Novas do reino da Dinamarca

Respiro fundo e dou um mergulho cibernético. Leio que em Copenhaga abriu o primeiro supermercado gratuito. Os clientes podem levar para casa sem pagar dez produtos desde que não repetidos.
O Freemarket existia na internet há mais de um ano e agora abriu a sua primeira filial física. Mas é tudo mesmo de graça? “Jein”, como diriam os alemães. Quem quer beneficiar dos produtos gratuitos tem de se inscrever na internet e pagar mensalmente 19 coroas (cerca de 2,50 euros). Parece pouco, porém para cada produto gratuito existe uma contrapartida. Se o cliente levar uma garrafa de champanhe terá de “postar” uma fotografia no Instragram, se leva chocolates responde a um questionário. Tenho uma relação estranha com este tipo de coisas, mas também tinha uma relação estranha com o Facebook e rendi-me.
Os próximos Freemarkets deverão abrir na Noruega, Holanda e aqui na Alemanha. Talvez valha a pena experimentar.

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Sexo e afins (não menos importantes)

1.Comecei a manhã a ler no Süddeutsche Zeitung os resultados de um estudo. Esse estudo psicológico demonstrava que apesar do treino específico os polícias de fronteira, esses seres temíveis que nos fazem esperar horas em filas no aeroporto, são incapazes (sete em cada dez casos) de identificar um rosto, ou melhor, de verificar a correspondência entre a fotografia no passaporte e a pessoa à sua frente. Ter polícias ou estudantes universitários nas fronteiras pouca diferença faz é a conclusão do estudo.
Se isto acontece com o visível, com o que mais nos distingue, o nosso rosto, que dizer do mundo invisível que se acoita dentro de todos nós?
Quanto tempo investimos a olhar para outros? A penetrá-lo com sensibilidade atenta ao pormenor, à vida íntima. A descobrir-lhe a fragilidade, os abismos ou a beleza, os momentos lunares e aqueles em que se reinventam como possibilidade? Nada é mais transformador para nós que a experiência polifónica, caleidoscópica, do outro. Nada é mais transformador para o outro do que perceber-se extraordinário, único e não vulgar. ”Se procurar bem você acaba encontrando./Não a explicação (duvidosa) da vida,/Mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Se na vida houvesse aquele ambíguo “volto já” faria uma pausa. Não para hibernar mas para explorar.

2. Num passeio pela aldeia do Facebook deparo-me com uma fotografia do Cristiano Ronaldo, Apolo fabuloso em calções de banho, correspondendo ao desafio do Ice Bucket que há semanas agita o mundo digital. Há poucos exemplares do sexo oposto que sejam, fisicamente, mais perfeitos (com excepção do Clooney, Zeus no Olimpo dos homens bonitos e intocáveis). Pergunto-me se só a perfeição física não será um profundo tédio? Sei que alguns amigos homens responder-me-iam que não, a minha perspectiva é todavia outra.
Bons livros, boa mesa, bom sexo , não necessariamente por esta ordem, sempre estiveram interligados na minha vida. Músculo sem cérebro não me arrepia, não me põe em pé os cabelos dos braços. Agora existe algo mais afrodisíaco do que uma boa conversa, mais ainda se esta for bem humorada, ao jantar?
Homens bonitos, mas sem neurónios são como o iPad, agradáveis ao toque e à vista, incompletos quando comparados com um livro, com cheiro e toque de livro.

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Pôr a escrita em dia

1. Escrevo sentada numa esplanada na Praça da Liberdade, no Porto. Um músico de rua toca evergreens – “Besa-me mucho”, “Yesterday”- no saxofone. O céu está azul-mais-que-azul e a luz do norte imita a de Lisboa, luz sem véu. Leve a brisa torna suportável o calor deste quase Agosto. Fervendo na chávena o café sabe-me a nostalgia, a um condensado de saudade. Intenso. Descubro-me a olhar para o país do meu passaporte com olhos de afago.

Há alguns anos que não passava o Verão em Portugal. Com tanto muito mundo para desbravar, Portugal era um amor antigo, guardado num recanto, embrulhado em papel de seda, um amor que se sabe de cor cada recanto. Cada rocha do Marão, cada castelo, cada curva do Tejo, cada onda desfazendo-se em espuma, cada canção de Lisboa.
O meu coração desce as escadas do tempo, sopra a poeira e eis-me deslumbrada numa praça do Porto. Como uma adolescente recém apaixonada ou uma amante saciada.

Sábio, Drummond escreveu “O amor antigo tem raízes fundas,/ feitas de sofrimento e de beleza./Por aquelas mergulha no infinito,/e por estas suplanta a natureza”.

2. Estava eu posta nestes devaneios quando a Matilde me chamou à terra. A
história conta-se numa penada. Fomos lanchar ambas, eu pedi um pão de ló com doce de ovos ( a segunda coisa mais afrodisíaca para uma mulher depois das palavras e dos beijos no pescoço ) e ela um crepe com gelado. O empregado simpático trouxe o crepe, uma obra artística decorada com uma pauta e uma clave de sol de chocolate. Incauto pergunta à Matilde :Gostas de música?Tocas algum instrumento ?”. Ela fez o seu sorriso mais charmoso e respondeu: “o crepe está muito bonito, obrigada. Porém há aqui uma incorrecção. A pauta tem cinco linhas e não quatro”. Glupp. ” Queres ser música quando fores grande ?”, pergunta o incauto rendido. “Não, a música é um hobby. Quando for grande vou ser chanceler da Alemanha”. O empregado não desmaiou por pouco e aqui a Mami reforçou a gorjeta. Ohmmmm.

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Paciência e atalhos

Sobre o que é mesmo que eu ia escrever? Esperem um bocadinho…Calma. Já sei. Sobre paciência. Mas antes disso uma pergunta: sabe, como se chama à falta de memória no Brasil ? Manifestação do “alemão”. Só mesmo os brasileiros para conseguirem fazer humor com algo tão sério como o Alzheimer. Se eu fosse Deus também escolhia ser brasileiro. Adiante.

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa paciente – até hoje tenho colado no escritório o agradecimento feito por uma estagiária da rádio à minha “paciência elegante”. Fiquei sereníssima quando o pai das minhas filhas me anunciou, pelo Facebook, que ia viajar para um país asiático onde decorre um golpe militar, “fica aqui ao lado e as passagens estão com preços excelentes”.

Ora bem, ainda sobre o efeito do jet lag e a ressacar a falta de futebol, uma destas noites, eu que habitualmente durmo tão profundamente a múmia de Tutankamon, fiquei a “conversar” com amigos e conhecidos no chat do Facebook. Permitam-me um parênteses para explicar a profundidade do meu sono. Há três anos o alarme de incêndio do hotel onde me encontrava, em San Diego, disparou durante a noite. E eu? Nada. Ouvia um ruído ao distante e pensava. “Bolas que o frigorífico faz uma barulheira”. Acordei com uma lanterna apontada aos meus olhos estremunhados e um xerife de meia idade, de chapéu e estrelinha no peito como nos filmes, a dizer-me: “Mammmmm, temos de evacuar de imediato o Hotel. Eu disse de imediato”.

Onde é que eu ia? No chat do Facebook. Durante a minha insónia, uma amiga insistia que eu devia fazer a minha carta astral e dizia-me “os escorpiões são seres inspiradores” (vá-lá não sermos aspiradores). Eu que acredito tanto em astrologia como em gremlins fui-a “escutando”, pacientemente (não sei quem escreveu as “características” das mulheres do meu signo, mas quem o fez é um publicitário exímio). “Vês o escorpião é um ser profundo, além de bom sexo, procura um sentido para vida, foi por isso que estiveste aqui a aturar-me”. Paciência 1 – Sono 0.

Noutra caixa de mensagens, outro amigo, deprimido e com problemas na sua relação amorosa lá foi desabafando. Ofereço-lhe o ombro. Respondo com uns conselhos, umas frases de consolo, entre uma gracinha ou outra. Pu-lo em sossego e o sossego é um estado de bonança. “Onde foste buscar essa serenidade toda?”. Paciência 2 – Sono 0.

Ainda noutra caixa de mensagens pedem-me informações sobre uma cidade que visitei e eu exploro o rio grande da memória. Cedo ao prazer de reencontrar as ruas e as casas coloridas, a praça onde se toma um aperitivo à luz coada do qcrepúsculo e se observam os namorados abraçados como estátuas, os músicos de rua, o mimo que improvisa. Paciência 3 – Sono 0.

Não preciso de explicar as vantagens de aceitar que o tempo não é tão longo como o imaginamos. Aos quarenta anos a minha maior conquista foi precisamente a serenidade. Cada gazela tem o seu leão. Encontrei o meu na hora em que me apercebi que o prazo de validade da vida é um sopro.

Por a vida ser curta o tempo não deve ser desbaratado. Fazendo uma analogia com o futebol, desperdiçar tempo é como num jogo empatado ir trocando a bola, ou passá-la ao guarda-redes ou jogar para pênaltis ao estilo holandês, sem procurar o golo redentor. A partir de uma certa idade é bom procurar atalhos e ir directo ao assunto, com excepção das coisas de alcova onde a devida lentidão e paciência são de bom tom.

Quer fazer uma viagem? Não fique a efabular, marque-a. Alguém o tratou mal? Tire essa pessoa da sua vida. Está com vontade de saltar de parapente? Salte. O grisalho com quem anda a sair não toma a iniciativa ? Beije-o você. Atreva-se. Tome atalhos. Seja o autor da sua existência.

Guarde a paciência para as coisas verdadeiramente importantes.

PS- Hoje nem me aproximo do Facebook. Ohmmmmmm.

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Escravaturas

Estes são os factos:  a baiana Lília de Souza esperou sete horas na unidade da Polícia Federal do Salvador Shopping, para poder tirar a fotografia necessária à renovação do seu passaporte que expirava em Agosto. Quando finalmente chegou a sua vez, em vez de um profundo suspiro de alívio, um enorme constrangimento. Lília teve de amarrar a sua magnífica cabeleira afro porque o sistema não aceitava a fotografia. “O problema é o seu cabelo”. Achei muito estranho ouvir isso”, conta no Facebook, “estava chateada, mas disse “se não tem jeito, tá”. Aí peguei um elástico de borracha para prender o cabelo. Tenho uma relação muito forte com a minha identidade negra. Eu gosto do meu cabelo e, naquela foto, fiquei terrível”.

Episódios destes são recorrentes no Brasil e dizem muito acerca de um país onde a grande maioria negra e mestiça continua a ser discriminada, mesmo no futebol. O autor pernambucano Mário Filho escreveu que “Pelé completou a obra da Princesa Isabel (responsável pela abolição da escravatura no Brasil), porém a realidade contradiz o escritor a abolição ainda não se completou no Brasil. E pior, a maioria “adere” ao sistema.

O estereótipo contemporâneo preconiza: “cabelo esticado é sinónimo de classe”. Andando pelas ruas do Rio, de São Paulo –  e também pelas de Lisboa ou Maputo –  é cada vez mais raro vez uma mulher negra, mestiça ou branca, assumir os seus cachos, como se diz no Brasil, ou caracóis como se diz em Portugal. Algumas até morrem intoxicadas pela utilização de formol no processo de alisamento dos cabelos. Será isto casual? Acredito que não, mas que diz tudo sobre um imaginário em que a mulher é magra, peituda, bumbumzuda, depilada no hemisfério sul como rabinho de bebé e de cabelo liso e escorrido como as nórdicas.

Talvez não saibam o que fazem, mas não estará na hora de subverter a narrativa e acabar com os grilhões internos?

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Diário da Copa – o regresso

A última vez que andei de montanha russa foi em 2012, por insistência da minha filha, na Giant Deeper, no Boardwalk da praia de Santa Cruz. Saí de lá despenteada, sem voz, com a impressão que aqueles segundos de cabeça para baixo duraram no mínimo um século e com uma forte convicção: para montanha russa já basta a vida.

Vejamos. Quer ter a sensação que a cabeça irá explodir a qualquer momento? Entre num avião da Lufthansa no percurso São Paulo-Frankfurt depois da Alemanha ter sido campeã na Copa. Verá adultos, habitualmente circunspectos ou sisudos, mascarados de torcedores, hospedeiras de bordo com unhas pintadas de negro, amarelo e vermelho, de colares havaianos ao pescoço e um nível de decibeis superior ao do Maracanã.

Não costumo ser chata, menos ainda com os homens por quem tenho uma condescendência até suspeita. Porém, qualquer pessoa que viva na Alemanha sabe que quando Deus criou o mundo, criou o silêncio e que sem ele a civilização é impossível. É verdade que levamos algum tempo para nos habituarmos a locais públicos tão animados como o Dorotheenstädter Friedhof (cemitério onde se encontram Hegel e Brecht). Agora imagine que está sentado na última fila do maior avião da Lufthansa, quer rever Casablanca, uma vez que não consegue dormir, nem ler, e a torcida toda veio fazer a festa, literalmente, atrás do seu assento. Pior, dá por si a trautear mentalmente “mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador” e não “moonlight and love songs never out of date,/hearts full of passion, jealousy, and hate;/ woman needs man and man must have his mate,/ that no one can deny”. O futebol é um vírus.Contagioso.

Quer desvios vertiginosos? Experimente tentar ir à casa de banho por entre a torcida, é mais difícil do que meter um golo ao Neuer.

Quer sobe e desce? Nada como as habituais turbulências sobre o Atlântico (bem abençoadas sejam que silenciaram os ruidensis-homo-futebolensis).

Quer o coração quase a sair pela boca? Basta o abraço da Joana – perdoem-me a inconfidência, que veio esperar a Mami um ramo de rosas tão épico como os sete a um no Mineirão – e a parva da cadela a saltar para o porta-bagagens de trela na boca, com um olhar tão meigo como o David Luiz.

Para sofrer, ter emoções fortes e divertir-me basta-me a vida (leram bem isto filhotas queridas?).

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Diário da Copa – Dói, Dói , Dói …schland*

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Day after no Brasil. Depois de descobrir dolorosamente que “Adeus é brasileiro” e a que a “eficiência alemã” não é uma mera figura de retórica.

* título roubado à minha amiga querida Arlete.

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09/07/2014 · 3:32 PM