Algumas horas antes de aterrar em Changi as hospedeiras distribuem os habituais formulários de fronteira e uma brochura informativa sobre os artigos proibidos em Singapura. Por entre os itens comuns surge o inesperado:pastilhas elásticas.
Desde 1992 que o consumo público e a comercialização de pastilhas elásticas é proibido no país. Upsss. Acende-se uma luz vermelha na minha mente (e já me imaginava a pagar uma multa de quinhentos dólares e a usar um colete amarelo enquanto fazia serviço público) ao lembrar-me dos vários pacotes que coloquei na mala.
Um ensinamento que retive das muitas viagens que fiz é: keep calm and smile. Resultou. Entretanto, devo admitir por uma questão de honestidade que, não se tratou apenas de galhardia, as coisas ficaram mais fáceis, como dizem os brasileiros, porque o oficial de fronteira ao ver Portugal no passaporte lançou um “Ronaldo, Mourinho. Portugal vai qualificar-se para o mundial?”. Retorqui que “sim claro vamos ao mundial”. Segundo ensinamento: nunca duvidar da utilidade do futebol (estive quase a prometer não fazer mais piadas sobre o Jorge Jesus, mas isso também era ir longe demais. A propósito sabem a partir de que temperatura o treinador daquele clube lisboeta rival do meu entra em delírio? Aos 92 graus Chelsius.)
Como ia estar apenas um dia em Singapura escolhi um hotel central com motivos de interesse ao virar da esquina. Poucas vezes terei visitado uma cidade asiática (e não só) tão limpa, segura e concentrando numa pequena superfície uma multiplicidade cultural e arquitectónica fascinante, de edifícios coloniais como o Raffles Hotel – onde se hospedaram Herman Hesse, Joseph Conrad e Somerset Maugham (que terá escrito muitos dos seus contos asiático sob a sombra de uma Frangipani no jardim do hotel) e lugar, segundo a lenda, onde terá sido morto o último tigre de Singapura – à Chinatown, passando pelos futurista teatros do Esplanade (uma das mais controversas construções da cidade, à qual os locais chamam devido à forma “durian”, fruto bastante apreciado na Ásia com um odor muito característico a podre).
É possível percorrer a cidade toda de transporte público (pontuais, limpos e com condutores prestáveis) e há sempre alguém com a cortesia asiática disponível para indicar a uma gringa distraída a rua onde devia ter virado. Ohmmm.
Sendo o mundo uma ostra o primeiro restaurante como que me deparei,bem perto do hotel, foi o Brotzeit, uma cervejaria bávara com empregados brasileiros que diziam abanatúliche (para aber naturlich, claro que sim) e esrréguinitebald (es regnet bald, vai chover em breve). Resolvo fazer uma avaliação sociológica. Lancei um olhar transversal e descobri duas caras conhecidas do voo de Frankfurt. Não sinto nem de perto a necessidade de comer comida alemã em Singapura e como acredito que o veículo adequado para a aproximação cultural é a gastronomia, sigo para o restaurante do Marina Bay. Resumo a experiência em três notas breves: o restaurante situa-se no 56 andar e tem uma vista panorâmica de provocar dificuldade respiratória a um atleta olímpico, o camarão tempura era uma ode ao palato (com o detalhe do crustáceo ser moçambicano), para indemnização espiritual depois de jantar e de assistir ao anoitecer, deixei-me ficar no terraço mais cobiçado de Singapura, a ler “A Vida Inútil de José Homem” (a história da amizade entre um velho e um órfão angolano de nove anos ou um conto que nos ensina que nunca é tarde de mais para amar e que Deus fala de muitas maneiras). Tudo se silenciou à minha volta em redor da ternura desse livro. Nem me dei conta das horas. Resvala-me o pensamento para o voo que tenho de apanhar no dia seguinte.
A manhã despertou amena, da janela do taxi observo as palmeiras às quais prenderam corações – uma instalação artística muito semelhante às Maibäume – encadeio impressões e os pensamentos encaminham-se para contradições: gosto desta cidade-país, da sua ordem, da sua diversidade, do orgulho gentil dos que a habitam, mas sinto o travo amargo de um regime,embora democrático, autoritário q.b.. Singapura lembra-me uma bela janela iluminada vista da rua, cuja luz resplandecente convida a entrar. As imperfeições desenhadas a escopo pela luz, só as vê quem atravessa o beiral da porta.




