O sistema -take 3

Escrevo sentada no ICE, comboio rápido, que me devia levar do aeroporto de Frankfurt a Bona. Devia. Depois de uma paragem de vinte minutos num túnel numa carruagem sem ar condicionado ( avariado, um clássico da Deutsche Bahn) o maquinista anunciou que o comboio devido a um “problema” seguiria até Colónia. Isto após uma das minhas malas ter ficado em parte incerta entre a Bolívia e a Alemanha. Há viagens inesquecíveis. Está é uma delas. Porém, apesar de todas as incomodidades não troco por nada a viagem, o sujar os pés, experimentar sabores, tocar as coisas, criar uma geografia de afecto.

Repito-me. Há palavras que não podem ser traduzidas ou melhoradas. Wanderlust, que exprime o desejo irresistível de viajar, é uma delas. Na vida há poucas coisas que nos despertem Lust. As viagens são uma delas.

Wanderlust é o desassossego, a tentação constante de ser infiel ao nosso país ou ao local onde vivemos, é a êxtase dos amantes antes da consumação. Só isso explica que apesar de toda incomodidades se suba ao Cotopaxi, se penetre na Amazónia, se durma em caravancerais, abraçando a delicadeza e a estranheza do mundo.

Um amigo perguntou-me entre viagens: “como tens coragem para tantas intercontinentais?”. Não sei se é coragem, sei que odeio o que é fácil. “E a porta da cidade é feita de dois barcos”, como escreve Sophia, num dos meus poemas preferidos.

Outro amigo quis saber o que levo comigo. A bagagem varia consoante o destino, mas há uma constante, um único luxo: o meu perfume, que evoca os jantares pontuais com a família e o conforto das coisas conhecidas. O meu perfume torna legíveis os sentimentos e encurta as ausências em noites sem lua.

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O sistema – take 2

Adoro historias estranhas, quanto mais improváveis melhor. Em particular quando me acontecem a mim.
A noite foi curta. Às duas da madrugada já estava ao telefone com a agência para me encontrarem um voo com destino à Alemanha. Depois de muitos emails “é impossível”, “está tudo lotado”, chegou pelas nove da manhã a noticia redentora: Santa Cruz – Lima – Madrid – Frankfurt. Uffff. Não fora o pequeno detalhe dos pilotos da Lufthansa estarem em greve a partir de amanhã, mas com isso preocupo-me em Madrid.
Sigo para Viru Viru num táxi impossível, a desfazer-se e com um condutor mal-humorado (dava de dez a zero aos do Rio durante a Copa). “Señora vou abastecer”. Abastecer em Santa Cruz não significa apenas colocar gasolina no depósito. Eu explico. Aqui a maioria das bombas de gasolina só emprega mulheres jovens, que habitualmente usam um uniforme que desperta a mais dormente das libidos.
Aproximo-me do balcão de check-in invocando todas as divindades. O processo é indolor. Poucos minutos depois tenho o meu bilhete na mão: 13 J. Ohmmmm.
Passo a emigração. Abro as malas para o controlo de estupefacientes. “Tantos livros e tão grossos. Entre para aquela cabine”. Entro. Os livros são examinados um por um e inocentados. “Vou chamar a minha colega”, diz o agente, “embora não me importasse de fazer a revista”. Começo a ferver por dentro. Ohmmmm. Depois de ter entrado em intimidade, quase bíblica, com a policia de controlo de estupefacientes – os livros são perigosos, já devia saber isso – posso finalmente embarcar.
Quando chegar a Lima ponho-vos a par dos desenvolvimentos.

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O sistema

Afirmar que o rosto mudou de cor é uma convenção literária. Mas foi o que me aconteceu esta manhã no balcão de check-in da Avianca. “Não encontramos o seu voo no sistema”. “Como?” . ” Não encontramos o seu voo”. Argumento mostrando a versão impressa com itinerário Santa Cruz -Lima-Bogotá-Frankfurt. “Sim, eu sei que a senhora tem um bilhete e vejo-o a partir de Lima, mas não está no sistema a ligação Santa Cruz -Lima”, diz a não tão gentil senhora do balcão. Inspira, expira. Sinto no pescoço a respiração de irritação em crescendo da fila de passageiros que atrás de mim. Não me deixo desencorajar e tento um protesto. “Se consegue ver a ligação a partir de Lima certamente sabe que eu teria de chegar a Lima”.

Imensamente transtornada e num volume audível de Santa Cruz a La Paz a senhora do balcão diz: “não está no sistema, não pode voar”. Como prémio de consolação oferece-me uma caneta da Avianca. A palavra “sistema” ficará agora indelevelmente gravada na minha memória. Kafka temos umas contas a ajustar.

“Tem de ligar para a sua agência de viagens para resolver isso”, diz com um sorriso maquiavélico. Claro, uma excelente recomendação para se fazer relativamente a uma agência de viagens alemã ao domingo.
“Não sou só eu, não sou só eu”, reza o meu monólogo interior numa estratégia de auto-consolação.
Tento desatar o nó do problema. Ligo para a Lufthansa e procuro um voo alternativo. Nada, nadinha. Nem por Buenos Aires, nem por São Paulo. Tudo esgotado. Tento La Paz-Madrid. Nada.

Resignada regresso ao Hotel onde me recebem com um simpático” Bem vinda de novo, señora” como se fosse a coisa mais natural do mundo um hóspede sair às 4 da manhã e voltar às 9. Não tenho estatísticas confiáveis, porém desconfio que o “sistema” deve contratacar com frequência.

É bem verdade que o quarto do Hotel é agradável e nada melhor para dissipar a tensão e a ansiedade do que se estender na cama a ler um livro. O problema é que ontem houve um casamento no hotel . Apelo à vossa imaginação para visualizarem as cenas nada subtis que desenrolam no quarto do lado. Garanto-vos que é um daqueles casos em que a vida real ultrapassa a fantasia literária.

Saio do Hotel e vou até ao café que fica a duas ruas de distância. Atravessar uma rua em Santa Cruz é como mergulhar num local cheio de tubarões, sendo que os tubarões são menos agressivos. Passo a primeira rua, a ponte de madeira sobre o canal, onde faltam várias tábuas, passo a segunda rua e sento-me no café colombiano. Peço um bom capuccino e abro meu livro. Depois deste momento ohmmmm peço a conta e noto que não tenho o porta-moedas comigo. Num impulso deixo ficar o passaporte, o documento da imigração e o iPhone como garantia enquanto corro até ao Hotel. Chego à porta do quarto e, um clássico, o cartão está desmagnetizado. Inspira, expira. Passa-me em breves instantes pela cabeça que o meu iPhone equivale a quatro salários bolivianos. Quando regresso ao café o empregado sorri e entrega-me o passaporte e o telemóvel. “Recebe muitas mensagens, não é? Estive quase para lhe atender o telefone. Acho que ligaram do aeroporto”. Ai a minha vida.

PS-a novela continua
Digam Ohmmmm comigo.

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Fome de ti

Analfabeta de ti, demorei a ler-te.
Tinhas o tempo que era o das frases cadenciadas com vírgulas de pele transpirada.
Percorri-te as páginas na desordem do sangue,
num doce engano de sermos dois.
De lava os beijos solidificaram,
perderam a vertigem.
Sinto fome de ti,
substantivo sem adjetivo possível.

Helena Ferro de Gouveia

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Postais de Samaipata

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Santa Cruz de la Sierra, finalmente

Apanho o avião na melancolia molhada de Frankfurt e aterro onze horas depois em Bogotá. Eldorado é um aeroporto bonito, arrumado, vivo, cheio de luz.
Agora estou aqui a contemplar El Market, loja soberba de café e chocolate, onde o cheiro adensa memórias – ai o café torrado nas leitarias de Lisboa antiga – e desperta os sentidos. “Quisiera ser chocolate pa’ derretirme en tu boca”. Agradam-me os grãos de café envoltos em chocolate e o carmesim da embalagem. Rendo-me e saio da loja com um saco de papel. Pesado.

Perdi a noção da hora. Viajo entre fusos horários. Espreito o iPhone, mas resisto ao impulso, os amigos reais e virtuais do Facebook ainda não acordaram, os da Europa, ou estão prestes a deitar-se, os a sul do Equador.

Já não tenho posição de leitura. Fala-se muito de ler e livros e pouco acerca das posições de leitura. Que fazer quando a mão adormece devido ao peso do livro? Ou quando não há almofadas confortáveis por perto? Pouso “Conversación en la Catedral”, o melhor romance de Vargas Lhosa e uma das mais extraordinárias viagens literárias à América Latina, e escuto. Gosto do espanhol latino-americano, despido de aspereza, alegre, usado com amor e que sabe a frutilla e leite condensado.

O écran anuncia o próximo voo. Despeço-me da Colombia com uma chávena de café forte. Sou incapaz de conceber a vida sem café. Não sei explicar porquê porém quando penso em café ouço o Chico Buarque: “Oh, pedaço de mim,/ Oh, metade afastada e mim/Leva o teu olhar/Que a saudade é o pior tormento (…)”. Boarding now.

Durmo todo o percurso entre Bogotá e La Paz. O passageiro do lado, um americano suave, toca-me no ombro depois do avião aterrar. Backpacker quarentão, louro, olhos de um verde-acinzentado, deslumbrante e deslumbrado pela Bolívia. Conversamos enquanto esperamos pelas formalidades de fronteira, nesse conhecimento íntimo e breve dos estranhos. Tem a destreza de quem maneja a arte da argumentação e a elegância de um intelecto treinado. “Não fica em La Paz? É pena”, sussurra-me ao ouvido. Passada a surpresa sorrio-lhe e despeço-me.

Preparo-me para esperar mais quatro horas pelo voo para Santa Cruz. Demasiado cansada para ler, viajo há uma eternidade, observo os traços magníficos dos bolivianos, os cabelos negros, as mantas coloridas das mulheres redondas e as polleras. O aeroporto fervilha de vida apesar de ser de madrugada.

Bebo mais um café, leio os emails do trabalho e as suas súbitas urgências, a resposta fica para depois, que a velocidade depende da latitude. O voo está atrasado. “Prendre son temps”.

Quando o Canadair chega percorro a pé a pista acompanhada pelo ronronar dos motores. Estão uns revigorantes dois graus em La Paz e eu vestida para um clima tropical. Um pedaço de céu separa-me de Santa Cruz. Abro de novo o livro.
Diz-se que o espaço diminui quando não damos pelo tempo.

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Setembro

Fisgas HFG
Não consigo deslumbrar-me com Setembro.

É o mês em que tenho consciência plena que o Verão desapareceu. Refiro-me não à estação, mas ao verdadeiro Verão, o da minha meninez. Aquele em o tempo se estirava até ao infinito. Sobravam horas para o deslumbramento com a Volta a Portugal, para correr pelos campos com os primos e esconder-se no amarelo dos cereais, para ler livros proibidos – os grandes romances foram feitos para as tardes estivais – , para jogar às cartas, dar longos passeios a pé e tomar banho no rio gelado, desafiando as correntes. Havia espaço para a sedução e os primeiros amores, doces como amoras quentes do sol colhidas nos muros de pedra.

No Verão de quando era pequena almoçava-se em grupo, ali e aqui, ao sabor das amizades, das afinidades ou do melhor pão-de-ló, tocava-se viola nas escadas sem motivo e conversava-se noite adentro sob um céu de veludo negro polvilhado de brilhos. “ Puxo sobre os teus ombros o lençol/ que é feito de ternura amarrotada/ frescura que vem depois do Sol,quando depois do Sol não vem mais nada…”, como escreveu David Mourão-Ferreira
Nada disto desapareceu completamente, só eu é que cresci e a idade mede-se de alguma forma pelos Verões que deixámos para trás e por aqueles que começamos a deixar de ter. O passar dos anos impõe uma espécie de Tratado de Tordesilhas entre o passado onde as coisas têm uma outra textura e o presente vivido em ofegante “zapping”. O mais clandestino dos meus desejos? Dar espaço à verdadeira felicidade: um acontecer da vida sem consequências nem razões, um rio imenso e absoluto, o Amazonas finalmente. O meu Verão de adulta é um rio.

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