Gentileza

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Recentemente apanhei um táxi no Porto, entre o Café Piolho e a Casa da Música.  Estava um dia chuvoso e desagradável, daqueles que convocam o mau humor. Durante os breves minutos da viagem conversei com o condutor, escutei a sua paixão pela arquitectura e pela cidade onde havia nascido. Quando chegámos ao destino, desceu do seu seu lugar,  abriu-me a porta do táxi e despediu-se de mim, não economizando um sorriso, “a senhora é uma simpatia”. Ganhei o dia.

Este episódio fez com que eu ficasse a pensar que a gentileza, o exercício de vestir a pele do outro, é algo tão precioso como subestimado.

Na loucura mansa  dos dias, o não dizer” bom dia”, o não segurar uma porta, o passar a frente de alguém numa fila, o molhar os peões no passeio, o dizer palavras ríspidas, o esquecer-se de retribuir uma atenção, a arrogância, parecem ter uma cotação alta na bolsa da “sobrevivência”.

Porque será que a delicadeza  parece acessória? Talvez por tantos a  confundirem com fraqueza. Não é. Pense. O seu dia melhora se alguém o acolhe com simpatia, seja no café, seja no supermercado ou no autocarro. O abraço apertado do colega de trabalho, o obrigado do amigo, as gomas colocadas sobre a secretária acompanhadas de um post-it, a mensagem no Facebook, são detalhes, pequenos, que nos iluminam o dia. Gestos que arrendodam os cantos agrestes da vida.

A gratuitidade da gentileza, o dar sem esperar nada em troca, torna-a numa espécie de insurreição num mundo materialista, num acto de resistência.”Por maior que seja o desespero/Nenhuma ausência é mais funda do que a tua”, escreveu Sophia. Nenhuma ausência é mais funda do que a ausência de humanidade. E é isso que a gentileza é, humanidade.

PS –  Já ouviram falar no Gentileza? Conhecia-lhe o nome de uma das músicas da Marina Monte e até pisado no Rio de Janeiro, desconhecia a sua história por detrás da música. Gentileza era um velhinho, meio louco, um poeta que pintou  os pilares dos viadutos da cidade, com os seus escritos, o mais famoso do quais, “gentileza gera gentileza”. A sua estética era a sua ética. Googlem.

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Reciclar com AMOR

photo de groupe

Gostava de vos apresentar de um projecto moçambicano de que gosto muito. Trata-se da AMOR, a Associação Moçambicana de Reciclagem, criada em 2009. Actualmente esta ONG já recicla entre 3 e 4 por cento  do lixo produzido no país, e desenvolve várias acções de consciencialização ambiental na s escolas e acções de limpeza na Praia da Costa do Sol.

“Não se pode proteger o Ambiente sem dar poder às pessoas, informá-las e ajudá-las a compreender que estes recursos [naturais] são delas e que elas os devem proteger”, disse a nobel africana Wangari Maathai. É com este espírito que a associação trabalha.

Nas cidades de Maputo e Matola, a AMOR está a implementar desde 2010 um sistema de separação e de recolha dos resíduos sólidos recicláveis para sua posterior reciclagem, através de uma rede de Ecopontos.
Os Ecopontos são pontos de recolha e de compra de papel, papelão, plástico, vidro, metal, óleos e resíduos electrónicos. Além disto, ofereçem um serviço de recolha na sua vizinhança com colectores móveis que, quando solicitados, vão buscar os resíduos recicláveis directamente a residências particulares, instituições públicas ou privadas e a organizações. Posteriormente, os colectores vendem o material recolhido aos Ecopontos. Cada Ecoponto é gerido por mulheres seropositivas da associação comunitária Xidzuki.

É na fragilidade e no mundo que nos encontramos e nos percebemos. Como é incomparável aquele momento em que descobrimos que podemos tornar esta mundo num lugar um bocadinho melhor.

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Ainda os homens

O episódio conta-se numa penada. Um grupo de judeus ultraortodoxos, homens, provocou um atraso considerável num voo entre Telavive e Nova Iorque pelo simples motivo de um dos membros do grupo se ter recusado a viajar ao lado de uma mulher. Depois das assistentes de bordo terem recusado – ah grandes mulheres – trocar os lugares os homens abandonaram o avião.

Este não é o primeiro incidente deste tipo a bordo da El Al, em Setembro deste ano, vários passageiros ultraortodoxos aceitaram apenas sentar-se ao lado de mulheres para a descolagem e aterragem, passando as restantes horas de voo em pé no corredor, para não “se contaminarem com a impureza feminina”. Neste momento decorre uma petição online para que a El Al ponha fim a secularização e disponibilize “áreas puras” apenas para os desgraçados que não resistem à tentação de uns cabelos, de um regaço ou de um pedaço de pele descoberto .

Podemos continuar a fingir que esta tentativa de apartheid não é importante com a complacência e a inércia do costume, mas acho que há razões para nos importamos.

Que no século XXI se olhe para metade da humanidade como algo sórdido, fonte de “pecado” e que a  bem da virtude, da tradição ou  da religião  – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – se  dilacere a dignidade  importa-me e muito. A ideia de separação entre mulheres “impuras” e homens “guardiões da virtude” é ofensiva e não quero engolir a raiva em silêncio.

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Esqueci-te o sabor

Esqueci-te o sabor

Amor escuta.
Esqueci-te o sabor. Soubeste-me a Verão quando me mordias os lábios húmidos e eu fechava os olhos para não os veres espelho do meu desejo.

Amor escuta.
Sei-te de cor o cheiro quando te afogavas em mim, me prendias pela cintura e enlaçávamos os dedos apagando as estrelas.

O tempo não desvanece a memória da tua pele, poro a poro, dos caminhos que as tuas mãos, incendiárias como um vento veloz, gravaram em mim. Foste músculo, suor e sémen.
Vestida da tua pele fiquei ainda nua.

Amor escuta.
Não te conheço meridianos nem paralelos agora que largaste amarras como um veleiro silencioso. Mas não se silenciou em mim a tua voz serena, murmurando o meu nome como um nascer do dia.

Amor escuta.
São vãs as tentativas de te tirar da lembrança, deixo-te partir permanecendo em mim.

Esqueço-te apenas o sabor.

Helena Ferro de Gouveia, Outubro 2014

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Predadores

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Os crimes precisam de castigo e a vida das crianças que aprendem a viver “com todas as lágrimas viradas para dentro” não é um pormenor.

Ontem um homem australiano, de 38 anos, foi condenado a dois anos de prisão efectiva por ter tentado “comunicar de forma indecorosa com um menor” e pela posse de material de” carácter pedófilo”. Trata-se da primeira condenação entre os vinte mil predadores de 71 países revelados por  “Sweetie” , a menina virtual filipina criada pela ONG Terre des Hommes. Uma boa notícia.

Há uns meses li com rigor clínico o catálogo de horrores sob a forma relatório publicado pela ONG , que há vários anos tenta sensibilizar a opinião pública sobre o fenómeno da exploração sexual de menores na internet, o chamado “turismo sexual via webcam”. Aqui se descreve a negra realidade dos predadores com gostos perversos e requintados e a miséria que empurra crianças de 8, 9, 10 anos a desnudarem-se ou praticarem actos sexuais em frente a uma câmara enquanto do outro lado do mundo, do nosso lado do mundo, um predador, muitas vezes um pai de família, se masturba. Macabra lei da procura e da oferta.

Para os cépticos ou  para os cínicos uso como  argumento a força esmagadora dos números: segundo uma estimativa do FBI existem cerca de 750 mil predadores ligados a qualquer hora na internet, só nas Filipinas há dezenas de milhares de crianças vítimas deste tipo de “turismo sexual”, até ontem apenas seis predadores online, hoje sete, tinham sido condenados

O inalienável direito à dignidade é dos pilares da nossa civilização, assim como é responsabilidade de todos nós proteger as crianças do abuso e da exploração independentemente das condições socioeconómicas dos países onde as vítimas se encontrem. Para a Terre des Hommes a forma mais eficaz de travar a crime é faze-lo ao nível da procura: identificando e punindo os predadores. A tecnologia não pode ser sinónimo de impunidade, pelo contrário a cada vez maior conectividade implica responsabilização e o dever de proteger os mais vulneráveis. A forma como olhamos para o mundo define o que somos.

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Post em tempo real

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Quem me conhece sabe que se existe uma coisa que me faz ganhar o dia é, além de um bom livro, uma boa partida de futebol. Estava eu sozinha, posta em sossego no sofá, não sem antes ter feito um inventário das possibilidades de o Sporting vencer o Schalke 04 na Alemanha, quando o pai das filhas me diz com toda a tranquilidade: “vamos conversar”? Ai os dilemas que o ser humano enfrenta. Eu que até sou uma pessoa serena, provida de paciência e sensibilidade, começo a escutá-lo, dividindo a atenção entre o jogo e a troca de palavras, bem isto até o Nani marcar o primeiro golo. Depois, uma mulher é um ser complicado e contraditório, o pai das minhas filhas que me perdoe a mácula no currículo: mas que homem é que quer “conversar” durante um jogo de futebol e em particular do Sporting? É ter o mesmo sentido de oportunidade do que contar uma (má) anedota num funeral. Pior que isso só a minha irmã que me envia a seguinte mensagem:”mas quem é que está a jogar?” Há alturas, leia-se quando o jogo está 3 a 3 e o árbitro marca nos descontos um pênalti inexistente contra o Sporting, em que uma mulher não quer conversar. E não é por se achar o último biscoito do pacote como dizem os brasileiros, mas por recear empregar um vocabulário menos adequado (que faria corar de vergonha os marinheiros do porto de Lisboa). É evidente que o meu caso é para um psiquiatra.

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Barbárie

Há coisas terrivelmente simples: na maioria dos países islâmicos as mulheres não possuem direitos. A vida pública é-lhes (praticamente) negada, são vítimas de toda a espécie de humilhações desde a obediência cega ao homem que não escolheram à mutilação genital até ao apedrejamento até à morte. Hoje foi disponibilizado um vídeo na internet – para o qual me recuso a colocar link –  que mostra o apedrejamento, até à morte, pelos monstros do IS, de uma jovem mulher síria. A mulher foi conduzida pelo próprio pai até um buraco na terra, em seguida enterrada e apedrejada. O seu crime? Ter-se apaixonado por um homem que não o seu marido, desaparecido há mais de um ano. “Quem se interessa por uma adúltera?”, pergunta-se no vídeo, ” a beleza do Islão será mostrada aos infiéis quer eles queiram, quer não”. A religião, seja ela qual for, e a “diferença cultural”  sempre tiveram  as costas largas, porém há limites. Não há  justificações religiosas para o massacre de mulheres – violadas, vendidas, apedrejadas, despojadas de direitos- que se vive na Síria, no Iraque, mas também no Irão, no Paquistão, na  Arábia Saudita, na Somália, no Egipto. As histórias destas mulheres, que de tempos a tempos afloram nas notícias, desmontam , como escreveu Inês Pedrosa, ” o discurso da boa consciência paternalista praticado no Ocidente: não, não há “uma cultura outra” difícil de “descodificar” aos nossos olhos”, nem uma religião que justifique a violação dos direitos humanos. A complacência para com a barbaridade torna-nos bárbaros. Terrivelmente simples.

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