americana ( e europeia) face ao Ébola  é, sobretudo, o resultado de uma crise de valores – políticos, sim, mas também éticos. Quando as cenas da desolação no continente africano começam a tornar outra vez incómodas nas televisões, convocam-se cimeiras onde ser o assunto deve ser “cuidado com a responsabilidade da comunidade internacional”. Enquanto os ocidentais fazem declarações grandiloquentes de boas intenções, Cuba e a Venezuela, países que não gozam da melhor das imagens a opinião publica e publicada,  e até a pobre Bolívia tem comportamentos exemplares, ajudando onde é necessário: no terreno.

Há uma tira da Mafalda que diz :”e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar. Folheei ontem, enquanto arrumava a biblioteca, o álbum África de Sebastião Salgado, sou da opinião que algumas daquelas fotografias deviam fazer parte de qualquer currículo escolar, pois como escreve Susan Sontag “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado, o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

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O que fazer num domingo com uma hora adicional?

Arrumar a biblioteca pode ser uma provação ou um desafio, jamais um tédio.

Nos últimos anos reuni livros avulsos, para ser exacta 5734, com predominância para autores alemães, brasileiros, africanos – lusófonos e anglo-saxões – mais recentemente latino-americanos. África, o meu continente, estende-se pelas prateleiras com as dimensões do rio Congo.

Alguns livros são novos, outros herdados, outros descobertos em alfarrabistas, com cicatrizes que aprendi a aceitar como parte da sua história antes de mim.
Com cada um deles tenho uma relação, seja pelo lugar onde o comprei, pela pessoa que o ofereceu, pelas circunstâncias que motivaram a leitura. Sou egoísta com os livros, não gosto nada de os emprestar ( é como quem me arranca um dente a sangue frio).

Face aos meus livros sou um tatu-bola, enrolada sobre mim mesma, solitária perante o parapeito do mundo. E essa é uma solidão que consola, quando quero lamber as minhas feridas pego num livro, pois só o real é absurdo, a ficção é sempre possível.
“Aonde leva esta porta? Que jardim floresce do outro lado? Que labirinto?”, interroga-me a Alexandra Lucas Coelho. Fecho o livro com o marcador nesta passagem, coloco-o na prateleira dedicada ao Médio Oriente na vizinhança de um guia de viagens dedicado à Síria. É desolador pensar milhares de anos de herança cultural foram apagados do mapa.

Passo à prateleira seguinte, alinho os meus Veríssimo, pai e filho, os meus Rubens, Braga e Fonseca, o Guimarães Rosa, coloco o Drummond (que compartilha comigo o dia de aniversário) ao lado do Vinicius e do Bilac. Paro por momentos para ver fotografias da Amazónia e quase que sinto o abraço quente e húmido que acolhe quando desço do avião em Manaus.

Neste processo de arrumação descobri livros repetidos, muitas vezes na língua original (sempre que posso leio o original) e a tradução para português, ofertas de amigos bem intencionados e distraídos (a minha irmã ofereceu-me em dois aniversários diferentes o mesmo livro) e alguns tesouros, edições raras ou livros autografados pelos autores.

Gosto de guardar dentro de cada um deles fotografias, postais, recortes de imprensa. Construí uma espécie de diário caótico, “a vida vem em ondas como o mar”, espalhado pelas páginas dos meus livros. “Amadureçam as ilusões da vida/ Prossiga ela sempre dividida/ Entre compensações e desenganos”. E a leitura compensa, sempre.

Quando meu mundo está de cabeça para baixo, arrumar os livros – que nos últimos meses, devido a eu andar pela estrada fora como o Kerouac, formaram estalagmites em equilíbrio precário – suspende-me a tristeza. E suspende o tempo, porque quando dou por mim estou sentada no meu canto de leitura, tendo aberto no mão um livro que era suposto eu estar a colocar no seu lugar. Por mim os dias poderiam ter todos os dias uma hora a mais como este domingo.

PS- Perguntam vocês: “e conseguiu arrumar os livros”? Sim, com um autodomínio enorme e porque queria fazer contas de cabeça para saber quantos metros quadrados ainda tenho disponíveis para novas aquisições.

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Gentileza

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Recentemente apanhei um táxi no Porto, entre o Café Piolho e a Casa da Música.  Estava um dia chuvoso e desagradável, daqueles que convocam o mau humor. Durante os breves minutos da viagem conversei com o condutor, escutei a sua paixão pela arquitectura e pela cidade onde havia nascido. Quando chegámos ao destino, desceu do seu seu lugar,  abriu-me a porta do táxi e despediu-se de mim, não economizando um sorriso, “a senhora é uma simpatia”. Ganhei o dia.

Este episódio fez com que eu ficasse a pensar que a gentileza, o exercício de vestir a pele do outro, é algo tão precioso como subestimado.

Na loucura mansa  dos dias, o não dizer” bom dia”, o não segurar uma porta, o passar a frente de alguém numa fila, o molhar os peões no passeio, o dizer palavras ríspidas, o esquecer-se de retribuir uma atenção, a arrogância, parecem ter uma cotação alta na bolsa da “sobrevivência”.

Porque será que a delicadeza  parece acessória? Talvez por tantos a  confundirem com fraqueza. Não é. Pense. O seu dia melhora se alguém o acolhe com simpatia, seja no café, seja no supermercado ou no autocarro. O abraço apertado do colega de trabalho, o obrigado do amigo, as gomas colocadas sobre a secretária acompanhadas de um post-it, a mensagem no Facebook, são detalhes, pequenos, que nos iluminam o dia. Gestos que arrendodam os cantos agrestes da vida.

A gratuitidade da gentileza, o dar sem esperar nada em troca, torna-a numa espécie de insurreição num mundo materialista, num acto de resistência.”Por maior que seja o desespero/Nenhuma ausência é mais funda do que a tua”, escreveu Sophia. Nenhuma ausência é mais funda do que a ausência de humanidade. E é isso que a gentileza é, humanidade.

PS –  Já ouviram falar no Gentileza? Conhecia-lhe o nome de uma das músicas da Marina Monte e até pisado no Rio de Janeiro, desconhecia a sua história por detrás da música. Gentileza era um velhinho, meio louco, um poeta que pintou  os pilares dos viadutos da cidade, com os seus escritos, o mais famoso do quais, “gentileza gera gentileza”. A sua estética era a sua ética. Googlem.

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Reciclar com AMOR

photo de groupe

Gostava de vos apresentar de um projecto moçambicano de que gosto muito. Trata-se da AMOR, a Associação Moçambicana de Reciclagem, criada em 2009. Actualmente esta ONG já recicla entre 3 e 4 por cento  do lixo produzido no país, e desenvolve várias acções de consciencialização ambiental na s escolas e acções de limpeza na Praia da Costa do Sol.

“Não se pode proteger o Ambiente sem dar poder às pessoas, informá-las e ajudá-las a compreender que estes recursos [naturais] são delas e que elas os devem proteger”, disse a nobel africana Wangari Maathai. É com este espírito que a associação trabalha.

Nas cidades de Maputo e Matola, a AMOR está a implementar desde 2010 um sistema de separação e de recolha dos resíduos sólidos recicláveis para sua posterior reciclagem, através de uma rede de Ecopontos.
Os Ecopontos são pontos de recolha e de compra de papel, papelão, plástico, vidro, metal, óleos e resíduos electrónicos. Além disto, ofereçem um serviço de recolha na sua vizinhança com colectores móveis que, quando solicitados, vão buscar os resíduos recicláveis directamente a residências particulares, instituições públicas ou privadas e a organizações. Posteriormente, os colectores vendem o material recolhido aos Ecopontos. Cada Ecoponto é gerido por mulheres seropositivas da associação comunitária Xidzuki.

É na fragilidade e no mundo que nos encontramos e nos percebemos. Como é incomparável aquele momento em que descobrimos que podemos tornar esta mundo num lugar um bocadinho melhor.

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