Passei por aqui para vos desejar Páscoa Feliz

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Agora essa. Uma pessoa prepara-se para ser docente num seminário de jornalismo na Bolívia ( se sobreviver ao voo com a Boliviana de Aviación), numa cidade cujo nome em Quechua significa “planalto pantanoso”.

Uma pessoa mentaliza-se para o facto de ir passar as próximas  duas semanas a comer batatas, “Locro”, “Pampaco” e “Empanadas” e beber mate. Uma pessoa anota mentalmente: recusar categoricamente todos os convites para provar “Cocoroco”.

Uma pessoa prepara os power point com os básicos do jornalismo radiofónico. Mas como pode uma pessoa colocar a seguinte questão sem se rir : ¿Las pilas del equipo estan cargadas?

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Aprendendo a praguejar

Situação clássica. Você tem que viajar de emergência – como o destino lhe trocou as voltas não será para Guatemala (o tal país do post anterior), mas para Vila-Real- e há uma greve. O mais difícil das viagens nestes dias não é o Mar ou o Ar e as suas fúrias e o Desconhecido e seus Adamastores , o mais difícil é conseguir sair da Alemanha. Com os aeroportos germânicos em apoplexia,graças à greve dos pilotos da Lufthansa, a alternativa mais rápida e económica para chegar ao Porto é ir até Amsterdão. Dito e feito. Comprada a passagem aérea na Transavia (a companha aérea com os assentos mais bonitos do mundo, para quem não conhece: são verde-Sporting )resta adquirir o bilhete para o ICE (comboio de alta velocidade). Sublinhe-se aqui a palavra velocidade determinou a escolha. Graças às maravilhas da tecnologia em poucos minutos o bilhete estava gravado no iPhone, poupando algumas árvores e prontinho para ser lido pelos scans das Valquirias da Deutsche Bahn, cuja simpatia é inversamente proporcional à altura. Mas não nos adiantemos.
Cheguei à estação central de Bona com a vaga esperança que fosse um daqueles raros dias do ano em que os comboios alemães não se atrasam. Estava tão enganada como as previsões de alguns economistas em relação à economia portuguesa.

Já a bordo, a Valquiria de serviço pede o bilhete. Estendo-lhe o telemóvel com o código para passar no scan. “O bilhete tem de ser impresso”. “Não, este é um bilhete electrónico não tem de ser impresso”. “Tem de pagar outra passagem porque esta não está impressa”. Kafka calling. “Eu paguei esta passagem e não pago mais nenhuma, por favor esclareça isso com a Deutsche Bahn”. Passados uns minutos, sem Wagner como música de fundo, regressa a Valquiria como se nada tivesse acontecido”. Pode viajar com essa passagem (surprise, surprise), mas para a próxima imprima o bilhete”. Inspira, expira.

Ainda antes de chegar à fronteira com a Holanda o comboio imobiliza-se. “Minhas senhoras e meus senhores devido a um suicídio a linha está interrompida. Podem sair do comboio e fumar um cigarro”. Passada uma hora pouco mais ou menos os passageiros regressam ao ICE. “Minhas senhoras e meus senhores se há um médico a bordo, homem ou mulher não interessa, por favor dirija-se à carruagem 25″. Ainda este anúncio, que para ser benévola classificarei como “estranho”, está a decorrer entram vários polícias com cara de poucos amigos na carruagem. “Passaporte por favor”. “É portuguesa?” (onde foi buscar essa ideia?). Respondo com um sorriso semi-irónico , “sim”. “Boa sorte para o Mundial”, replica, “vão precisar”. Inspira, expira.

” Senhores passageiros pedimos as nossas desculpas, mas a linha continua interrompida. Podem abandonar o comboio e fumar um cigarro”.You have got to be kidding.

Chego finalmente a Utrecht e tenho 4 minutos bem medidos para apanhar o comboio que me levará ao aeroporto de Schipol. Estão a ver um comboio amarelinho a deslizar nos carris? Era o meu.

Moral da história: é mais rápido chegar a Cochabamba ou a Maputo do que a Vila-Real.

PS- Agora à distância de uns dias e com a minha mãe a recuperar devagarinho do AVC até consigo achar alguma piada às peripécias à viagem.

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Falemos do tempo

Qual é o maior mistério da vida do homem? Não é saber quais os limites do Universo, ou porque perde mais horas a suspirar pelo 918 Spyder do que pela Bündchen, ou se há vida depois da morte, ou mesmo se a mulher finge o orgasmo. O maior mistério da vida do homem é saber o que pensam as mulheres. Meus caros leitores esse mistério, que contém em si matéria suficiente para um romance, vários poemas ou para entreter o sultão das mil e uma noites, é insolúvel (e é isso que nos dá um certo encanto, ou não?). E qual é o maior mistério da vida da mulher? Saber onde se esconde o tempo, esse Houdini que faz desaparecer as horas na sua cartola. Pfffutt.

Não foi nada disto que eu planeei escrever ou queria contar, contudo o saldo dos dias tem sido pesado e não me permite mais do que sobrevoar as coisas. Por isso falemos da hamletiana questão: ter ou não ter tempo. E não é uma questão de ter ou não ter mais rugas ou ver a gravidade surtir o seu efeito, mas o desejo (impossível ?) de construir a vida por um processo de redução.

Pela manhã, quando levo as miúdas para escola escolhemos uma música que é tocada em volume (demasiado, para mim, pouco para elas) alto. Às vezes rimos até ficar com dores de barriga e eu recito para mim um poema do Drummond :”vamos não chores/a infância está perdida/a mocidade está perdida/ mas a vida não se perdeu”. Solto um eufemistico até logo.

Com a idade perdi o privilégio doce de não fazer nada, de ficar horas no embalo da rede na frescura da varanda a ler ou de perder horas com ingénuas vaidades doceiras recriadas de velhas receitas escritas em letra redonda. Agora aproveito os semáforos vermelhos para ler as notícias no iPad e passar os olhos pelo Facebook (há provas estatísticas que o humor matinal melhora muito após esta viagem virtual e que se evitam desastres sociais como o esquecer-se do aniversário de um amigo ou fugaz conhecido). “People are crazy and times are strange”, cantava o Bob Dylan. Actualíssimo.

No gabinete converso longamente com o meu chefe. “Só mais uma coisinha, precisava que viajasses para (um país a 16 horas de vôo)”. “E isso seria quando”, pergunto. “Amanhã”. Inspira, expira. Nada me dá mais prazer do que descobrir um grande humorista.

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O que vale uma vida? Não, o que vale a vida de uma negra?

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“Não há nada mais triste do que enterro de pobre, porque pobre começa a ser enterrado em vida”.è com palavras que a escritora e jornalista brasileira Eliane Brum abre uma reportagem publicada em 1999, no jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Cláudia da Silva Ferreira era auxiliar de limpeza, condenada a  vender   barato o seu trabalho braçal , tão barato que mal conseguia alimentar-se a si e à sua família. Cláudia cuidava de quatro filhos e quatro sobrinhos no morro da Congonha, uma favela no Rio de Janeiro.

Cláudia saiu para comprar pão e foi apanhada por uma bala perdida numa troca de tiros entre criminosos e a polícia militar, provavelmente nunca saberemos quem a disparou.

O parêntesis é aqui necessário: a polícia brasileira mata cinco pessoas por dia. Milhares de pessoas por todo o Brasil entram num posto policial e desaparecem.  Como Amarildo  de Souza na Rocinha, que deu um nome e um rosto a todos eles. E cuja notícia do desaparecimento, num país onde a morte ou desaparecimento dos pobres nem uma nota de rodapé merece, somente impunidade e silêncio, pode significar – com reticências – o início de uma mudança.

Voltemos a Cláudia a mulher, negra, de 38 anos. Três dos polícias da 9° Batalhão da Policia Militar, que participaram no tiroteio pegaram na mulher ferida, ainda com vida e colocaram-na no porta bagagens, não no banco traseiro, no porta bagagens.  Durante a perseguição policial , o porta-bagagens abriu-se e Cláudia foi arrastada durante centenas de metros. Apesar dos avisos de motoristas e pedestres só muito tempo depois é que a polícia militar parou  o carro e colocou Cláudia no seu interior. Chegou morta ao hospital.

“Acham que morra na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fosse uma carne descartável”, revoltou-se a com desesperança a irmã de Claúdia, o brilho dos olhos extintos pelas lágrimas. “ Esses PM precisam de responder pelo que fizeram”.

Os três polícias militares foram detidos e já estão de novo em liberdade. Aqui novo parêntesis é necessário: os três  polícias constam como envolvidos em 62 autos de resistência (mortes de suspeitos em confrontos com a polícia) em que terão morrido 69 pessoas.

Nada de novo na história de Cláudia. Apenas uma repetição.

Quanto vale a vida de um pobre no Rio do Papa, da Copa e dos Jogos Olímpicos. Quanto vale a vida de uma negra? E quanto brasileiros têm compactuado com isso quando não protestam contra o “sumiço de bandidos”? São incómodas as perguntas? E o que são  a morte de Cláudia e o desaparecimento de Amarildo ?

 

“Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.

O que você faz?

Nada.

Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.”

Eliane Brum, Também somos chumbo das balas, Julho 2013

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Prefácio para a Copa

Copa do Mundo 1950

Como o personagem do poema de T. S. Eliot que media sua vida em colheres de café, os brasileiros podem medir a sua vida em Copas do Mundo. Meio a sério, meio a brincar dizem que o futebol foi inventado pelos brasileiros na Pré-História quando um pré-brasileiro fez um passe com o crânio de um inimigo. Bem, foram eles que inventaram a “pelada de rua” em que qualquer coisa vagamente esférica faz as vezes de bola, as balizas se erguem com os que estiver à mão, latas, tijolos ou até os irmãos mais novos, mesmo sob o voto de protesto dos mesmos, e a diversão dura até “mamãe” chamar, os vizinhos chamarem a polícia ou anoitecer.

Se é difícil encontrar um norte-americano que não tenha uma obsessão pelo seu psicanalista – se a Bovary ou a Karenina fossem americanas, antes do adultério passariam pelo divã ou do divã para a cama – é ainda mais complicado encontrar um brasileiro que não seja fascinado pelo futebol. Dessa paixão nasceram livros inesquecíveis. Um deles é “À sombra das chuteiras imortais”, de Nelson Rodrigues, uma colectânea de crónicas sobre futebol.  O facto de algumas crónicas terem sido escritas na época do “brasileiro vira-lata” – o adepto de futebol destroçado pela derrota contra o Uruguai no Maracanã na “Copa” de 1950 – não lhe retira nem actualidade, nem beleza. O tempo é uma convenção que não existe para as mulheres apetecíveis [e os seus congéneres do sexo oposto], nem para as crónicas de Nelson Rodrigues.

Nele o que se passa em campo é apenas um pretexto para espreitar pela fechadura, como um menino, e pelo buraco contemplar os anjos e os demónios da sua devoção e com eles tudo o que de mais humano existe: o medo, a solidão, o heroísmo, a grandeza, a obsessão, o amor e o sexo [sabem qual é a diferença entre sexo futebol? Quase nenhuma com duas excepções, futebol não se pode usar as mãos e o sexo, felizmente, não é organizado pela FIFA. O resto é tudo igual, ide ler o Veríssimo].

No Maracanã, um paraíso com escadas demais, mas um paraíso, Nelson Rodrigues, que era míope, tinha sempre alguém ao lado para soprar os lances que a vista não alcançava. E isso não o impediu de (d)escrever relatos de jogos magníficos.

“Vamos enfrentar a Espanha. Diante de nós abre-se todo um horizonte de chifres, ensanguentado de chifres.Vejam vocês o que é a chance histórica. A distensão de Pelé foi para Amarildo como a Revolução Francesa para Napoleão. E eu imagino como andará o craque alvinegro no Chile. Antes da distensão de Pelé, que fazia ele? Como o pescador de O velho e o mar, sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. E, então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro “saudoso de feridas”.

Quer melhor prefácio do que “À sombra das chuteiras imortais”, e o que se pode ler nas entrelinhas desse jogo mágico, para a Copa? Vá por mim, não há.

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Fragmentos de Buenos Aires

1.Conta o livreiro Arturo Pena Lillo, em “Los Encantadores de Serpientes”, que nos primeiros anos do século passado, num alfarrabista em Buenos Aires alguém descobriu entre os livros empoeirados um grosso volume. Depois de negociar com o livreiro o comprador paga oitenta pesos pelo livro e atravessa sorridente a soleira da porta. Mais tarde aquele livro amarelecido de Lavalle era um exemplar da Bíblia de Gutenberg  e foi vendido ao Museu Britânico por dez mil libras.Esta é uma das muitas histórias de livros de Buenos Aires, cidade onde ficção e realidade se confundem, como nos livros de Borges. Foi num pequeno alfarrabista da cidade  que Umberto Eco descobriu, em 1970,  um livrinho com abundantes citações do monge beneditino alemão Adso de Melk, o narrador de “ O Nome da Rosa”.

Bebo  um café  no El Atheneo, magnífico cine-teatro convertido  em livraria. Buenos é assim:  cafés com livraria, livrarias com café. Suspiro ( e um estrago considerável em pesos).

2. Se tivesse que descrever Buenos Aires associando-a a cada um dos  cinco sentidos escolhia os jacandarás em flor, prepotentes de azul-lilás, o tango de Gardel e Piazzolla  em Palermo Viejo e nas placitas com a sua coreografia de corpos suados – ou não fosse, como dizia Borges, “o tango uma espécie de simulacro do coito”, o cheiro do Asado porteño de domingo, poema feito de carne, e o sabor das medias lunas do Café Tortoni, que é um pouco como a brasileira de Lisboa. Nunca vi uma cidade na América Latina, talvez com a excepção de Olinda, que me lembre tanto Lisboa.  É como que se nunca tivesse partido.

[ outro dos sons que a associo a Buenos Aires, má sina a minha, é a gritaria histriónica das adolescentes em frente ao hotel onde estava hospedado o Justin Bieber.Ohmmm]

3.Em Buenos Aires o passado está em todo lado. Crimes por esclarecer da ditadura, nazis,  desaparecidos, mães de Maio, Perón, Evita. No cemitério da Recoleta, “retórica de sombra de mármore” – um dos lugares de Buenos Aires onde o preço por metro quadrado é mais elevado – há peregrinações para ver o túmulo de Evita, mesmo com o sol a queimar a pele. Don’t cry for me Argentina.  Talvez uma parte do afecto seja mito, talvez toda a memória também o seja.

4.Tomei estas notas  incompletas de Buenos Aires em Novembro, tinham ficado esquecidas no caderninho à espera de tempo para as depurar. Mas como o tempo fugit e fugit a uma velocidade incrível partilho-as assim como fragmentos nómadas, sem mapa , com clichés, “sin aventuras” mas com assombro.

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Uma explicação para o meu silêncio (ou crónica da minha quase morte)

A minha paixão por Moçambique é conhecida e  pela mesa também. Já aqui escrevi que me inquietam as pessoas que não apreciam os prazeres da mesa e os doces. É como se estivessem amputadas. Apreciar a comida é poesia e música. Aber, como diriam os alemães  às vezes quase mata (como conta, com muito humor, o companheiro de infortúnio e ilustre sportinguista jpt).

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