Reciclar com AMOR

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Gostava de vos apresentar de um projecto moçambicano de que gosto muito. Trata-se da AMOR, a Associação Moçambicana de Reciclagem, criada em 2009. Actualmente esta ONG já recicla entre 3 e 4 por cento  do lixo produzido no país, e desenvolve várias acções de consciencialização ambiental na s escolas e acções de limpeza na Praia da Costa do Sol.

“Não se pode proteger o Ambiente sem dar poder às pessoas, informá-las e ajudá-las a compreender que estes recursos [naturais] são delas e que elas os devem proteger”, disse a nobel africana Wangari Maathai. É com este espírito que a associação trabalha.

Nas cidades de Maputo e Matola, a AMOR está a implementar desde 2010 um sistema de separação e de recolha dos resíduos sólidos recicláveis para sua posterior reciclagem, através de uma rede de Ecopontos.
Os Ecopontos são pontos de recolha e de compra de papel, papelão, plástico, vidro, metal, óleos e resíduos electrónicos. Além disto, ofereçem um serviço de recolha na sua vizinhança com colectores móveis que, quando solicitados, vão buscar os resíduos recicláveis directamente a residências particulares, instituições públicas ou privadas e a organizações. Posteriormente, os colectores vendem o material recolhido aos Ecopontos. Cada Ecoponto é gerido por mulheres seropositivas da associação comunitária Xidzuki.

É na fragilidade e no mundo que nos encontramos e nos percebemos. Como é incomparável aquele momento em que descobrimos que podemos tornar esta mundo num lugar um bocadinho melhor.

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Ainda os homens

O episódio conta-se numa penada. Um grupo de judeus ultraortodoxos, homens, provocou um atraso considerável num voo entre Telavive e Nova Iorque pelo simples motivo de um dos membros do grupo se ter recusado a viajar ao lado de uma mulher. Depois das assistentes de bordo terem recusado – ah grandes mulheres – trocar os lugares os homens abandonaram o avião.

Este não é o primeiro incidente deste tipo a bordo da El Al, em Setembro deste ano, vários passageiros ultraortodoxos aceitaram apenas sentar-se ao lado de mulheres para a descolagem e aterragem, passando as restantes horas de voo em pé no corredor, para não “se contaminarem com a impureza feminina”. Neste momento decorre uma petição online para que a El Al ponha fim a secularização e disponibilize “áreas puras” apenas para os desgraçados que não resistem à tentação de uns cabelos, de um regaço ou de um pedaço de pele descoberto .

Podemos continuar a fingir que esta tentativa de apartheid não é importante com a complacência e a inércia do costume, mas acho que há razões para nos importamos.

Que no século XXI se olhe para metade da humanidade como algo sórdido, fonte de “pecado” e que a  bem da virtude, da tradição ou  da religião  – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – se  dilacere a dignidade  importa-me e muito. A ideia de separação entre mulheres “impuras” e homens “guardiões da virtude” é ofensiva e não quero engolir a raiva em silêncio.

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Esqueci-te o sabor

Esqueci-te o sabor

Amor escuta.
Esqueci-te o sabor. Soubeste-me a Verão quando me mordias os lábios húmidos e eu fechava os olhos para não os veres espelho do meu desejo.

Amor escuta.
Sei-te de cor o cheiro quando te afogavas em mim, me prendias pela cintura e enlaçávamos os dedos apagando as estrelas.

O tempo não apaga a memória da tua pele, poro a poro, dos caminhos que as tuas mãos, incendiárias como um vento veloz, gravaram em mim. Foste músculo, suor e sémen.
Vestida da tua pele fiquei ainda nua.

Amor escuta.
Não te conheço meridianos nem paralelos agora que largaste amarras como um veleiro silencioso. Mas não se silenciou em mim a tua voz serena, murmurando o meu nome como um nascer do dia.

Amor escuta.
São vãs as tentativas de te tirar da lembrança, deixo-te partir permanecendo em mim.

Esqueço-te apenas o sabor.

Helena Ferro de Gouveia, Outubro 2014

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Predadores

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Os crimes precisam de castigo e a vida das crianças que aprendem a viver “com todas as lágrimas viradas para dentro” não é um pormenor.

Ontem um homem australiano, de 38 anos, foi condenado a dois anos de prisão efectiva por ter tentado “comunicar de forma indecorosa com um menor” e pela posse de material de” carácter pedófilo”. Trata-se da primeira condenação entre os vinte mil predadores de 71 países revelados por  “Sweetie” , a menina virtual filipina criada pela ONG Terre des Hommes. Uma boa notícia.

Há uns meses li com rigor clínico o catálogo de horrores sob a forma relatório publicado pela ONG , que há vários anos tenta sensibilizar a opinião pública sobre o fenómeno da exploração sexual de menores na internet, o chamado “turismo sexual via webcam”. Aqui se descreve a negra realidade dos predadores com gostos perversos e requintados e a miséria que empurra crianças de 8, 9, 10 anos a desnudarem-se ou praticarem actos sexuais em frente a uma câmara enquanto do outro lado do mundo, do nosso lado do mundo, um predador, muitas vezes um pai de família, se masturba. Macabra lei da procura e da oferta.

Para os cépticos ou  para os cínicos uso como  argumento a força esmagadora dos números: segundo uma estimativa do FBI existem cerca de 750 mil predadores ligados a qualquer hora na internet, só nas Filipinas há dezenas de milhares de crianças vítimas deste tipo de “turismo sexual”, até ontem apenas seis predadores online, hoje sete, tinham sido condenados

O inalienável direito à dignidade é dos pilares da nossa civilização, assim como é responsabilidade de todos nós proteger as crianças do abuso e da exploração independentemente das condições socioeconómicas dos países onde as vítimas se encontrem. Para a Terre des Hommes a forma mais eficaz de travar a crime é faze-lo ao nível da procura: identificando e punindo os predadores. A tecnologia não pode ser sinónimo de impunidade, pelo contrário a cada vez maior conectividade implica responsabilização e o dever de proteger os mais vulneráveis. A forma como olhamos para o mundo define o que somos.

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Post em tempo real

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Quem me conhece sabe que se existe uma coisa que me faz ganhar o dia é, além de um bom livro, uma boa partida de futebol. Estava eu sozinha, posta em sossego no sofá, não sem antes ter feito um inventário das possibilidades de o Sporting vencer o Schalke 04 na Alemanha, quando o pai das filhas me diz com toda a tranquilidade: “vamos conversar”? Ai os dilemas que o ser humano enfrenta. Eu que até sou uma pessoa serena, provida de paciência e sensibilidade, começo a escutá-lo, dividindo a atenção entre o jogo e a troca de palavras, bem isto até o Nani marcar o primeiro golo. Depois, uma mulher é um ser complicado e contraditório, o pai das minhas filhas que me perdoe a mácula no currículo: mas que homem é que quer “conversar” durante um jogo de futebol e em particular do Sporting? É ter o mesmo sentido de oportunidade do que contar uma (má) anedota num funeral. Pior que isso só a minha irmã que me envia a seguinte mensagem:”mas quem é que está a jogar?” Há alturas, leia-se quando o jogo está 3 a 3 e o árbitro marca nos descontos um pênalti inexistente contra o Sporting, em que uma mulher não quer conversar. E não é por se achar o último biscoito do pacote como dizem os brasileiros, mas por recear empregar um vocabulário menos adequado (que faria corar de vergonha os marinheiros do porto de Lisboa). É evidente que o meu caso é para um psiquiatra.

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Barbárie

Há coisas terrivelmente simples: na maioria dos países islâmicos as mulheres não possuem direitos. A vida pública é-lhes (praticamente) negada, são vítimas de toda a espécie de humilhações desde a obediência cega ao homem que não escolheram à mutilação genital até ao apedrejamento até à morte. Hoje foi disponibilizado um vídeo na internet – para o qual me recuso a colocar link –  que mostra o apedrejamento, até à morte, pelos monstros do IS, de uma jovem mulher síria. A mulher foi conduzida pelo próprio pai até um buraco na terra, em seguida enterrada e apedrejada. O seu crime? Ter-se apaixonado por um homem que não o seu marido, desaparecido há mais de um ano. “Quem se interessa por uma adúltera?”, pergunta-se no vídeo, ” a beleza do Islão será mostrada aos infiéis quer eles queiram, quer não”. A religião, seja ela qual for, e a “diferença cultural”  sempre tiveram  as costas largas, porém há limites. Não há  justificações religiosas para o massacre de mulheres – violadas, vendidas, apedrejadas, despojadas de direitos- que se vive na Síria, no Iraque, mas também no Irão, no Paquistão, na  Arábia Saudita, na Somália, no Egipto. As histórias destas mulheres, que de tempos a tempos afloram nas notícias, desmontam , como escreveu Inês Pedrosa, ” o discurso da boa consciência paternalista praticado no Ocidente: não, não há “uma cultura outra” difícil de “descodificar” aos nossos olhos”, nem uma religião que justifique a violação dos direitos humanos. A complacência para com a barbaridade torna-nos bárbaros. Terrivelmente simples.

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Machos latinos

1. Declaração de interesses: este é um tema que me deixa fora de mim. Falo da violência contra mulheres e de uma sociedade misógina em que os maus tratos ainda continuam a ser desculpabilizados ou tratados como uma ofensa menor. A cabecinha de muito boa gente (mulheres inclusive infelizmente ) alberga um macho que acha uma ou duas “lambadas” não fazem mal a ninguém. Aliás a essa mentalidade machista não escapam os juízes portugueses que sonegam o direito à sexualidade às mulheres de cinquenta anos, mas isso é outro tema.

Hoje a imprensa notícia a morte de mais uma mulher, de 49 anos, e da sua filha, de 16, às mãos do companheiro e pai.

2. Escrevi isto em 2011, repito-o. Quando as mãos deixam de circum-navegar o corpo. Quando a paixão se desbota e se reedita a existência, as lágrimas lavam a poeira dos olhos, mas haverá cílios que apaguem as poeiras do coração, que amachuquem o silêncio, que contestem a secreta desistência de si? “A gente fere a terra para semear, a gente magoa para amar?”

Demasiados pensam que não é macho quem não usa uma mulher como um trapo em que se limpam as mãos.

3. Uma em cada três mulheres já foi espancada, coagida sexualmente, ou vítima de algum tipo de abuso; e uma em cada quatro mulheres na Europa está exposta a um destes tipos de violência. Em Portugal, só em 2014, foram assassinadas 26 mulheres por violência doméstica e de género, outras 27 sofreram tentativa de homicídio. A violência parte, maioritariamente, de homens (maridos, ex-maridos, companheiros, ex-companheiros namorados, ex-namorados).

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